Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

n. 1950 PT PT

Luís Filipe Castro Mendes é um poeta e ensaísta cuja obra se caracteriza pela inteligência, pela erudição e por uma profunda reflexão sobre a condição humana, a arte e a sociedade. Sua poesia, que transita entre o lirismo e o ensaísmo, aborda temas como o tempo, a memória, a identidade, a cultura e a intervenção cívica, com uma linguagem cuidada e um rigor formal notável. Com uma carreira multifacetada, que inclui também a atividade política e diplomática, Castro Mendes constrói uma obra coerente e consistente, marcada por um olhar atento sobre o mundo e as suas contradições. A sua poesia é um convite à contemplação e ao pensamento crítico, dialogando com a tradição literária e, ao mesmo tempo, propondo um olhar inovador sobre as questões contemporâneas, afirmando-se como uma das vozes mais significativas da literatura portuguesa.

n. 1950-11-21, Idanha-a-Nova · m. , Barcelona

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Era o último amor

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.
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Poemas

16

Era o último amor

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.
10 164

Noutra praia

Mas tu pensas
que o mar te não esqueceu:
por isso voltas cada ano a esta praia
onde tudo o que permanece te ignora;
e encaras o mar como se fosses tu,
ainda tu,
quem recebe na face a mudança dos ventos

1 871

Cavalos da Arábia

(sobre fotografia de uma instalação de Subodh Kerkar na praia de Goa Velha)

Aqui chegavam os cavalos da Arábia,
sempre prontos para cavalgar os desertos
e enfrentar as espadas:
e aqui eram trocados por especiarias,
essas que aos homens do deserto
faziam tanta falta para conhecerem
o sabor do paraíso.
Assim se passavam as coisas,
ou assim as contaram nos livros
em que as lemos e acreditámos.

Foi antes de nós chegarmos. Os cavalos
olhavam para esta terra com a mesma maravilha,
mas sem o nosso terror.
Mas que fazer,
se para nós é do terror a maravilha?

1 767

Ainda a Poesia

A poesia não é feita por um nem por todos,
nem esteve nunca na rua.
A poesia está na aspereza das coisas contra nós,
tão mais nítidas ao nosso olhar isento
quanto mais doem no coração silencioso.
1 426

Música Calada

Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.

E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.

Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
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A CAMILO PESSANHA, PASSANDO EM JAIPUR

Uma imagem a passar pela retina
e nada mais: venham outros falar-nos de experiência,
de transformar o vivido em consciência,
de reter o que é fugaz!
Uma imagem a passar pela retina,
porque o sentido de tudo está na velocidade do carro
que me permitiu fotografar…
1 240

Os Argonautas

Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo:

só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.

1 407

Glosa a uns versos de Nemésio

Se com quase quarenta anos mal começa,
ovo de tanta coisa, o coração,
que direi hoje, com quase sessenta anos?

Que névoa fria cerca agora o coração
e que voz de dentro resiste a essa névoa,
pois o amor não pára enquanto continuar
o mundo?

Abre os olhos, meu amor:
o mundo é vasto e diverso e brilha
por entre a névoa mais densa.

1 537

Pessoana Pobre

Como nas ruas de Roma
ou no caos de Deli,
esta ruína que assoma
diz que não somos daqui.

Passado, terra estrangeira:
e o nosso em particular
é palavra derradeira,
não se pode articular.

Toda a memória que fui
longe de mim se escondeu.
E de muitos céus azuis
se fez noite neste céu.

1 462

CALICUTE: AQUI DESEMBARCOU VASCO DA GAMA

Depois de cruzarmos rios e passarmos outras praias,
mais ao norte de Calicute,
mostraram-nos, por fim, o lugar
onde verdadeiramente ancorou a frota do Gama:
as naus ficavam ao largo
e em pequenos barcos se iam cruzando e descobrindo
os da terra e os do mar.
Uma mesquita aqui construída não deixa de ser uma homenagem irónica:
os rapazes pescam e correm pela praia, mas a nenhum ocorre
banhar-se no mar, mergulhar, nadar…
Vejo poucas mulheres. Vendem-se, porém, doces numa barraquinha.
O historiador indiano conta pormenores: vem tudo nas crónicas,
assevera,
não se entende como os ingleses se enganaram no local
e foram construir um mamarracho comemorativo, a dez quilómetros daqui!
«Basta ler as crónicas portuguesas» insiste o Professor John «para reconhecer o lugar certo».
O Samorim espera-nos! Irão os nossos pobres presentes uma vez mais
causar o seu enfado? Entramos no automóvel, agradecemos
e esperamos que desta vez corra melhor a audiência!
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Comentários (1)

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Belo Poema Caro Luís Felipe - és um grande poeta . e espero que um bom diplomata , Português. abraços e felicidades. Ademir.