Escritas

Lista de Poemas

COMPOSIÇÃO EM PRETO E BRANCO

fosse a pintura recomposta
com tonalidades preta e branca
para que habitassem, mesmo opostas,
o espaço da tela
fossem as figuras ovaladas,
como as fez um dia mestre Grego
nem tão santas, nem tão profanas,
lado a lado postas
fosse o predomínio do tom preto
como do profundo sobre o plano
para que só uma fresta,
uma réstia de luz se insinuasse,
espécie de anunciação,
às avessas, e queimasse o quadro
com fogo discreto, mas permanente,
e se desse a fuga
por aquela réstia de luz,
na tela sobrasse a ausência
e no canto a assinatura de um poeta
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Goya

o quadro de Goya me devora

olhares
com dentes engolem
as primaveras
sobre a mesa da sala
nada

não mais flores mortas enfeitando o dia
                                        na vida cômoda
o quadro de Goya
                                      rejeita
a cor que não for sombra
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ARQUITETURA E ASAS

Quem planeja, desenha limiares,
não superfícies fechadas, paredes
não toldos, telhas, tetos, mas áreas
que se soltam das linhas das maquetes
No ofício de ver o ainda invisível,
argamassa desejos com pó de asa,
porque dentro de toda pedra vive
o avesso da pedra, de nome audácia

Quem habita, joga no espaço uma âncora,
sente o peso do porão e fantasmas,
entra em contato com o que havia antes,
que o tempo é também uma espécie de casca
Logo quem habita uma casa, habita
os dias que se abrem em quartos, salas
com janelas de fundos, cuja vista
é paisagem interna, temporária

Quem planeja, desenha perspectivas,
não supõe o inesperado despejo,
interdito de muros, cerca viva,
separação sem recurso ou apelo,
traça no papel a vida viável,
o chão que nasce através dos passos,
com arquitetura que se sabe ave
e não se prende às regras da sintaxe

Quem as habita, habita limiares
como se para além da régua e compasso
houvesse a morada solta nos ares
dentro de insuspeitos tempos e espaços
Quem do concreto um dia se desgarra
faz casas só de sonhos e presságios
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PERPETUUM MÓBILE DE MAGRITTE

olhar é um exercício de peso
requer músculos para abstrair
e manter o objeto em equilíbrio

o reflexo torna-se o espelho
e move-se ao redor de si mesmo
mecânico, preciso, presto

a ilusão deforma a figura
em jogo de sombra e geometria:
engano à primeira vista

com o tempo vê-se o truque
mas ele faz parte do quadro
como pergunta que, se pintada,

propõe pensar outros ângulos
desfazer o até então familiar
e lugar-comum fora de lugar

recupera o espanto
a efemeridade perpétua
do homem preso na tela

o rosto se movimenta, círculo
de observações da mesma cena:
nenhum objeto é idêntico

o que é magritte ou chirico
também não se sabe, se lado a lado
fingem afinidades e correlatos

em um mundo que se desloca
permanentemente e sem propósito
estranho, quanto mais próximo,

e, se aos olhos surpresa joga
em móvel exercício de peso,
busca a visão sem excesso, seca
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O desertor

A questão é que o desertor
nos faz pensar em duas partes:
o mundo de que se deserta
e o outro, para o qual se evade.

Daí o temor, o mal-estar,
a maldição a quem discorda:
às vezes, a lei diz mais alto,
pune o desertor com a morte.

A questão é que ele talvez
pudesse ter razão, portanto
quem permanece não perdoa
quem faz tudo não ser como antes.

Agora que há em nós a dúvida:
«é este mundo razoável?»
Como não culpá-lo por isto?
Como olhar-se no espelho em paz?
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NAVEGAÇÃO À DERIVA

quem navega à deriva
sabe que há vida além dos mares nos mapas
além das bússolas, astrolábios, diários de bordo
além das lendas dos monstros marinhos, dos mitos

quem navega à deriva
acredita que há nos mares miragens, portos
inesperados, ilhas flutuantes, botes e salva-vidas
água potável, aves voando sobre terra, vertigem

quem navega à deriva
aprende que há mares dentro do mar à vista
profundidade secreta, origem do mundo, poesia
escrita cifrada à espera de quem lhe dê sentido

quem navega à deriva
se perde da costa, do farol na torre, dos olhares
atentos, dos radares, das cartas de navegação
imigra para mares de imprevista dicção
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A CAMISA SETE DE MANÉ GARRINCHA

para Alfredo Jacinto Melo

Ele dribla João-joãos e até a sombra,
para e espera que o adversário retorne.
Então repete o drible e, como cabe ao ponta,
cruza na área oposta a precisa pelota. 

Desliza no gramado e, leve feito uma ave,
foge dos estilingues que miram seu corpo.
Seu vôo é solto na hora em que lhe dão o passe
e, mesmo baixo, sobe no ar e marca o gol. 

Finge-se de invisível aos olhos dos beques
e dribla o jogo com seus lugares-comuns.
Ri por dentro de tudo como se um moleque
que sempre prega peças na terra do nunca. 

E, se alguém lhe pergunta de onde o seu driblar,
de onde o truque de seus pé que se mexem mágicos,
responde com um sopro e se faz pluma no ar: 

Mané é apelido de menino-pássaro
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IRREVERSÍVEL

desapareceu num quadro de Van Gogh
sem deixar vestígios

quem sabe o líquido que existia em sua taça?
talvez as palavras não tenham sido suficientemente tácitas

seria capturado num leilão tardio?

ou sob a forma de um trigo teria amadurecido

a paisagem e o desvario

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O TABULEIRO DE XADREZ

A mesa posta só lembra a espera,
talvez a espera da morte, da peste,
ou jogo de xadrez com o propósito
de adiá-la, deixá-la à espera, só,
na ante-sala da vida, de ironia. 

Em uma hora decerto serviriam
vinho sobre a toalha de xadrez,
para que a morte então perdesse a vez
no jogo e, sem olhar para o relógio,
esquecesse que a vida torna ao pó. 

Com tudo em seu lugar, a mesa em ordem,
não há medo diante de tal morte.
Talvez seja afetuosa e aprecie
a boa prosa e cálices de vinho,
enquanto o tempo e o jogo passam lentos. 

Na casa limpa, olham-se frente a frente
e brindam, mas no fundo esperam ainda
que a outra se embriague com o tinto.
Na toalha aparece estranha nódoa:
marca suja da vida, despropósito.
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