Lista de Poemas
Agora a sério
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os «tugas»,
como todos os inábeis.
Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.
Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos estreitos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.
No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas
de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,
com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:
piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.
Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço
(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça
triunfante da fiúza,
vendo o mundo p"lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.
5
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
A caminho do fogão
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálogos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja
de banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo.
Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
Brief encounter - David Lean (1945)
se enamoram uma da outra,
estamos perante um caso fragrante
de romantismo inglês. A princesa,
o dragão e o senhor chapéu de coco:
tanto basta para um drama
em que o remorso é o artista
principal. São assim os infelizes,
não conseguem partir um prato
sem ficar tolhidos pelo sentimento
de culpa. E por isso, sentem eles,
o melhor é estar quieto na berma
do sofá, e ter medo de tudo,
de tudo menos da infelicidade.
Queixas de um utente
o lixo, já. não vejo televisão
há. cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.
Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.
Catorze
fascista. Não se deixa levar
pelo brado da justiça. Conhece bem
as pedras e a força que as anima.
Sabe a que distância um insulto fere bem.
Não precisa de estudar o ADN, a lei
do mais feroz. Esmurra quem lhe foge,
conjuga sempre os verbos no presente,
acende numa sarça o cigarro inicial.
Pedras e Morteiros
M.Tsvietaieva
Essa dos poetas, Senhora, com vocação
para apanhar no pelo, tem quase tanta graça
como a outra, de chamar vítimas às vítimas
oficiais do século XX. Como se a história
fosse um prato congelado e a moral
o restaurante onde se come mais barato.
Entretanto, nós somos acusados de atirar pedras.
Mas vede, Senhora, não são pedras, é o que resta
das nossas casas, abatidas por Golias.
Na mão que lhe estendemos deixou-nos esta funda.
Que mais podemos nós, senão utilizá-la?
Razão tem a pedra na conhecida fábula
da Pedra no Sapato quando diz:
todas as pedras são palestinianas.
Penélope escreve
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.
O Grande Circo de Montekarl
mais nada e uma pessoa tem de se entreter com alguma
coisa, cá vim. Confesso que me atraiu sobretudo o número
da Grande Conflagração do Capitalismo, anunciado
em letras vermelhas no cartaz. A questão que se põe é:
a que horas começa? Pergunto, ninguém sabe.
Francamente, isto nem parece uma produção americana.
Estamos aqui de pé há sei lá quantas horas e nada sai
do ramerrão: entram palhaços, saem palhaços, uns mais
ricos, outros menos, mas todos iguais, todos sem graça.
Já nem os posso ver. E domadores de caniches,
burricos, cantilenas de latão. Isto põe-me doente.
Agora são os comedores de fogo. Que seca do caralho.
Só nos falta um mágico - pronto, para que é que eu falei.
Mais valia ter ficado em casa. Mas a culpa é minha -
bilhetes tão baratos, devia ter desconfiado. Podia tentar sair,
mas como, se nem consigo ver a porta? E sair para onde?
Para o frio da noite? Estamos bem fodidos.
Comentários (0)
NoComments
Queixas De Um Utente | Poema de José Miguel Silva com narração de Mundo Dos Poemas
Não Sei Se São Os Trintas Anos | Poema de José Miguel Silva com narração de Mundo Dos Poemas
Jose Miguel Silva and Trinco. Bullfighting
Não È Tarde| Poema de José Miguel Silva com narração de Mundo Dos Poemas
Highlight Video - Jose Miguel Silva
Jose Miguel Silva anr Alexandre Dorey. Sena and Reno
José Miguel Silva
Instituto Técnico José Miguel Silva Plazas - Duitama
No Way Back (Sem Retorno) | Poema de José Miguel Silva com narração de Mundo Dos Poemas
Colheita De 98 | Poema de José Miguel Silva com narração de Mundo Dos Poemas
José Miguel Silva — Poupança
MIGUEL SILVA ● Vitória de Guimarães ● Goalkeeper Skills
¡INCORPORATE YA! GRUPO DE CABALLERIA MECANIZADO N°1 "GENERAL JOSÉ MIGUEL SILVA PLAZAS"
AUDIOPOEMA #010 - "Musa, sinceramente", José Miguel Silva
Pesca de Sargos há deriva, com José Silva em São Miguel Açores 1080p HD
día de la actividad física jose Miguel Silva plazas 2023
Jose Miguel Silva Plazas Groß
HIGHLIGHTS JOEL SILVA CONTRA SONSECA
SÓ SEI PENSAR NA GENTE - MIGUEL SILVA
Essência - José Miguel Silva
Ceremonia Transmisión de Mando Grupo Mecanizado N 1 Jose Miguel Silva Plazas
Instituto Técnico José Miguel Silva Plazas
Miguel Silva - A Sorte que dão as ruas
jose miguel silva henriquez.wmv
José Miguel da Silva Borges-III Prize, IV Krystian Tkaczewski International Piano Competition
A VIDA NÃO PODE PARAR - MIGUEL SILVA feat. VAL MINEIRINHO
Grupo de caballeria general José Miguel Silva Plazas Equitación
José Miguel da Silva Esteves - Centro Desportivo de Fátima 2018-2019
Instituto Técnico José Miguel Silva Plazas Obra menos embarazos, más sueños por vivir 2023
Queixas de um utente , José Miguel Silva
Remake Colegio Miguel Silva Plazas-
AUDIOPOEMA #005 - "O Atalante - Jean Vigo (1934)", José Miguel Silva
ep. 1 Luiz Pacheco e José Miguel Silva
Provocações - Ode aos Herdeiros Politicos (José Miguel Silva) - Abujamra - 03/04/2012
José Miguel Silva Ode aos herdeiros políticos
Miguel Silva - Salvação
Miguel Silva
José Miguel Silva DJ espanhol Portugal novas músicas verdade fiel para sempre ❌🧐🧐🚫🚫📉📉🇦🇶🇦🇶📊📊😶🌫️👍😂😂🗯️
Tu Cabellera
Para Jose Angel y Miguel Silva V1
SEMANA POR LA PAZ 2018 | PBRO. JOSÉ MIGUEL SILVA
Miguel Silva - Nasceu o Sol No Outeiro
HIGHLIGHTS MIGUEL SILVA
Miguel Silva Guitarra Prof Jose Rebola Summer Of Love U2 Dez 2018
Luis Miguel Silva - Cómo no voy a decirlo | En vivo desde Arauca
SERENATA PARA EL CIELO.
Miguel Silva Macias (Tenor) Susana Frangi (Piano)
15 de febrero de 2023
Miguel Silva; Versão Gospel Amado B Jesus tem poder
Miguel Silva DJ. Espanhol Bruna poe ele ela Como mudar sabes a verdade tu tu Bruna pois lol 💌🤍🗣
Durante a década seguinte, JMS ainda lançaria, pela editora Relógio d'Água, Vista para um pátio seguido de Desordem (2003), Movimentos no Escuro (2005), Erros Individuais (2010), além de Walkmen (& etc., 2008), escrito a 4 mãos, com Manuel de Freitas. A parceria entre os dois autores, iniciada nos Poetas Sem Qualidades, seguiria firme em outras publicações, como, por exemplo, a primeira antologia poética de Freitas (A Última Porta, Assírio & Alvim, 2010) organizada e prefaciada por JMS.
Dono de uma língua afiadíssima para o sarcasmo e ironia (em especial a auto-ironia), JMS também tem se firmado, ainda que discretamente, como poeta de uma implacável consciência crítica, o que o liga, por um lado, ao comprometimento ético/estético de um Jorge de Sena, e por outro, ao humor cáustico de um Fernando Assis Pacheco. Seu estilo ainda guarda uma impressionante perícia no manejo da métrica, que emprestam aos seus textos um ritmo e fluidez que fazem lembrar a "naturalidade calculada" de mestres como António Franco Alexandre.
José Miguel Silva hoje vive na pequena cidade de Serém, onde trabalha como tradutor, tendo já vertido para o português autores como Virginia Woolf, James Joyce, Pablo Neruda, Shakespeare e Hannah Arendt.
Mantém ainda o blog Achaques e Remoques, onde costuma ocupar-se menos com poesia do que com o iminente colapso do nosso modelo de sociedade.
-- Luca Argel
Português
English
Español