Lista de Poemas

Na Véspera

... rasga-me o peito a chama murmurada.
Soares Feitosa

Os dragões da verdade e da mentira
(não de uma ou de outra: de ambas), diante o dia
do juízo final, em louca lira,
viram, na luz do fundo da bacia

da dor, em pedra e goma, em sombra e lume,
despido de semblante, indubitável,
vindo do mais recôndito improvável,
um corpo envolto em cúmulo: o ciúme.

Eram dragões de vasta peripécia:
de infeliz, um queimava a Capadócia;
de tristeza, um lavava o chão da Grécia.

No mar febril de lama transbordada,
sob os barris de júbilo da Escócia,
rasga-me o peito a chama murmurada.

👁️ 886

Ai, Cais!

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.

Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.

Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...

👁️ 1 030

Londres

O vampiro chorou de fome e sede
de amor, sozlnho em toda a madrugada.
Quando o sol levitou na manhã rasa,
como um fardo o vampiro deu-se à tumba.

Todo dia é-lhe igual: a sangue frio,
cai-lhe a circulação destro sinistro.
Mas a noite vampira é qual floresta
em carne viva! e... logo após, deserto.

Do canino ancestral, restou-lhe um uivo
— não por rasgar à lua a artéria seda,
mas a hiena a cavar na noite negra
o vazio que se o esconde nos espelhos.

O vampiro não teme o fim dos tempos:
o veio eterno que o alimenta é o medo.

👁️ 908

O Canto do Cisne

Quando me vi no instante derradeiro,
a musa das vontades (ela existe!),
num tom que é quase sempre terno e triste,
ofereceu-me o último desejo.

Não sei dizer que brumas me envolveram
nas lembranças de amores que não tive.
Que saudade me deu!... Desde as raízes,
degredos mal guardados soergueram.

Momento de magia e plenitude,
fremi no ardor de lívidos enlevos;
meu sonho se elevou que a mais nem pude.

Qual desejo matar?... Qual liberdade?...
Ó musa maga! música sem medos!
Na dúvida, Beethoven-me! Vivaldi-me!

👁️ 1 172

Breu em Chamas

A não ser pelo fato de ser
meu melhor amigo, você
não me conhece. Ninguém me conhece.

Mas cê está tão perto!
Desde ontem que o olho há horas para sempre,
e você nem percebe o quanto estou distante...
eu dentro de meu próprio ventre.

São quilômetros de distâncias milimétricas
que nos separam,
eu e meu ventre,
do mais próximo sol poente de um olhar apaixonado.

E eu não vejo mais emoções
dentro de qualquer ventre,
pois o amor, pouco provável, esqueceu o caminho,
deitou em minha cama e dormiu,
fazendo uma fogueira de todas as minhas veleidades.

👁️ 889

Quo Vadis?

Amigos não resolvem minha solidão.
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.

O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.

Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...

Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...

👁️ 726

Fiat Breu

Há pouco, fui brilhante.
Agora, brilho escapante,
ou escapadamente lusco
e fusco, ou busco um instante
qualquer, tropegamente.
Tão-somente, já não brilho
intensamente, como há poucos
instantes atrás.

Escapou-me o brilho reluzente
do primeiro instantâneo flash
de verídicas meta-observações,
que me conduziam a conclusões
deveras geniais, tal como eu
fosse capaz, um tanto mais
perceptivo para os tempos atuais.

Mas sou por demais insistente
e escrevo, sofregamente,
tentando segurar aquele flash,
capaz de dar-me luz de iluminação,
capaz de trazer-me compreensão
de densos organismos universais
e de mim mesmo, principalmente.

Mas é tudo um delírio,
ao final do que se escreve,
já sem brilho, tão breve...

mas já sem grilo, já leve,
até capaz de fazer-me sorrir.

👁️ 774

Deus e o Diabo

(no círculo vicioso da terra do sol)

Virou-se o diabo pra deus e disse:
— Quem sou eu, demônios! se não sou deus?
E deus, bondoso, respondeu, qual prece:
— Oh, céus! você é o que não quero meu.

O demo, esperto, retrucou, de pronto:
— Que não sou deus? que me fizeste resto
de ti? deixaste todo o mal pra mim?
Pronto, que o resto, em mim, te diminui.

Potência, ciência e presença, em ti,
não são totais, tu não és mais perfeito
... e fim de papo. E sumiu, a seu jeito.

Mas deus se arrependeu e, desde então,
corre atrás do diabo, feito um cão
caçando o rabo... (E o cão diz: — Nem te ligo!)

👁️ 865

O Jogo das Contas de Vidro

Aos poetas que li.

Qual alvo tisne, a lua tinge a noite
em tons argênteos, grises, plúmbeos, brancos.
A escuridão se esquina e cinge os flancos,
mal traçando o recanto em que se acoite.

O luar, com mãos de seda, audácia e zelo,
retira à noite o véu que a cobre espúrio;
e ilumina, de lilás a purpúreo,
tudo o que ao sol vai do azul ao vermelho.

À lua, o chão rural é mais bucólico
e o mundo urbano é um tanto mais insólito
do que revelam ser à luz do sol?

Talvez... Assim, qual lua, sem luz própria,
do corpo da poesia o poeta é cópia
— sinal especulado do farol.

👁️ 950

Anátema

Vogo na idéia vaga e vã do eu,
como se houvesse em mim um ser e um cerne,
uma alma inominada, em corpo inerme,
amálgama de fiat lux et breu.

Mimo a mim mesmo com um mimoso engano:
que o mundo existe como um fato meu;
que a vida é a imagem de ilusório véu,
tecido por mim (fio) o mundo (pano).

Fio-me que penso e existo e assim sou algo;
desfio meus véus, em busca de meu âmago,
mas desconfio que apenas seja imago...

Meu sumo é um oco totem hamletiano.
Do imane e ameno cenho, emana a senha:
a senda é ser não sendo (ou seja eu sonho).

👁️ 925

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments