Lista de Poemas

Mulher com chapéu

Consta que no Salão
de Outono de 1905,
uma assistente da
exposição apontou
indignada para o quadro
Mulher com chapéu,
no qual Matisse
havia retratado sua esposa:
“Não existe uma
mulher com nariz
amarelo!”. Ao que
o pintor respondeu:
“Não é uma mulher,
senhora. É um quadro”.
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Sanatório Montenegro

Quando você percebe que algumas pessoas adoram
deixar informações adicionais, e aparentemente
despretensiosas, num canto do assunto, como
quem não quer nada, só para impressionar.
Quando você se sente como naqueles filmes
em que o panaca é confundido com alguém
importante. Sua marcha atlética ridícula entrando
por engano na pista dos 100 metros rasos.
Quando se pega mijando no poste porque o
banheiro está sempre lotado. Quando rouba
um olhar constrangido – lindo – da mulher
que ajeitava os cabelos na porta de vidro do metrô.
Quando imagina aquele amigo do Kafka falando
com ele: – “Não, não vou queimar seus gritos.
Seu riso tímido de nicotina na garrafa térmica
da repartição”. Quando acabou de ver as horas,
mas não lembra que horas são. Quando,
esperando para atravessar a rua, você fica vendo
as janelas dos carros fatiarem seu reflexo.
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Três pensatos

1.
PENSO naquela única gota
gelada do chuveiro quente.
Nas ilíadas clandestinas
que a febre percorre
até virar suor. Penso nas caretas
que os músicos fazem
quando estão solando.
No meu pai me dizendo
que tudo isso aqui era mato.
Penso na imagem exata
de uma aurora indecisa.
Penso em calços de papelão
para pianos mancos.

2.
PENSO em alguém que, na manhã
do dia de sua morte, desiste
de usar a camisa que mais gosta,
preferindo guardá-la para uma festa
que terá na noite seguinte.

3.
PENSO em você, por exemplo,
largando o controle
remoto e dizendo –
do jeito mais lindo
do mundo – que adora
quando consegue pegar
um filme do começo.
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Bruxismo

Isto podia ser outra coisa. Uma bebedeira, por
exemplo. NÃO, não uma bebedeira, mas o começo
encantador da embriaguez. Um dia bom, qualquer
motivo, a vida irrigando o corpo com nicotina.
Podia ser uma baleia encalhada na praia
do amor. Um pote de raiva esquecido no sótão.
Podia ser uma antena em estado de coma.
Ou cacos de vidro num fliperama. Um fotógrafo
desolado por não estar com sua câmera
naquele momento. Ou um menino sentado
na ponte, balançando os pés ao som de si mesmo.
Podia ser uma seleção de crônicas publicadas
em lugar nenhum. Um deus discotecando
instantes. Um hidrante aberto no agora.
Podia ser uma mulher suspendendo a barra
da calça para saltar uma poça. Aqueles insetos
que morrem após a picada. Uma adega de
ausências que o tempo elabora. Podia ser
um exame que, buscando uma coisa, diagnostica
outra. SIM, podia ser isso tudo. Uma solidão
acesa no abajur da melodia. Um macaco
se olhando na água no primeiro dia do mundo.
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