Escritas

Lista de Poemas

Senhor

Senhor
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida

Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia

Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus

Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus

Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada

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Com Dedos de Luar

Com dedos de luar duas crianças
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada

Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório

Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval

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Maria

Maria trazia no ventre um menino. Para ela que enchia
as horas pensando no filho nascituro, o menino era um ser
sobrenatural. Por isso, num ritmo apressado de passos,
voou pela paisagem doce da Galileia, a comunicar
a sua prima Isabel que, dentro em breve, daria à luz.
E fê-lo num tão cândido hino de amor à vida
que a prima rasgou os lábios num canto rubro de admiração:
Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!
Maria respondeu com o Magnificat, onde se reconheciam ecos de todas as mães do Mundo. E nem sequer uma palavra
de incerteza lhe murchou os lábios. Os sonhos das mães
não têm princípio nem fim...

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