Lista de Poemas

NA RUA

Ninguém por certo adivinha
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha..

Minha sempre! – E em voz baixinha:
– "Tua ainda além da vida!..."
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.

Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,

(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
– como uma tarde em Setembro...
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PALAVRAS DUM FAN'TASMA

Aquela doce e mística suicida
que me visita pela noite morta,
vim agora encontrá-la à minha porta
esperando por mim, toda transida...

Prendeu-me nos seus braços desvairados,
longamente, em silêncio, como louca..
E ainda sinto o consolo dessa boca,
beijando-me nos olhos desolados....

Depois pôs-se a dizer-me em voz baixinha:
– "Bem vês, meu pobre amor, ela não tinha
um coração como eu...

Alma de sacrifício – nunca a viste
igual à minha!... e a minha não te deu
felicidade alguma... se isso existe..."
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CARTA A NINGUÉM

Não tornes a queixar-te! Se morreu
aquele grande amor e malfadado,
porque o mataste, filha? Ai! o culpado
bem vês que não fui eu...

Julguei-te abandonada, solitária:
quis fazer da tu'alma a ideal
e doce irmã da minha... e afinal
ela era como as outras – ordinária...

Não tornes a queixar-te mais de mim!
Eu não te posso amar: amar assim,
como os outros, não sei... era um engano...

Foi bem maior que a tua a minha dor:
tu sofreste o desamor,
mas eu, filha, sofri – o desengano...
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DIÁLOGO COM UM FANTASMA:

– "Ó fantasma de alguém que soube amar
e teve um coração grande e perfeito,
porque é que vens agora soluçar,
muito abraçada a mim, quando me deito?

Porque é que tu me beijas a chorar
e me apertas calada contra o peito,
ó morta que me vinhas visitar,
debruçada a sorrir sobre o meu leito?"

E o fantasma responde-me alterado:
– "Eu sofro porque sofres. Desgraçado,
vais gozar a desgraça de viver...

Agora que tu amas, é que a vida
te dirá como é vá e aborrecida,
sem ninguém que nos possa compreender..."
648

VENDO A MORTE

Em tudo vejo a morte! e, assim, ao ver
que a vida já vem morta cruelmente
logo ao surgir, começo a compreender
como a vida se vive inutilmente...

Debalde (como um náufrago que sente,
vendo a morte, mais fúria de viver)
estendo os olhos mais avidamente
e as mãos prà vida... e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo
tudo ma lembra! e invade-me o desejo
de viver toda a vida que perdi...

E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta
... e não saber sequer pra que a vivi!
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A TRISTEZA DE VIVER

Ânsia de amar! Oh ânsia de viver!
um’hora só que seja, mas vivida
e satisfeita… e pode-se morrer,
- porque se morre abençoando a vida!

Mas ess’hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura,
oh vida mentirosa, oh vida impura,
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!

E quantos como eu a desejaram!
e quantos como eu nunca a tiveram
uma hora de amor como a sonharam!

Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram
esse sonho de amor incompreendido!
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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.

Identificação e contexto básico

Manuel Laranjeira foi um médico, filósofo e humanista português do século XVI, período conhecido como Renascimento em Portugal. Foi uma figura erudita, cuja obra se distingue pela tentativa de conciliar o pensamento clássico com as novas ideias do seu tempo e pela utilização do português como língua de expressão científica e filosófica.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância de Manuel Laranjeira. Presume-se que tenha tido acesso a uma educação privilegiada, típica dos humanistas da época, com estudos de latim, grego, filosofia, teologia e medicina. A sua formação permitiu-lhe dialogar com a tradição clássica e com as correntes de pensamento mais recentes.

Percurso literário

O percurso literário de Manuel Laranjeira é singular pelo uso do português em temas que, até então, eram predominantemente tratados em latim. A sua obra principal, "Diálogo da Grandeza dos Portugueses", é um marco na prosa renascentista portuguesa, explorando a identidade e o potencial do povo português. Embora seja mais conhecido pela prosa, a sua escrita possui uma forte componente lírica e reflexiva que o aproxima da poesia.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra mais conhecida de Manuel Laranjeira é o "Diálogo da Grandeza dos Portugueses" (c. 1535), um texto fundamental para a compreensão do pensamento renascentista português. Nele, Laranjeira reflete sobre a identidade nacional, a moral, a religião e a capacidade dos portugueses de alcançarem a grandeza. O seu estilo é marcado pela erudição, pelo uso de diálogos e pela argumentação filosófica. A sua prosa é cuidada e demonstra um domínio da língua portuguesa, elevando-a a um patamar de sofisticação intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Manuel Laranjeira viveu numa época de grande efervescência cultural em Portugal, o apogeu dos Descobrimentos. O Renascimento trazia um novo olhar sobre o homem e o mundo, valorizando a razão, o conhecimento e as artes. Laranjeira, como humanista, participou deste movimento, procurando afirmar a identidade e a cultura portuguesas num contexto europeu de renovação intelectual. O seu "Diálogo" pode ser visto como uma resposta ao espírito de descoberta e à necessidade de autoafirmação nacional.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sabe-se que Manuel Laranjeira foi médico, exercendo a sua profissão em Lisboa. Poucos detalhes sobre a sua vida pessoal são conhecidos, mas a sua obra revela um homem profundamente preocupado com a moral, a ética e o bem-estar da sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Manuel Laranjeira, especialmente o "Diálogo da Grandeza dos Portugueses", foi reconhecida como um texto importante para a literatura e o pensamento português. A sua ousadia em utilizar o português para discursos filosóficos e científicos foi um contributo significativo para a afirmação da língua.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Manuel Laranjeira foi influenciado pelo humanismo renascentista e pela filosofia clássica. O seu legado reside na consolidação do português como língua de cultura e pensamento, e na reflexão sobre a identidade e os valores portugueses. É considerado um precursor na prosa de ideias em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica O "Diálogo da Grandeza dos Portugueses" tem sido objeto de análise crítica sob diversas perspetivas: como documento histórico da época, como reflexão filosófica sobre a identidade nacional, e como marco literário no uso do português. Laranjeira procurou, através da sua obra, incutir um sentido de propósito e valor no povo português.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da obra de Laranjeira é a sua tentativa de criar um discurso científico e filosófico em português numa época em que o latim dominava estas áreas. A sua formação médica também pode ter influenciado a sua visão sobre o corpo humano e a alma.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações detalhadas sobre as circunstâncias da morte de Manuel Laranjeira. A sua memória perdura principalmente através da sua obra "Diálogo da Grandeza dos Portugueses", um texto fundamental para o estudo do Renascimento português e do pensamento humanista em Portugal.