Escritas

Lista de Poemas

O Herói

"— Papai, o que é um herói?
Eu pergunto porque tenho grande vontade
De ser herói também ...

Será que posso ser herói sem entrar numa guerra?
Será que posso ser herói sem odiar os homens
E sem matar alguém?"

O homem que já sofrera as mais fundas angústias
E as mais feias misérias
Trabalhando a aridez de uma terra infecunda
Para que não faltasse o pão no pequenino lar;
O homem que as mais humildes ilusões perdera
No seu cotidiano e ingrato labutar;
Aquele homem, ao ouvir a pergunta do filho:
— "Papai, o que é um herói?"
Nada soube dizer, nada pôde explicar...

Tomou de uma peneira
E cantando saiu, outra vez, a semear!

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Os Ipês

Quando o homem, que fora um bom, fechou os olhos
e a alma entregou a Deus, este, num gesto suave,
a recebeu sorrindo. Ele fora na terra
alguém que teve sempre aberta a mão
para o infeliz necessitado,
e, para o sofredor, aberto o coração...

Todo o ouro que tinha, ele, piedosamente,
ia dando de esmola... havia sempre
mãos ressequidas, mas famélicas, nervosas,
pedindo pão...
Foi assim que, ao morrer, tão pobre estava
que só tinha de seu, em frente à casa,
uns modestos ipês, que jamais floresceram,
minguados de folhagem,
enterrados no chão...

— Ele que foi um rico... imaginem... ao menos
que deixasse com que adquirir-se agora
uma mísera cova...
Ouro ele teve, e muito, o maganão!...
Mas, onde está seu ouro? Onde está seu ouro?...
Jogou-o fora, o vilão!"

Assim falavam todos — os parentes
e os amigos,
numa geral condenação...

Eis porém, que ao passar em frente às árvores tristonhas,
O desgraçado morto em seu desgraçado caixão,
num milagre de amor, os ipês começaram
a florir, a encher o céu de pétalas de ouro,
E de ouro, ouro divino, atapetou-se o chão!

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Os que Vêm de Longe

Vocês não queiram mal aos que vêm de longe,
aos que vêm sem rumo certo, como eu vim;
as tempestades é que nos atiram
para as praias sem fim...

Os que vêm de longe, os que vêm famintos,
os que vêm rasgados de dar compaixão,
os olhos parados, os pés doloridos,
pisando saudades calcadas no chão...

Vocês nunca souberam o que é tempestade
na vida de um homem... e nem saberão!
É a seca na mata... é o mato rangendo,
é a terra tostando, virando zarcão...

É a gente morrendo na estrada vermelha
vendo trapos humanos lutando com o pó...
E as levas se arrastam penosas na estrada,
enchendo as estradas de angústia e de dó...

É a gente, sentindo tonturas na alma,
piedade divina dos céus implorar,
e ver que somente uma gota nos brota
dos olhos cansados de tanto chorar...

É o gado morrendo de fome e de sede,
morrendo e mugindo num doido clamor,
e a gente morrendo de sede, e sonhando...
— a gente tem mesmo de ser sonhador... —
sonhando com água, que ao menos o gado
liberte da angústia da sede e da dor...

E os trapos humanos se arrastam rezando,
caindo, chorando,
sofrendo e clamando por Nosso Senhor...

É a gente ter nalma esperanças e sonhos,
viver da ventura dos olhos de alguém,
um dia encontrar a palhoça deserta
e saber que, faminta, arrastando-se além,
aquela que amamos a leva maldita
levou-a também...

É a gente sofrendo de ver a desdita
sorrindo dos homens... Olhar para o céu,
fechar a palhoça e sair pela estrada,
sem rumo, sem nada, dos ventos ao léu...

E o céu lá em cima piscando de quente...
Lá longe a palhoça ficou, triste e só...
Um fiapo de nuvem vem vindo... vem vindo...
e a gente vai indo com os olhos na nuvem,
os pés escaldando na areia e no pó...

Depois, já se sabe... Depois é isso mesmo ...
a gente vem vindo, tal qual como eu vim,
sem Deus, sem destino, sem sorte, sem nada,
até dar à costa num mundo sem fim...

Vocês não queiram mal aos que vêm de longe,
rasgados, famintos de dar compaixão...
os olhos na terra ... os pés doloridos...
pisando saudades calcadas no chão ...

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Minha Viola Morena

Morena, vá lá no quarto,
me traga a viola aqui;
quero-a com todas as fitas
que esvoaçando parecem
as asas de um bem-te-vi;
quero-a deitada em meu peito,
as suas cordas cantando
as mágoas que já senti...

Minha viola morena
tem corpo de mulher-dama,
tem gosto de sapoti,
tem cheiro de madrugada,
gemidos de juriti...
Morena, a minha viola
é o coração amoroso
que tenho plantado aqui...

Morena, a minha viola
é caipirinha dengosa;
se tu tens ciúme dela,
minha viola, morena,
não tem ciúmes de ti...

Ela se deita comigo,
comigo sonha e padece,
comigo pita e se afina
com um trago de parati...
Morena, a minha viola
é a mais mulher que já vi...

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Recebi

Recebi do Dr. Fernandes Lima,
Governador perpétuo de Alagoas,
Pela graça de Deus, das almas boas
Que seguem a rota dos que estão de cima,

A importância mencionada acima
De Rs. 20$000, por que as pessoas
Das urbs, dos sertões e das lagoas
Vendem seu voto de entranhada estima;

E por cuja quantia me sujeito
A votar no Doutor; e, em testemunho,
Passo o presente, por José do Coito,

Em duplicata para um só efeito.
Maceió, Jaraguá, 12 de junho
De 1918.

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Os Pêssegos

Mando-te, amor, uns pêssegos, dourados,
aureolados de cetíneos fios;
tenros como os teus seios, perfumados,
frágeis, sedosos, tépidos, macios ...

Lembra teu colo, de veludo-rosa,
a polpa suave, sedutora, amena,
de indizível doçura, capitosa,
como o teu lábio de mulher morena...

Qual se de nétar fabricada fosse,
tem o sabor divino da ambrosia;
doce como os teus olhos, juraria
que só o sorriso teu é assim tão doce...

Toma-os nos braços teus, com tais cuidados
e de maneira tal todos unindo,
que, maduros que estão, de sazonados
não se vão machucando e diluindo...

Mas, abraçando-os, com efetivo encanto,
faze que os seios túrgidos, rosados,
juntos, agora, aos pêssegos dourados,
não se misturem nem se igualem tanto...

Não sorrias, amor, de meus receios...
Evitarás, assim, que estas amenas
visões, tão lindas — pêssegos e seios —
não me pareçam pêssegos, apenas...

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Bebedouro

Na Manguaba tranqüila, uma canoa
Dança, lá embaixo; lá de cima, a lua
Põe pó de arroz na face da lagoa...

Junto às margens, o mangue; empós, a rua
E, na choupana humilde, a tabaroa,
Rica de sonhos na pobreza sua...

Depois, alguém; e nesse alguém um choro
Silencioso lhe molhando o olhar.

O alguém sou eu; a terra é Bebedouro...
Desconversemos... não convém lembrar...

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As Luvas de N Senhora

Éramos três, os retirantes do sertão inóspito:
Eu, meu pai, minha mãe, alguns sonhos, e só.
Eles, moços; eu tinha alguns meses apenas.
E nós fomos morar no alto do Jacutinga,
Bairro de gente humilde de Maceió.

A vontade materna estava assim cumprida.
— "Filho meu não se cria no sertão!
Não terei filho para vê-lo às garras
Do cangaço e do crime,
Da ignorância, da miséria, do ódio,
Que precise matar para ganhar o pão."

Fomos viver os três num casebre de taipa.
A pobreza era tanta
Que meu pai disse assim: "Não sei se vale a pena...
Não foi para isto que você nasceu..."
Respondeu minha mãe, com sertanejo entono:
— "Se pretende voltar para o sertão, que volte;
Morreremos aqui, o nosso filho e eu!"

Sorte de retirante é assim: dias passados,
A maleita bateu impiedosa nos três...
Todos tremendo como varas verdes,
Assim ficamos quase um mês...
E cadê água para as bocas ressequidas
Pela febre? E onde o alimento, a ajuda
De alguém para fechar ao menos nossos olhos
Pela última vez?

Foi nesse instante cruel de nossa vida
Que nos surgiu Mãe Inês...
Uma manhã cheia de sol, duas mãos negras e humildes,
Ansiosas e aflitas,
Achegaram-se a mim. — "Pobre inocente...
Quase a morrer de fome..."
E no quarto se ouviu o seu fundo suspiro,
Angustiado e longo...
E me deu a beber daquele leite
Que era todo humildade e era humana ternura
E que tinha o calor de uma noite do Congo...

Ao pensar em Mãe Inês, tenho uma idéia estranha:
— Quando visita um pobre lar,
Nossa Senhora, femininamente,
Calça umas luvas de veludo negro
Para nos amparar...

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Atitudes

A poesia em mim era uma asa andeja
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".

Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...

Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"

Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...

E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...

Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...

Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:

— Vou fazer poesia!

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Recompensa

Certa manhã deixei a minha casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...

Era manhã quando saí de casa...

E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"

Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...

E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!

Era manhã quando saí de casa...

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Comentários (1)

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Igor Almeida
Igor Almeida
2023-05-23

Convencido que ainda há muito o que descobrir sobre a Literatura Brasileira e Alagoana.