Escritas

Lista de Poemas

Mulheres

Pela simples razão de eu ser viril e poeta
que celebra, encantado, eternas bodas,
olho as mulheres todas
com o mais impertinente interesse de esteta.

Por isso, às três da tarde e às vezes antes,
desconhecido entre desconhecidos,
levo para a Avenida uns ares importantes
e afinado o quinteto dos sentidos.

E ficou a deambular a tarde inteira
entre snobs e Apolos de pulseira.

Fico-me unicamente para vê-las
no florir do seu viço,
para senti-las, para analisá-las,
do autêntico ao postiço,
umas — soberbas, fúlgidas estrelas,
outras — de um palor lânguido de opalas...

E enrodilhando-as em olhares ledos,
o que se passa em mim pode ser comparado
àquele querer-tudo alvoroçado
das crianças nas lojas de brinquedos.

Olho-as, remiro-as de alto a baixo, sigo-as,
dispo-as, ponho-as em pose, impassíveis e brancas,
ora aqui desvendando imperfeições ambíguas
de atafulhadas ancas,
ora ali descobrindo, entre êxtase e surpresa,
formas definitivas de beleza.

De algumas eu já sei nomes, histórias, vidas,
crônicas passionais,
prestigiadas do encanto de um mistério;
biografias heróicas, doloridas,
escândalos banais
e banais episódios de adultério.

Porém, todas as mesmas, em conjunto,
maravilhoso assunto
de um poema intenso, em que ando a meditar,
e com um título antigo, assim ao jeito
das inscrições dos velhos pergaminhos:
"Das perfídias que hão feito
as mulheres, os vinhos
e as cartas de jogar".

(...)

Rio de Janeiro - 1909.


Poema integrante da série Dispersos.

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.139-14
👁️ 1 653

Feia

Feia!... Como isso dói na tua alminha débil!
É nobre a coitadita, e muito a contraria
ser forçada a morar numa tal moradia...
Eis aí porque a vejo amargurada e flébil.

E é por seres assim que eu te quero assim tanto,
com este amor tão limpo e tão sem egoísmo,
pois logo a sujaria o meu sensualismo,
se animasse essa carne algum sopro de encanto.

Toda vez que me vem de tua alma perfeita
esse ar de doçura e pesar sossegado,
evocas-me o sabor que já tenho encontrado
em certos frutos sãos, mas de casca suspeita.

Água fresca bebida à beira de uma fonte,
em mau copo de folha, enferrujado e gasto...
Como deve bater penosamente casto,
sob o teu peito murcho, o coração insonte!

Borboleta que sai de um casulo rugoso...
teu sorriso não traz convites para o beijo:
antes pede perdão... manifesta o desejo
de que não se repare em teu corpo anguloso.

Sei que um dia choraste, assistindo a uma boda,
porque viste alguém rir do teu porte mesquinho.
Já chegaste a dizer, encontrando um ceguinho:
— Que bom se fosse cega a humanidade toda!

Entristeceste ao ver, numa revista de arte,
um "tipo de beleza"... E terias a palma
se fosse dado a alguém fotografar tua alma...
— não havia mulher tão linda em toda parte.

Dói-te se ouves falar, quando estás numa roda,
na formosura desta ou daquela mulher.
Vês em cada semblante um motejo qualquer...
e descreste, por fim, dos recursos da moda.

Imagino que horror deves ter aos espelhos!
E a crueldade da água em que lavas o rosto
há de forçosamente encher-te de desgosto,
repetindo que és feia e dando-te conselhos:

— Que não tenhas vaidade e não sejas faceira...
Parece-me que a ti um tal conselho é inútil,
pois tua alma sadia, abençoada e dúctil,
é uma flor que nasceu dentro de uma caveira.


Publicado no livro Via Sacra (1902).

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.47-4
👁️ 1 398

Bucólico

Para o Paulino de Azurenha

Zagala, guardadora de esquivanças,
que pascem noutros montes, noutros ares,
guia na direção destes lugares,
o teu rebanho de ovelhinhas mansas.

Brancas ovelhas, minhas esperanças,
— rebanho que a tanger por entre algares,
tenho feito com zelos e pesares,
o mais viçoso destas vizinhanças, —

ao som da agreste avena e dos sincerros,
alcantilados e frolidos serros
galgai, transpondo vales e barrancas,

e à zagala e a seu gado, em sítio estranho,
ajuntai-vos, formando um só rebanho,
ovelhas mansas, ovelhinhas brancas.


Poema integrante da série Sonetos de Amor.

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.5
👁️ 1 352

A uma Velhinha

No dia de Natal

Boas festas, velhinha! Eu te dou boas festas,
nestes versos que faço à glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, as tuas cãs honestas,
— lindo corado ao sol de trinta mil manhãs.

Consente que eu te beije as mãos mumificadas,
trêmulas de sentir o frio dos desenganos;
mãos secas, espetrais, tiritantes, cansadas
de tanto abençoar durante oitenta anos.

E tomem essas mãos — camélias fenecidas,
que ora o amor elevou, quais ramos de oliveira,
ora o ódio agitou, crispadas, contraídas —
os versos em que evoco a tua vida inteira.

Já no tempo em que os teus cabelos foram pretos
e se usavam bandós, e os toucavas de flores,
um poeta de então fizera-te uns sonetos.
onde muito falava em — olhos sonhadores!

Inda os sabes de cor! — Os netos que os confrontem
com os versos de agora... E pões-te a recitar...
Bons tempos!... E parece entanto que foi ontem...
Não te podes conter... e ficas a chorar...

Choras... Que a tua vida é uma flor em desfolhos...
Sonhavam, velam hoje os teus olhos tristonhos.
Os sonhos, noutro tempo, erravam nos teus olhos;
os teus olhos, agora, é que erram pelos sonhos...

(...)


Publicado no livro Via Sacra (1902).

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.49-50

NOTA: Poema composto de 20 quadra
👁️ 1 195

Sugestões do Ocaso

Para o Carlos Torelly

Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma à hora do sol posto!

Ontem fazia frio, era roxo o arrebol,
e céus e terra e tudo, as árvores e as águas,
pareciam estar carpindo as suas mágoas...
Choravam de saudade, ao ver partir o sol.

E eu também fiquei triste, até eu, que sabia
que a treva era um instante e o sol ressurgiria!

A natureza tem desses fundos mistérios...
Sei que uma sepultura é o nada, a eterna paz,
e entretanto, meu Deus! não me sinto capaz
de penetrar sozinho, à noite, em cemitérios!

Segredos que a razão não nos explica: o caso
é que eu participei da amargura do ocaso.

Erguendo os braços nus, despidos pelo outono,
o arvoredo guardava atitudes de prece.
O silêncio rezava. Era como se houvesse
romarias no espaço. A tarde tinha sono.

Da paisagem subia, espiralando, o incenso
que me fazia ter o coração suspenso.

E estávamos nós dois: eu e minh'alma, ali;
eu sentado, ela em frente; e puz-me a interrogá-la...
Pois embora ela fosse um doente sem fala,
não conto, por pudor, certas coisas que ouvi.

Por Deus Nosso Senhor, que perdi toda a calma!
E haver inda quem negue a existência da alma!

Ai! como foram más, amargas, aziagas,
as horas que passou est'alma combalida!
Mas o instante de horror maior em minha vida
foi quando eu a despi e examinei-lhe as chagas!

Depois, risquei no chão, uns sinais cabalísticos...
Lembrei-me de morrer, e puz-me a escrever dísticos...

Epitáfios assim: "Foi mau, mas morreu cedo".
E havia logo abaixo, um nome de mulher...
(A gente muita vez escreve o que não quer...)
Sepultura e noivado... Estremeci de medo.

Que se a idéia de morte às vezes nos conforta,
apavora-nos ver uma pessoa morta.

E fiquei-me a cismar. Além, a lua triste
tinha molhada em pranto a palidez da face...
(Que bom seria ouvir, se a lua nos contasse,
os romances de amor a que dos céus assiste!)

Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma, à hora do sol posto!...


Publicado no livro Via Sacra (1902).

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.31-3
👁️ 997

Soneto de um Pai

Vê-la crescer, florir — viço e perfume;
Já sorri; quer falar; tartamudeia;
Diz "mamãe" e "papai" sufoca o ciúme.
Os dentinhos lhe vêm. Anda. Chilreia.

Traz a casa de risos sempre cheia.
Vai ao colégio, mas com azedume.
Aborrece as bonecas. Cresce alheia
À formosura e à graça que resume.

De moça tem cismas e alvoroços.
Põe vestidos compridos; fala pouco,
Suspira, sonha, anseia e pensa em moços.

Vê-la como fulgura numa sala...
Envaidecer-me e... chorar como um louco
Quando o noivo vier arrebatá-la!

👁️ 1 535

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment

NoComments