Lista de Poemas

Ela pra mim

É a voz pro Cazuza
É a maquiagem pro Kiss
É a Ipanema pro Tom
É o peixe grande pro Tim

É o amarelo pra faixa
É o azul pro céu
É o preto pra Pérola
É a independência pro Padre Miguel

É o verde pro Marcelo
É o espelho pro João
É a onda pro Cassiano
É a sétima corda pro violão

É a palhetada pro Hendrix
É a margem pro Ferréz
É a cor pro Djavan
É o improviso pro Jazz

É o breque pra bateria
É o Patriarca pro Vantuir
É o templo pra Udaipur
É o tempo pro Dalí

É o cortiço pro Aluísio
É a água pra Dona Celestina
É a viola pro Paulinho
É a cuíca pro China

É a serotonina pro químico
É a anatomia pra Meredith
É a fruta pro Arcimboldo
É o cachimbo pro Magritte

É o morro pro Bezerra
É a ginga pro malandro
É a área pro Romário
É a Pessoa pro Fernando

É o líquido pro Bauman
É o instrumento pra seresta
É o sereno pro boêmio
É a poesia pro poeta
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Aposentadoria de poeta

Por diversas vezes pensei em me aposentar
Meus melhores poemas já foram escritos
Com a nova safra não me identifico
E o mesmo ritmo já não há

Livros, devo publicar mais um ou dois
Livre, dedico-me às outras 5 artes que tenho direito
Arquitetura não levo jeito
Como os versos, só penso na estrutura depois

A aposentadoria deveria ser anunciada em soneto
Agradecendo alguma musa cujo nome é segredo
Acusando, até, acúmulo de função tal qual Da Vinci

Mas, enquanto houver papel, caneta, computador
E a mais remota possibilidade da existência do Amor
O poeta continuará sendo um contribuinte
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Alucinação

ao alvorecer
te busco
esqueça as roupas no varal
deixe a panela no fogo
largue a porta aberta
lance mão da torneira correndo
saia com as vestes que está
tu vens?
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Poema de catorze faces

Extravaso sangrias
Transbordo todas as margens
Se uma imagem vale mais que mil palavras
Eu faço uma palavra valer mais que mil imagens

Nasci em um mundo triste
Que coloca vidas em jogo
Os dentes são armas brancas
Que desarmam qualquer arma de fogo

Mas ninguém percebe
E eu não julgo quem julga o livro pela capa
Fomos educados assim
Méritos a quem dá a cara à tapa

Criei a minha própria licença poética
As replicas te imitam
As métricas te limitam
Então eu não devo nada à estética

Prefiro deixar meu povo rico
Fazendo rimas pobres
Do que fazer rimas ricas
E ver o povo dominado por nobres

Concordar nunca me fez gostar
Amar não quer dizer amor
Lamentar nunca me fez ganhar
Guardar nunca me fez rancor

Coma antes o salgado para dar valor ao doce
Repense todos os velhos ditados
Os sonhos parecem bem mais fáceis
Quando estamos deitados

E se os moinhos de Dom Quixote forem verdade?
E se eu tiver um dom que choque a sociedade?
Busco uma pseudoverdade que me empolgue
Faço minha arte e não dou ouvidos, igual Van Gogh

Jogue a rede para o outro lado e não pegarás um salmão
Serás apenas protagonista de um salmo
O bom marinheiro não vê a hora
De navegar em um mar calmo

Eu sou mais um heterônimo do Fernando Pessoa
Mais um sotaque de Caetano
Um pingo da garoa
Uma gota no oceano

Sou a volta da democracia
Mas também um país em crise
Eu sou a malandragem de um samba
Com a classe de Für Elise

Piso devagar, não porque já tive pressa,
Mas porque esse chão não é meu
Os apressados ainda vão olhar para mim
E falar “esse erro ele não cometeu”

Falo muito “Eu”, confesso
Não que eu seja a primeira pessoa
Nem que eu esteja cego
É só um manifesto
Do meu ID contra o Superego

Quando o contemporâneo virar clássico
Isso não será mais heresia
Referências são cortesias
Prende o poeta, mas não prende a poesia
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Poema, Aspirinas e Urubus

Dediquei-me aos poemas curtos
Para que você curta os poemas
De crônicas já bastam as suas dores
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Brilho efêmero de uma mente reminiscente

I

Não sei o que fazer
Nem a morte da rainha me fez esquecer você
(O amor é como um jogo de xadrez)

II 

Aquele jogo, no domingo
O Flamengo só perdeu porque você não foi comigo
(E você levando o meu amor na esportiva)

III 

A distância era apenas geografia
Eu me senti perto de você até na pandemia
(O amor é uma doença)

IV

Perdi a noção do tempo, espaço e relatividade 
Amar é uma gravidade
(Você foi espacial para mim)
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O poeta sem palavras

P’ra quem já me deixou sem palavras
Saibas que me deixou como quem deixa
Um motorista sem volante
Violão sem cifras
Gana sem Axante
Balança 100 libras
Malabarista sem claves
Santo sem milagre
Janela sem persiana
Que o Sol invade
As palavras são tudo que tenho
Ferramentas de ofício
Dispositivo de refúgio
Deixou-me como quem deixa
Tudo isso
E mais um montão de coisas (sem as outras)
Que sou incapaz de proferir por estar sem palavras
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Romeu e Julieta

Bonnie e Clyde
Rocky e Adrian
Dora e Bala
Jack e Rose
Angélica e Buscapé
Bentinho e Capitu
Ci e Macunaíma
Fera e Bela
Esmeralda e Quasímodo
Nacib e Gabriela
Eduardo e Mônica
Lisbela e Leléu

Eu e você
Inspiramos inúmeros casais
Mas não saímos de um papel
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Namorar com você é errado

Namorar com você é errado
Não porque tens namorado
Mas, simplesmente, porque é errado

Não porque andas de carro
E eu a pé
Pois, namorar comigo também é!

Namorar com você é errado
Não pelas condições sociais
Nem porque cada um vive pro seu lado

Não porque vou a algum seminário
Virar Padre, Frade ou Bispo
Mas insisto
É errado namorar contigo

Não por ordem do deputado
Nem porque sou Mangueira
E tu és Portela
Se não, não seria errado namorar com ela

Com você é errado, explico a questão
Namorar é transitivo direto
Seu complemento não acompanha preposição
Namorar você, sim, é correto

Namorar sugere, de duas pessoas, uma ação
Alguém namora alguém
O “com” (junto de) é supererrogação

Em licença poética e com aférese do fonema
Namoro até com contigo
À gramática, resiliência
Meu peito desgovernou
De tanta regência
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Ser ou Ter

Quem eu quero não me quer
Quem me quer eu não quero
Alguém quer alguém?
Quem quer alguém?
Alguém quer quem?
Ninguém quer ninguém!
Todos querem o “que”
Entre o que, o quem e o querer
Esqueceram de perguntar, também
O que quer alguém?
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