Lista de Poemas

À MINHA PERNA ESQUERDA

Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?
Basta uma.
2 098

Cadê

Nossa! que escuro!
Cadê a luz?
Dedo apagou.
Cadê o dedo?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?
Foi com a calça.
Cadê a calça?
No guarda-roupa.
Cadê o guarda-roupa?
Fechado a chave.
Cadê a chave?
Homem levou.
Cadê o homem?
Está dormindo
de luz apagada.
Nossa! que escuro!
3 226

Convite

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio,pião.
Só que
bola, papagaio,pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
como a água do rio
que é água sempre nova.
como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
5 920

Chatice

Jacaré,
larga do meu pé
deixa de ser chato!
Se você tem fome,
então vê se come
só o meu sapato,
e larga do meu pé,
e volta pro seu mato,
jacaré.
4 754

Passarinho Fofoqueiro

Um passarinho me contou
que a ostra é muito fechada,
que a cobra é muito enrolada,
que a arara é uma cabeça oca,
e que o leão marinho e a foca..
xô , passarinho! chega de fofoca!
5 910

Gato da China

Era uma vez
um gato chinês

que morava em Xangai
sem mãe e sem pai,

que sorria amarelo
para o Rio Amarelo,

com seu olhos puxados,
um pra cada lado.

Era um gato mais preto
que tinha nanquim,

de bigodes compridos
feito mandarim,

que quando espirrava
só fazia "chin!"

Era um gato esquisito:
comia com palitos

e quando tinha fome
miava "ming-au!"

mas lambia o mingau
com sua língua de pau.

Não era um bicho mau
esse gato chinês,

era até legal.
Quer que eu conte outra vez?
1 016

Paraíso

Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóveis matar gente,
mas para criança brincar.

Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?

Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.

Se este mundo fosse meu,
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas e crianças.
2 012

Cemitério

Aqui jaz um leão
chamado Augusto.
Deu um urro tão forte,
mas um urro tão forte,
que morreu de susto.

Aqui jaz uma pulga
chamada Cida.
Desgostosa da vida,
tomou inseticida:
Era uma pulga suiCida.

Aqui jaz um morcego
que morreu de amor
por outro morcego.
Desse amor arrenego:
amor cego, o de morcego!

Neste túmulo vazio
jaz um bicho sem nome.
Bicho mais impróprio!
tinha tanta fome,
que comeu-se a si próprio.
1 440

Pescaria

Um homem
que se preocupava demais
com coisas sem importância
acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um amigo lhe deu então a idéia
de usar as minhocas numa pescaria
para se distrair das preocupações.
O homem se distraiu tanto
pescando
que sua cabeça ficou leve
como um balão
e foi subindo pelo ar
até sumir nas nuvens.
Onde será que foi parar?
não sei
nem quero me preocupar com isso.
Vou mais é pescar.
1 905

Letra Mágica

Que pode fazer você
para o elefante
tão deselegante
ficar elegante?
Ora, troque o f por g!

Mas se trocar, no rato,
o r por g,
transforma-o você
(veja que perigo!)
no seu pior inimigo:
o gato.
1 659

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Identificação e contexto básico

José Paulo Lébeis Paes, conhecido como José Paulo Paes, foi um poeta, tradutor, contista, ensaísta, professor e advogado brasileiro. Nasceu em em 9 de setembro de 1926 e faleceu em São Paulo, em 7 de julho de 1998. Filho de Antônio Lins Paes e Maria Elvira Paes. Teve uma ligação profunda com a cidade de São Paulo, onde construiu sua carreira. Escreveu em português.

Infância e formação

Teve uma infância marcada pela leitura e pelo aprendizado autodidata. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, mas sua paixão sempre foi a literatura. Desde cedo, demonstrou um grande interesse pela poesia, absorvendo influências de diversos autores e movimentos literários. Sua formação cultural foi ampla, com especial atenção à poesia.

Percurso literário

Iniciou sua carreira literária com a publicação de poemas em jornais e revistas. Aos 23 anos, publicou seu primeiro livro de poesia, "Poemas" (1949). Ao longo de sua vida, sua obra evoluiu com uma constante busca pela experimentação e pela clareza. Foi um ativo tradutor de poesia de diversas línguas, trazendo para o português obras de autores como Federico García Lorca, Walt Whitman e Pablo Neruda. Foi também professor e editor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias José Paulo Paes é autor de mais de 20 livros de poesia, incluindo "Poesia em Vigília" (1951), "Oração para Tomar o Rosto" (1956), "Os Andarilhos" (1960), "Poemas Escolhidos" (1973), "Poesia Reunida" (1995), e livros infantis como "O Menino e o Rio" (1976) e "A Casa e o Menino" (1991). Sua poesia é marcada pela concisão, pelo lirismo, pela musicalidade e pela leveza, mesmo quando trata de temas sérios. Frequentemente utiliza a metáfora e a metonímia de forma criativa e surpreendente. O verso livre é comum em sua obra, mas com um senso rítmico apurado. Sua linguagem é clara, acessível e ao mesmo tempo profunda, capaz de evocar imagens vivas e sensações sutis. A ironia e o humor estão presentes, especialmente em sua poesia para crianças.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Paulo Paes viveu em um período de grandes transformações no Brasil, incluindo o regime militar. Ele se manteve distante de posições políticas explícitas em sua obra, focando mais na universalidade dos sentimentos humanos e na beleza da linguagem. Foi um nome importante no cenário cultural paulistano, participando de debates e eventos literários. Sua geração se caracterizou por uma busca por novas formas de expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casado com Marly de Moraes Paes, teve uma vida dedicada à literatura, seja escrevendo, traduzindo ou ensinando. Sua profissão de advogado foi paralela à sua paixão pela poesia. Era conhecido por sua discrição e pela sua gentileza, qualidades que transparecem em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção José Paulo Paes recebeu diversos prêmios literários ao longo de sua carreira, como o Prêmio Jabuti em várias ocasiões, tanto como poeta quanto como tradutor. Sua obra é amplamente divulgada em escolas e universidades, sendo um dos poetas mais lidos e apreciados no Brasil, especialmente sua poesia infantil, que transcende a faixa etária. Sua tradução de "O Corvo", de Edgar Allan Poe, é considerada um marco.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por poetas como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Walt Whitman e pela tradição da poesia oriental, José Paulo Paes criou um estilo próprio, marcado pela concisão e pela beleza imagética. Seu legado é imenso, especialmente pela sua contribuição à poesia infantil brasileira e pela qualidade de suas traduções. Ele abriu caminhos para uma poesia mais acessível e ao mesmo tempo rica em significados.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de José Paulo Paes é frequentemente analisada por sua capacidade de equilibrar simplicidade e profundidade, lirismo e concretude. Suas metáforas são comentadas por sua originalidade e força evocativa. A crítica destaca sua habilidade em capturar a essência das coisas e dos sentimentos com poucos versos, tornando sua poesia um convite à reflexão e à contemplação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre José Paulo Paes é a sua forte ligação com a cultura oriental, que se refletiu em sua poesia, com poemas curtos e imagens concisas que lembram os haicais japoneses. Sua capacidade de traduzir não apenas o sentido, mas também o espírito e a musicalidade dos poemas originais é notável. Seu amor pelos animais também era uma característica conhecida.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Paulo Paes faleceu em 1998, vítima de um câncer. Sua morte representou uma grande perda para a literatura brasileira. Sua obra continua viva, sendo republicada e estudada, e sua memória é mantida através de eventos, homenagens e pela contínua leitura de seus poemas.