Lista de Poemas

O Trem de Ferro

Passa o rio
passa a ponte
passa o sol
e passa o vento
passa o cavalo no pasto
passa boi
passa boiada
passa o cachorro sarnento
de todos e de ninguém
passa a moça na janela
meninos jogando bola
meninos vendendo frutas
mendigos pedindo esmola
já passaram mais de cem.
O que passa neste trecho
passa no trecho que vem.

O trem passa sempre cheio:
mudança que vai, que vem.
Ninguém está satisfeito
onde está e com o que tem.

Passa a vida e passa o trem...

1 035

Infância

Pelos caminhos da minha infância
sigo os teus passos na manhã
do teu ofício e meus deveres.
Ora encurtas teus passos, me esperando,
ora apresso os meus passos e te alcanço.
O importante é que se combinem como o corpo
e a sombra, e não importa qual dos dois
tem que ceder para acertar o compasso.

No percurso me ensinas uma flor
pousada como um pássaro num ramo
ou me explicas os pássaros no vôo
e me respondes o porquê das coisas.
Por quê? — vou sempre perguntando.
E descubro que atrás de cada mistério
há outro mistério e outro mistério.

Mistérios que nenhum de nós jamais desvendará.
Ninguém.
O homem poderá descobrir o universo,
voar entre as estrelas,
mas jamais descobrirá o que deseja descobrir.

Mas tudo se aclara, enfim, quando chegamos.
Esquecidos os mistérios,
enfrentamos a nossa lúcida rotina:
a tua — a de ensinar,
a minha — esta miscelânea de pequenos deveres
e grandes interesses,
esta vontade de descobrir o mundo
e inventar o céu.

Salpico o chão da escola com a água
de uma garrafa de rolha recortada;
varro, espano, encho de água a grande talha de barro
vermelho.
Enquanto isso, lá fora, as crianças em fila cantam.

II
Desço correndo
o morro-do-meio:
o sol me ofusca e o sangue do nariz salpica
o meu vestido branco.
Só consigo parar ao pé da ponte.
Lá vem seu Totonho-benzedor rodeado de gente
e seu Totonho e a gente que o rodeia
me rodeia.
Um lenço branco se tinge de vermelho
sob meu nariz.
Seu Totonho benze e diz:
"Mais vale o poder de Deus
do que o poder deste mal."
Uma prima me leva e empresta outro vestido.
Saio de azul da casa
e entro na venda de seu Roldão:
— Mamãe mandou buscar uma réstia de cebolas.

Havia poesia no sol, no morro, na ponte,
naquele deslumbramento de liberdade
na descida do morro,
no sentimento de importância de ver o povo
aglomerado em volta da menina
que veio voando com asas brancas
salpicadas de sangue.

De volta, passo a passo, subo o morro.
Ninguém mais nas janelas ou na rua.
Trago a réstia de cebolas como uma coroa de louros
conquistada no escuro.

966

A Moça da Praça Mauá

I
De onde vem?
Para onde vai
a moça de olhos de gata?

Parou na praça.
Pararam
grumetes em torno dela.

A moça não tem destino:
só tem caminho de ir,
no escuro da vida, ao cais
onde espera os marinheiros
(urgentes, por demorado
percurso na solidão).

São eles que vêm e vão...

Não lhe trazem "souvenirs"
nem contam as aventuras
do mar e de estranhos portos.
Nem passado e nem presente

lhe contam. Nem ela os tem
para contar a ninguém.
Iguais, no seu merecido,
um dia vai, outro vem.

II
Um dia a encontraram morta
no cais da Praça Mauá.
Suicídio, acidente ou crime?
Nem foi preciso indagar...
Morreu simplesmente a moça
que não recebeu da vida
seu tempo de armazenar.

Acodem três cavalheiros
de branco (tarde demais!)
e a levam num carro branco.
Mas não de branco vestida
vai ela ao eterno cais.

Sobre toda a humanidade
pesa o peso desta morte
da moça que não viveu
estória de se contar,
condenada ao seu caminho
de ir ao cais e voltar
sempre, sempre, sempre, sempre...
sempre sem rir, sem chorar.

III
Morreu a moça dos olhos
de gata. Morreu? Mentira!
A moça de olhos de gata
nasceu com o cais, viverá
o tempo de duração
do cais da Praça Mauá.

Lá está outra vez na praça.
Grumetes desembarcados
dos mares da solidão
(nascidos também com o cais
só com ele morrerão)
urgentes seguem os passos
do seu primeiro destino
em terras de arribação.

A moça de olhos de gata
é porto de solidão.
Nasce e morre. Morre e nasce.
Traz estampado na face
seu horóscopo malsão.

De onde vem? Para onde vai?
A moça não tem destino;
seu tempo ficou parado
no marco da condição.

1 201

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Maria Braga Horta é uma poeta de nacionalidade portuguesa. A sua obra insere-se num contexto literário contemporâneo, explorando a profundidade da experiência humana.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Maria Braga Horta não estão amplamente disponíveis publicamente, mas a sua obra sugere uma sensibilidade apurada e uma formação cultural que permitiu o desenvolvimento de uma voz poética distinta.

Percurso literário

O percurso literário de Maria Braga Horta é marcado pela publicação de obras que têm vindo a consolidar a sua presença no panorama poético. A sua escrita evolui no sentido de uma maior profundidade temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Maria Braga Horta caracteriza-se pela exploração de temas universais como o amor, a solidão, a efemeridade da vida e a busca por sentido. A sua linguagem poética é cuidada, marcada pela musicalidade e pela força das imagens que cria. O tom da sua poesia é frequentemente lírico e reflexivo, convidando à introspeção.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Maria Braga Horta insere-se no contexto cultural e literário português contemporâneo, dialogando com as preocupações e estéticas que marcam a poesia atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Maria Braga Horta não são amplamente divulgados, privilegiando-se a sua expressão artística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A poesia de Maria Braga Horta tem vindo a conquistar um público apreciador pela sua qualidade estética e profundidade temática, sendo reconhecida pela sua singularidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam detalhadas, a sua obra dialoga com a tradição lírica, adaptando-a a uma sensibilidade moderna.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Maria Braga Horta permite diversas leituras, incidindo sobre a complexidade das emoções humanas e a sua relação com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre aspetos menos conhecidos da vida ou obra de Maria Braga Horta não se encontram facilmente disponíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Maria Braga Horta encontra-se viva e a sua memória é construída através da sua obra poética.