Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

1939–1989 · viveu 49 anos PT PT

Luiza Neto Jorge foi uma poeta, ensaísta e tradutora portuguesa. A sua obra poética é marcada por uma profunda reflexão sobre a condição humana, o tempo, a memória e a transcendência, com uma linguagem depurada e um tom por vezes melancólico.

n. 1939-05-10, Lisboa · m. 1989-02-23, Lisboa

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A cabeça em ambulância

Há feridas cíclicas há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã
ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos
ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta
quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura,de infância
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Biografia

Identificação e contexto básico

Luiza Neto Jorge, nome artístico de Luísa da Silva Neto Jorge, foi uma proeminente poeta, ensaísta e tradutora portuguesa. Nasceu em Lisboa, Portugal, e dedicou grande parte da sua vida à exploração literária e ao pensamento crítico. Escreveu em língua portuguesa.

Infância e formação

A infância e juventude de Luiza Neto Jorge foram passadas num ambiente que lhe permitiu o acesso à cultura e à educação. A sua formação intelectual foi sólida, com um interesse precoce pela literatura e pela filosofia, que viria a moldar a sua visão do mundo e a sua escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Luiza Neto Jorge iniciou-se com a publicação dos seus primeiros poemas, demonstrando desde cedo uma voz poética singular. Ao longo da sua carreira, explorou diversas formas de expressão, mantendo uma constante evolução estilística e temática. Foi também ativa na tradução de obras literárias, contribuindo para a difusão de autores estrangeiros em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Luiza Neto Jorge abrange poesia e ensaio. Na sua poesia, destacam-se temas como o tempo, a memória, a efemeridade da vida, a solidão e a busca pela transcendência. A linguagem é frequentemente depurada, concisa e carregada de significado, com um tom introspectivo e, por vezes, elegíaco. Utiliza recursos como a metáfora e a alusão para criar imagens poderosas e evocar estados de alma complexos. O verso livre é uma forma predominante, permitindo uma maior liberdade expressiva. A sua obra dialoga com a tradição literária, mas apresenta também uma forte marca de modernidade na sua abordagem temática e formal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Luiza Neto Jorge viveu e produziu a sua obra num período significativo da história portuguesa, marcado por transformações sociais e políticas. O seu trabalho insere-se no contexto da literatura portuguesa do século XX, dialogando com as correntes estéticas da época, nomeadamente o neorrealismo e o modernismo, embora tenha desenvolvido uma sensibilidade muito pessoal.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se divulga publicamente sobre a vida pessoal de Luiza Neto Jorge, que parece ter mantido um perfil reservado. Sabe-se que a sua dedicação à escrita e ao pensamento foi central na sua vida. As suas relações afetivas e familiares, embora não explicitadas, podem ter influenciado a profundidade das suas reflexões sobre a existência.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado uma notoriedade massiva em vida, Luiza Neto Jorge é reconhecida pela crítica e por um círculo de leitores atentos como uma voz importante da poesia portuguesa contemporânea. A sua obra tem vindo a ser redescoberta e valorizada, com estudos e publicações que destacam a sua originalidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Luiza Neto Jorge demonstra afinidades com poetas que exploraram a dimensão existencial e metafísica da poesia. O seu legado reside na sua capacidade de abordar temas universais com uma linguagem singular e uma sensibilidade apurada, influenciando gerações posteriores de poetas que procuram uma poesia mais introspectiva e rigorosa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Luiza Neto Jorge tem sido objeto de análise crítica que sublinha a sua densidade conceptual e a sua capacidade de evocar a complexidade da experiência humana. As suas obras convidam à reflexão sobre a condição temporal do ser, a memória como elemento constitutivo da identidade e a busca incessante por um sentido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da sua obra é a forma como, através de uma aparente simplicidade formal, consegue alcançar uma grande profundidade filosófica. A sua atividade como tradutora também revela o seu profundo conhecimento e apreço pela literatura universal.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Luiza Neto Jorge faleceu, mas a sua obra continua a ser lida e estudada. As publicações póstumas e a reedição dos seus livros mantêm viva a sua memória e a relevância do seu contributo para a literatura portuguesa.

Poemas

22

A casa do mundo

Aquilo que às vezes parece

um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida:

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A cabeça em ambulância

Há feridas cíclicas
há violentos voosdentro de câmaras de ar
curvasferidas que se pensam de noitee rebentam pela
manhãou que de noite se abreme pela amanhã são
pensadascom todos os pensamentosque os órgãos são
hábeisem inventar como pensosligaduras
capacetessacramentoscom que se prende a cabeçaquando ela se nos
afastaquando ela nos pressenteem síncope ou
desnudamentoou num erro mais espaçosoou numa letra mais
mudaou na sala de torturana sala escura,de
infância

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Noite-Pétala

Posso estar aquieu posso
estar aqui perfeitamente pobreum círio me acendi
espora agudao vento ritmo negro
assassinou-oposso estar aqui-o musgo é lento como a
sombra-e sei de cor a voz cega das canções(viola de
silêncio acorda-me)que eu posso estar aqui
perfeitamente pedrainsonee um longo segredo
impessoalbordando a minha solidão.

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O Corpo Insurrecto

Sendo com o seu ouro,
aurífero, o corpo é insurrecto.Consome-se,
combustível,no sexo, boca e recto.Ainda antes que
pegueaos cinco sentidos a chama,por um aceso
acessoda imaginaçãoateiam-se à camaou a sítio
algures,terra de ninguém,(quem desliza é o espaçopara o
corpo que vem),labaredas taisque, lume,
crepitamnos ciclos mais extremos,nas résteas mais
íntimas,as glândulas, esponjasque os corpos
apoiam,zonas aquáticasonde os órgãos boiam.No
amor, dizendo acto de o sagrar,apertado o corpo do
recém-nascidono ovo solar,há ainda um outrocorpo
incluido,mas um corpo aquémde ser são ou podre,um
repuxo, um magma,substância solta,com
pulmões.Neste amor equívoco(ou respiração),sendo um
corpo humano,sendo outro mais alto,suspenso da
morte,mortalmente intenso,mais alto e mais denso,mais
talhado é o golpequando o põem em práticacom
desassossego na respiraçãoe o sossego cru de
quem,tendo o corpo nu,a carne ardida,lhe pede o
ladrãoa bolsa ou a vida.

de Terra Imóvel

1 772

As casas

I

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

de Terra Imóvel

3 717

Algo se me assemelha

Algo se me
assemelhae me quer para sime desembainhaquando
menos esperoDistorção do espíritopara a
mortecomo o corpo num
saltoirremediavelmentelentoe alto

de Terra Imóvel

1 384

O Poema

I

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

II

Piso do poema
chão de areia
Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira
o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se alteia
ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome
de Terra Imóvel
4 119

As Revoluções da Matéria

A divisibilidade: A visibilidade a dois

A mulher divide-se em gestos particulares

o homem divide-se também.Se o átomo é

divisível só poeta o diz.

a mulher divide-se em gestos

extremos coloridos arenosos destilados

dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas

para o seu pólo mágico.

A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos.Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação
Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.

de O Seu Tempo a Seu Tempo

1 821

A porta aporta

a porta roda ao invés da lua

a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos

a porta geme é um cão nocturno

a porta geme extinta na trela da noite

a porta areia

a porta caruncho pária de mar

a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha

a porta com máscara de morte

a porta sem sorte

a porta joelho na alma das portas

a porta mulher da casa de passe

a porta manchou a manhã com o grito de porta

a porta enforcada no mastro da casa

a porta por asa

a porta roda

a porta sexo a vida toda

a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas

a porta pregada

a porta leilão

a porta batente a porta aranha por coração

a porta tu

a porta eu

a porta ninguém na terra pequena

a porta roda

a porta geme

a porta facho

a porta leme

de Quarta Dimensão

2 151

A magnólia

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me a forma

o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria-na metáfora-

necessária,e leve,a cada um

onde se ecoa e resvala.

A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

de O Seu Tempo a Seu Tempo

4 022

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Junior
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Sou parapelegico. Este poem fez me levantar da cadeira de rodas. Tão mau que tive de o fechar

jacinto leiteno rego
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adorei

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