Lista de Poemas
Nos 74 anos do Manuel
Notícia completa:
https://www.publico.pt/2017/11/18/culturaipsilon/noticia/espolio-de-manuel-antonio-pina-vai-ser-digitalizado-1792911
Completas
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
Manuel António Pina, in "Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância"
Se procuro o teu rosto
Se procuro o teu rosto
no meio do ruído das vozes
quem procura o teu rosto?
Quem fala obscuramente
em qualquer sítio das minhas palavras
ouvindo-se a si próprio?
Às vezes suspeito que me segues,
que não são meus os passos
atrás de mim.
O que está fora de ti, falando-te?
Este é o teu caminho,
e as minhas palavras os teus passos?
Quem me olha desse lado
e deste lado de mim?
As minhas dúvidas, até elas te pertencem?
Manuel António Pina: a solidão e o silêncio
A solidão é uma forma de silêncio e de intimidade.
Há um espaço enorme, uma imensidão, entre nós e as palavras, e só num acto de amor é possível ultrapassar tal espaço, indo ao encontro das palavras e deixar que as palavras venham ao nosso encontro.
Excerto do documentário: "Manuel António Pina, um sítio onde pousar a cabeça" | Terra Líquida Filmes, 2012
https://vimeo.com/36287502
Separação do corpo
O corpo tem abóbodas onde soam os
sentidos se tocados de leve ecoando longamente
como memórias de outra vida.
O passado não está ainda pronto para nós,
nem o futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, nervos,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.
Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais - pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar -
do silêncio das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto. E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o mais que conseguimos.
A beleza do corpo amado é, eu sei,
lixo orgânico; e usura, de novo usura;
com o oiro e com o mármore
dos dias harmoniosos construímos
quartos de banho e balcões de bancos;
e grandes gestos, agora, nem nos romances,
quanto mais nos versos! E de amor
melhor é não falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.
Corpo, corpo, porque me abandonaste?
"Tomai e comei", pois sim, mas quando
a química não chega para adormecer
a que divindades nos acolheremos
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta História,
tanta Psicologia e tanta Antropologia?
A memória, sem o corpo, não cintila nem exalta
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos enfim calar-nos
sem temer a solidão nem a culpa
porque já não há tais palavras.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 312 e 313 | Assírio & Alvim, 2012
Quinquagésimo ano
São muitos dias
(e alguns nem tantos como isso...)
e começa a fazer-se tarde de um modo
menos literário do que soía,
(um modo literal e inerte
que, no entanto, não posso dizer-te
senão literariamente).
Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr;
a única coisa que corre é o tempo,
do lado de fora, porque dentro
a própria morte é uma maneira de dizer.
Caem co"a calma as palavras
que sustentaram o mundo,
e nem por isso o mundo parece
menos terreno ou impermanece.
Restam, é certo, alguns livros,
algumas memórias, algum sentido,
mas tudo se passou noutro sítio
com outras pessoas e o que foi dito
chega aqui apenas como um vago ruído
de vozes alheias, cheias de som e de fúria:
literatura, tornou-se tudo literatura!
E a vida? (Falo de uma vida
muda de palavras e de dias, uma vida nada mais que vida;
haverá uma vida assim para viver,
uma vida sem a si mesma se saber?)
Lembras-te dos nossos sonhos? Então
precisávamos (lembras-te?) de uma grande razão.
Agora uma pequena razão chegaria,
um ponto fixo, uma esperança, uma medida.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 282 e 283 | Assírio & Alvim, 2012
Teoria das cordas
Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste na alma),
no fundo da alma, e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio,
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 289 | Assírio & Alvim, 2012
A Pura Luz Pensante
e nada é a mesma coisa.
Na realidade são tudo coisas indiferentes.
(Imagens...Imagens...Imagens...)
É este o caminho da Inocência?Exis-
te tudo e a aparência de tudo.(Imagens...)
Totalmente tolerante é
a matéria metafórica da infância.
Tenho que tornar a fazer tudo,
a emoção é um fruto fútil,a pura luz
pensando dos dois lados da Literatura.
Aqui estão as palavras,metei o focinho nelas!
Vê se há mensagens
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo,agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permanença,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agoa o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint."
Estarei Ainda Muito Perto Da Luz
Poderei esquecer
estes rostos,estas vozes,
e ficar diante do meu rosto?
Às vezes,como num sonho,
vejo formas como um rosto
e pergunto:"De quem é este rosto?"
E ainda:"Quem pergunta isto?"
E:"E com quem fala?"
Estarei ainda longe de Ti,
quem quer que sejas ou eu seja?
Cresce a noite à minha volta,
terei palavras para falar-Te?
E compreenderás Tu este,
não sei qual de nós,que procura
a Tua face entre as sombras?
Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta.
Comentários (17)
Manuel António Pina
Falta a data de falecimento
O livro é muito bom
gostei
In: de Os Livros.... Isto é, palavras, formas indecisas procurando um eixo que lhes dê peso, um sentido capaz de conter a sua inocência uma voz (uma palavra) a que se prender antes de se despedaçarem contra tanto silêncio
Manuel António Pina - Um Sitio Onde Pousar A Cabeça | Documentário | 2011
Porto de Encontro com Manuel António Pina
Amor Como Em Casa | Poema de Manuel António Pina com narração de Mundo Dos Poemas
Homenagem a Manuel António Pina
O Grito | Poema de António Pina com narração de Mundo Dos Poemas
Conversas vadias (Manuel António Pina e Agostinho da Silva) - Ep. 12
Lembras-te? | Poema de Manuel António Pina com narração de Mundo Dos Poemas
Ler Mais Ler Melhor Vida e Obra de Manuel António Pina
A Meu Favor Tenho O Teu Olhar | Poema de Manuel António Pina com narração de Mundo Dos Poemas
Nunca Tinha Caído De tamanha Altura | Poema de Manuel António Pina com narração de Mundo Dos Poemas
"O Pássaro da Cabeça", de Manuel António Pina
A Poesia Vai Acabar | Poema de Manuel Pina com narração de Mundo Dos Poemas
«Os Livros» de Manuel António Pina
Atribuição da tília de homenagem a Manuel António Pina
O Regresso | Poema de Manuel António Pina com narração de Mundo Dos Poemas
A Canção Dos Adultos | Poema de Manuel António Pina com narração de Mundo Dos Poemas
TODA A BIOGRAFIA É UM ROMANCE : Manuel António Pina
Ler Mais Ler Melhor Livro da Vida de Manuel António Pina
A cabeça no ar - Manuel António Pina recriado por Paulo Condessa
"Os Piratas" de Manuel António Pina - Caixa de Palco
Escola Virtual | 11.as Jornadas de Gaia - Turmas Vencedoras - Manuel António Pina
Ler Mais, Ler Melhor - Como se Desenha uma Casa, de Manuel António Pina, Assírio & Alvim.mov
Hora do Conto Infantil “25 de Abril” – “O TESOURO” – Manuel António Pina”
Ler Mais, Ler Melhor - Todas as Palavras, poesia reunida, de Manuel António Pina
manuel antónio pina na figueira da foz, 2012 (5)
O Pássaro Da Cabeça | Poema de Manuel Pina com narração de Mundo Dos Poemas
Manuel António Pina - Café Orfeu (Lídia Franco)
Manuel António Pina - Os gatos (por José-António Moreira)
Ruínas | Poema de Manuel António Pina com narração de Mundo Dos Poemas
Quem é Manuel António Pina?
Os Piratas de Manuel António Pina
Performance do "Sindicato do Credo" dedicada a Manuel António Pina no "Porto de Encontro"
Quem lê, lê-se #1 | Manuel Antonio Pina por Rita Basílio
Manuel António Pina é o homenageado da Feira do Livro do Porto 2023
Amor como em casa - Manuel António Pina
manuel antonio pina ppt
manuel antónio pina na figueira da foz, 2012 (8)
Manuel António Pina - Os Livros @semeandopoesia #poemadeclamado #poesia #poema #shorts #short
Manuel António Pina - 'Esplanada'
Manuel António Pina, "Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte"
Manuel António Pina - Auto Retrato
Café Orfeu - Poema de Manuel António Pina
Cena 3 - Os Piratas de Manuel António Pina. Desculpem o atraso #clubedeleitura
Agostinho da Silva entrevistado por Manuel António Pina - Ensina RTP
A Garota Não - “Amor como em Casa” - Poema de Manuel António Pina - Feira do Livro - 10-09-2023
O cavalinho de pau do menino Jesus de Manuel António Pina
Inventão, conta uma história! - Manuel António Pina - Público Infantil
manuel antónio pina na figueira da foz_ 2012 (4)
a poesia vai acabar - Manuel António Pina
Entrevista Manuel Antonio Pina
Português
English
Español
gostei
obrigado está a ajudarme no trabalho de português
não gostei
é muito bom
adori
esses poemas são do melhor
Conheci agorinha, por recomendação do Estadão. Excelente poeta.
Ola es o meu fa
Adoro os seus poemas
Adoro os seus livros
Explica pouca coisa. Mas obtive informação. Boa informação. Obrigada.
Muito obrigado, senhor poeta.