Escritas

Lista de Poemas

NA RUA

Ninguém por certo adivinha
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha..

Minha sempre! – E em voz baixinha:
– "Tua ainda além da vida!..."
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.

Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,

(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
– como uma tarde em Setembro...
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VENDO A MORTE

Em tudo vejo a morte! e, assim, ao ver
que a vida já vem morta cruelmente
logo ao surgir, começo a compreender
como a vida se vive inutilmente...

Debalde (como um náufrago que sente,
vendo a morte, mais fúria de viver)
estendo os olhos mais avidamente
e as mãos prà vida... e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo
tudo ma lembra! e invade-me o desejo
de viver toda a vida que perdi...

E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta
... e não saber sequer pra que a vivi!
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CARTA A NINGUÉM

Não tornes a queixar-te! Se morreu
aquele grande amor e malfadado,
porque o mataste, filha? Ai! o culpado
bem vês que não fui eu...

Julguei-te abandonada, solitária:
quis fazer da tu'alma a ideal
e doce irmã da minha... e afinal
ela era como as outras – ordinária...

Não tornes a queixar-te mais de mim!
Eu não te posso amar: amar assim,
como os outros, não sei... era um engano...

Foi bem maior que a tua a minha dor:
tu sofreste o desamor,
mas eu, filha, sofri – o desengano...
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PALAVRAS DUM FAN'TASMA

Aquela doce e mística suicida
que me visita pela noite morta,
vim agora encontrá-la à minha porta
esperando por mim, toda transida...

Prendeu-me nos seus braços desvairados,
longamente, em silêncio, como louca..
E ainda sinto o consolo dessa boca,
beijando-me nos olhos desolados....

Depois pôs-se a dizer-me em voz baixinha:
– "Bem vês, meu pobre amor, ela não tinha
um coração como eu...

Alma de sacrifício – nunca a viste
igual à minha!... e a minha não te deu
felicidade alguma... se isso existe..."
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DIÁLOGO COM UM FANTASMA:

– "Ó fantasma de alguém que soube amar
e teve um coração grande e perfeito,
porque é que vens agora soluçar,
muito abraçada a mim, quando me deito?

Porque é que tu me beijas a chorar
e me apertas calada contra o peito,
ó morta que me vinhas visitar,
debruçada a sorrir sobre o meu leito?"

E o fantasma responde-me alterado:
– "Eu sofro porque sofres. Desgraçado,
vais gozar a desgraça de viver...

Agora que tu amas, é que a vida
te dirá como é vá e aborrecida,
sem ninguém que nos possa compreender..."
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A TRISTEZA DE VIVER

Ânsia de amar! Oh ânsia de viver!
um’hora só que seja, mas vivida
e satisfeita… e pode-se morrer,
- porque se morre abençoando a vida!

Mas ess’hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura,
oh vida mentirosa, oh vida impura,
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!

E quantos como eu a desejaram!
e quantos como eu nunca a tiveram
uma hora de amor como a sonharam!

Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram
esse sonho de amor incompreendido!
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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde
2024-05-28

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.