Lista de Poemas

A Epopéia dos Malteses

Choros que o pó amassaram,
Ódios, fel desesperança,
Minha crueza geraram:
Sou a estátua da Vingança!

Maltês meu nome de guerra!
Ver-me é logo pressentir
Que o vento sul se descerra
Já mirram searas de o ouvir!
De noite vou pelas eiras,
Alma em fogo — deitar fogo
A searas, medidas inteiras:
Abraso e assim desafogo!

Sou fera? Vá, que me dormem!
E vós outros que sereis?
Não sou fera, não, sou o Homem,
Escravo firmando leis!

Meu sangue reza nas veias;
Por quem reza? Por quem chora?
Pelos que em terras alheias
Foram escravos outrora!

Oculyo no chão barrento,
Com piedade, com ternura,
Os que dormem ao relento,
Os mortos sem sepultura!

Coveiro da própia raça!
Dor de além-dor! Ao que eu vim!
Grito eo medo me trespassa,
Acordo e fujo de mim!

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Moda Alentejana

A ribeira do Xacafre
Vai rasa dos meus cuidados:
No escuro das águas tristes,
Há laivos ensanguentados…

Ó meus olhos, ó meus olhos,
— Noite e dia — que estais vendo?
A ribeira do Xacafre,
Da minha alma discorrendo!

Na ribeira do Xacafre,
uma voz suspira fundo:
A voz da minha saudade,
A despedir-se do Mundo!

Aldeia de Montes Velhos
Não posso querer-te mais:
És a luz do sol-nascente,
Abrindo, em flor, nos meus ais!

Aldeia de Montes Velhos,
És sempre luz de alvorada,
És sempre rosa do altar
Da chama duma «queimada»!

Eu hei-de florir na urze,
Arder no vento «suão»,
Lá, na Charneca das Naves,
Mar alto da Solidão! —

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Identificação e contexto básico

Mário Beirão foi um poeta português, conhecido pela sua filiação ao movimento surrealista. Nasceu em Lisboa em 1903 e faleceu na mesma cidade em 1977. Proveniente de um contexto familiar e social que permitiu o seu acesso à cultura e à educação, Beirão desenvolveu uma carreira literária em língua portuguesa. Viveu a maior parte da sua vida no século XX, um período de intensas transformações sociais, políticas e culturais em Portugal e no mundo, incluindo a ditadura do Estado Novo, que certamente influenciou o contexto em que a sua obra se inseriu.

Infância e formação

Os detalhes sobre a infância e formação de Mário Beirão são menos proeminentes nas biografias gerais, mas é provável que tenha tido acesso a uma educação que lhe permitiu desenvolver o seu interesse pela literatura. A sua absorção de movimentos literários, filosóficos e artísticos é evidente na sua adesão ao surrealismo. As leituras de autores surrealistas franceses, bem como a atmosfera cultural e intelectual da época em Lisboa, terão sido influências cruciais no seu percurso.

Percurso literário

Mário Beirão iniciou o seu percurso literário como um dos representantes do surrealismo em Portugal. O seu estilo evoluiu dentro dos preceitos do movimento, mantendo uma coerência temática e formal ao longo do tempo. Publicou em diversas antologias e publicações ligadas ao surrealismo, sendo um nome reconhecido dentro deste círculo. A sua atividade como poeta foi central na sua vida literária, embora possa ter tido outras incursões em áreas como a crítica ou a tradução, características de muitos artistas surrealistas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Mário Beirão é indissociável do movimento surrealista. As suas publicações principais incluem obras que exploram o inconsciente, o sonho e o ilógico, como é característico do surrealismo. Os temas dominantes na sua poesia centram-se na liberdade, na revolta contra as convenções, no amor e na exploração do subconsciente. Formalmente, Beirão utilizou frequentemente o verso livre e experimentou com a estrutura das suas composições, buscando romper com a métrica tradicional. Os recursos poéticos como a metáfora, a imagem surpreendente e a associação livre são fundamentais no seu estilo. O tom da sua voz poética é muitas vezes subversivo, enigmático e confessional, refletindo uma busca intensa pelo eu e pela expressão autêntica. A sua linguagem é densa em imagética e repleta de associações inesperadas. Beirão introduziu inovações formais e temáticas ao dialogar com a tradição, mas principalmente ao propor uma nova forma de ver e sentir o mundo, alinhado com os ideais surrealistas de libertação da mente. A sua obra é um marco do surrealismo português.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mário Beirão viveu e produziu durante o período da ditadura do Estado Novo em Portugal. O surrealismo, enquanto movimento de vanguarda, muitas vezes entrou em conflito com os regimes autoritários e conservadores. Beirão manteve relações com outros escritores e artistas surrealistas portugueses, formando um círculo criativo importante. Pertenceu à geração que procurava renovar a arte e a literatura portuguesas, num diálogo por vezes tenso com a tradição e com os seus contemporâneos. A sua posição filosófica e artística, alinhada com a liberdade de expressão e a contestação, certamente o colocou numa posição de diálogo crítico com o contexto social e cultural da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes sobre a vida pessoal de Mário Beirão, as suas relações afetivas, amizades, crises ou profissões paralelas não são amplamente documentados em fontes gerais. No entanto, é possível inferir que a sua dedicação à poesia e ao movimento surrealista moldou significativamente a sua vida, possivelmente envolvendo experiências boémias e um engajamento profundo com as ideias do movimento.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Mário Beirão é reconhecido como um nome importante do surrealismo português. Embora possa não ter alcançado um reconhecimento institucional massivo durante toda a sua vida, a sua obra tem sido objeto de estudo e valorização no âmbito da literatura modernista portuguesa. A receção crítica da sua obra, especialmente no contexto surrealista, destaca a sua originalidade e a sua contribuição para a renovação estética.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Mário Beirão passam, sem dúvida, pelos mestres do surrealismo francês, como André Breton. O seu legado reside na sua contribuição para a afirmação do surrealismo em Portugal, inspirando gerações posteriores de poetas que valorizam a liberdade de expressão, a exploração do subconsciente e a inovação formal. A sua obra faz parte do cânone da poesia modernista portuguesa e tem sido objeto de estudos académicos que analisam o seu papel no movimento surrealista.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mário Beirão oferece múltiplas leituras, convidando a uma exploração das profundezas da psique humana. Temas filosóficos e existenciais, como a natureza da realidade, a liberdade e a busca pela identidade, são subjacentes à sua poesia. Debates críticos podem centrar-se na sua adesão ao surrealismo, na originalidade das suas imagens e na sua capacidade de traduzir o universo onírico em linguagem poética.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade de Mário Beirão, ou episódios marcantes da sua vida pessoal, poderiam enriquecer a compreensão do seu perfil. As suas práticas de escrita surrealista, os locais que frequentava ou os rituais que associava à criação poética são curiosidades que poderiam iluminar o seu processo criativo e a sua relação com o movimento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Mário Beirão faleceu em 1977. A sua memória perdura através da sua obra poética, que continua a ser estudada e apreciada como um importante testemunho do surrealismo em Portugal. Possíveis publicações póstumas ou reedições da sua obra contribuem para manter vivo o seu legado.