Escritas

Lista de Poemas

Memórias

(a meu pai)

Enquanto eu corria descalço
pisando em estrelas
meu pai numa labuta infinda
enfrentava o sol

Às noites com seu violão
que nunca chegou a dedilhar
espalhava sua poesia no ar
Velho poeta, ninguém como você
soube cantar o amor e a dor dos
seus dias

É pena que o mundo conheça apenas
os escritores feitos
e desconheça a poesia de um lavrador

Os anos foram tantos
os sonhos de menino
perderam-se no barquinho
que num dia de chuva
naveguei

Meu pai hoje velho
resistiu a tudo
e por detrás do muro
vejo o seu vulto

Pensando no menino que se fez homem.

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Nascente

O sol nascia
por detrás
da nascente das águas
dos olhos da menina.

Da nascente dos olhos da menina
jorra uma esperança antiga,

semente fértil,
olhar fecundo
a se derramar
sobre o mundo.

E a nascente fertiliza
As águas se juntam,
a menina se entrega
e assume o fruto.

O sol se põe
e à menina resta
o fruto;

E nos olhos da menina
ainda reside a esperança antiga.

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Muro

No povo
vejo o mundo

Vejo o mundo
como um muro,

que separa o homem
do próprio homem.

O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.

Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos

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Sinos

Os sinos batem
e bate em meu peito
uma dor profunda

Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo

Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda

a dor de perder,
parte do meu mundo.

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Primeira Vez

Um dia João
resolveu sair
do seu silêncio

e em frente à fábrica
pôs-se a recitar poesias

era hora do almoço . . .
barriga vazia
Todos olhavam-no
admirados

negavam-se a acreditar
que aquele fosse
"o joão de todos os dias"

Foi alvo das atenções
pela primeira vez na vida

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Alicerce

Nas bases fortificadas
de cada coração
nos gestos trabalhados
de cada ato.

Nas avenidas iluminadas
no pátio das universidades
nos pensamentos obscenos
que ora nos invadem.

Nos gritos abafados
na noite
nos movimentos especulativos
da morte.

Nas rondas soturnas das estrelas, a nos
[seguir

ESTÁ O ALICERCE DO PROJETO
[QUE É A VIDA

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Dos caminhos

Dos caminhos nada sei
a não ser os passos incertos que dei
vez ou outra sem saber os achei
e me perdi ao encontrar você

Dos caminhos nada sei
a não ser o brilho dos olhos
a construir o trajeto e as
mãos vazias a tatear um verso

Os caminhos me são estranhos
assim como o são esses seres
que nada dizem, apenas me vêem
como um entre tantos

Os caminhos me fogem às mãos
e persigo-os de fato
itinerário incerto
pés descalços . . .

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Tem dias

Tem dias que
a gente
cansa,
da vida
de tudo.

E pensa
em fugir do mundo
e escreve no muro.

Tem dias
que pensamos
em revolução

. . . e no pão

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África

(uma canção)

Negra paisagem
fere os olhos
de quem pode ver

e o medo guardado
pode a qualquer hora explodir

O palco que encena
os homens sensatos
que fazem a guerra
como quem começa
a viver

e nunca dão trégua
para que se possa
renascer

E rola no espaço
dor estilhaço
pedaços de vida
que a inconsciência
condenou

África continente
negra paz céu azul
explorada e servil

África fome e guerra
condenada e tão bela
irmã do povo Brasil

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Lua

A lua louva
A loura menina
louca
A lavar a louça

É loura a louça
É louca a menina

Lua loura
Louca paixão
da menina

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