Escritas

Lista de Poemas

O Poema

I

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

II

Piso do poema
chão de areia
Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira
o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se alteia
ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome
de Terra Imóvel
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O Corpo Insurrecto

Sendo com o seu ouro,
aurífero, o corpo é insurrecto.Consome-se,
combustível,no sexo, boca e recto.Ainda antes que
pegueaos cinco sentidos a chama,por um aceso
acessoda imaginaçãoateiam-se à camaou a sítio
algures,terra de ninguém,(quem desliza é o espaçopara o
corpo que vem),labaredas taisque, lume,
crepitamnos ciclos mais extremos,nas résteas mais
íntimas,as glândulas, esponjasque os corpos
apoiam,zonas aquáticasonde os órgãos boiam.No
amor, dizendo acto de o sagrar,apertado o corpo do
recém-nascidono ovo solar,há ainda um outrocorpo
incluido,mas um corpo aquémde ser são ou podre,um
repuxo, um magma,substância solta,com
pulmões.Neste amor equívoco(ou respiração),sendo um
corpo humano,sendo outro mais alto,suspenso da
morte,mortalmente intenso,mais alto e mais denso,mais
talhado é o golpequando o põem em práticacom
desassossego na respiraçãoe o sossego cru de
quem,tendo o corpo nu,a carne ardida,lhe pede o
ladrãoa bolsa ou a vida.

de Terra Imóvel

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E do Espanto II

consagraram-me

ao espanto

que de minúsculo há

no mar

e ímpar sobre a pele

criança

circuncidada a fogo e morte

(no céu da boca a memória absurda

das abóbadas)

mais
que na cidade

a matriz

dos arranha-céus líquidos

muito mais

que nos cartões

as clandestinas chagas

digitais

o espanto permanece

por frestas e

por ombros

qualquer

onde e

quando

de Quarta Dimensão

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Venho de dentro,abriu-se a porta

Venho
de dentro,abriu-se a porta:nem todas as horas do
dia e da noiteme darão para olhar de
nascentea poente e pelo meio as ilhas.Há um jogo de
relâmpagos sobre o mundode só imaginá-la a luz
fulmina-me,na outra face ainda é sombraBanhos de
solnas primeiras areias da manhãMansidões na pele e
do labirinto sóa convulsa circunvolução do
corpo.

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Encantatória

Custa é saber

como se invoca o ser

que assiste à escrita,

como se afina a má-

quina que a dita,

como no cárcere

nu se evita,

emparedado,a lá-

grima soltar.

Custa é saber

como se emenda morte,

ou se a desvia,

como a tecla certa arreda

do branco suporte

a porcaria.

de A Lume

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Recanto 2

Viver,entretanto,é ver,ir
vendoe também ver incluir dormirsem que nada se
desfaça ou excluano interior dos
sonhos.Pensemos no comércio de viver:passagem dos
naviosquando,a passar,se retêm a espessaàgua do tempo,da
tempestade.Um comércio,apenas-desvio da moedada trajectória
do ouro para o papel.Sempre viver
incluiu andar percorrer voarde avião ou com os braços
ou num ser de maisrodas que nos conduzaa
outro sentido ambulatório.

de Dezanove Recantos

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Do Medo I

Do Medo I

É de ti que eu sou irmã

por ti fui trocada em criança

quando as estrelas semearam a noite

(Ficávamos chorando de medo

se o laço branco da trança não desse

para a escuridão toda do quarto)

Tenho os silêncios que me emprestaste

e na cidade que levantámos há pouco

(não destruiremos nunca)

habitam os pais

com os não irmãos mortos à nascença

que o eco de um flauta eternizou

no cais dos barcos pequenos de papel

somos irmãos de ninguém

ancorámos com amarras de dúvida

é nosso irmão o medo do poente

a porta azul da morte

Em redor em redor de nós

a solidão voou borboleta negra de metal

caiu enforcado público na gravata verde

(a mesma solidão que cega

os arcos concêntricos das pupilas)

desde a rua ao bolor dos corpos poetas

da porta esquecida sem número

à mulher vendida aos ventos da noite

sem nevoeiros asfixiamos nítidos

nos passeios nos fatos nas cadeiras

nas cúpulas nos clarins

e sentes contigo os corpos das mulheres

de bruços sobre o dia

renascidos maduros os limites da carne

Há nebulosas de anos sem sentido

que vimos aprendendo o amor

há um embrião de veia

há uma veia atávica vermelha

nos mil séculos anteriores ao homem

Quando nos será possível um suicídio exacto

em casas impossíveis

em ondas impossíveis

em (integralmente areia) desertos impossíveis?

Nasceu o sol na erva a erva nos degraus

os degraus desceram ao horizonte

de Quarta Dimensão

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Algo se me assemelha

Algo se me
assemelhae me quer para sime desembainhaquando
menos esperoDistorção do espíritopara a
mortecomo o corpo num
saltoirremediavelmentelentoe alto

de Terra Imóvel

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A porta aporta

a porta roda ao invés da lua

a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos

a porta geme é um cão nocturno

a porta geme extinta na trela da noite

a porta areia

a porta caruncho pária de mar

a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha

a porta com máscara de morte

a porta sem sorte

a porta joelho na alma das portas

a porta mulher da casa de passe

a porta manchou a manhã com o grito de porta

a porta enforcada no mastro da casa

a porta por asa

a porta roda

a porta sexo a vida toda

a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas

a porta pregada

a porta leilão

a porta batente a porta aranha por coração

a porta tu

a porta eu

a porta ninguém na terra pequena

a porta roda

a porta geme

a porta facho

a porta leme

de Quarta Dimensão

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A magnólia

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me a forma

o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria-na metáfora-

necessária,e leve,a cada um

onde se ecoa e resvala.

A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

de O Seu Tempo a Seu Tempo

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Comentários (5)

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Junior
Junior
2023-03-06

Sou parapelegico. Este poem fez me levantar da cadeira de rodas. Tão mau que tive de o fechar

jacinto leiteno rego
jacinto leiteno rego
2022-01-24

adorei <br />

Peixe da terra
Peixe da terra
2021-04-12

O meu pai agrediu-me após ter-lhe dito que gostava deste site

Gato do ar
Gato do ar
2021-04-12

Parti o ecrã do meu computador com raiva

Aurélio o primeiro da Moldávia
Aurélio o primeiro da Moldávia
2021-04-12

Os infiéis que produziram este pecado serão crucificados e serão obrigados a pedir perdão quando chegarem aos pés de nosso senhor no reino dos céus