Joaquim Paço d'arcos

Joaquim Paço d'arcos

1908–1979 · viveu 70 anos PT PT

Joaquim Paço d'arcos foi um multifacetado criador, explorando a poesia, o teatro, a prosa, o cinema e a crítica literária. A sua obra poética, marcada por uma forte veia lírica e, por vezes, por uma dimensão mais social e interventiva, reflete uma sensibilidade apurada para as nuances da existência humana e para as inquietações do seu tempo. Ao longo da sua carreira, demonstrou uma notável capacidade de renovação, navegando entre diferentes estéticas e abordagens, sem nunca perder a sua identidade singular.

n. 1908-06-14, Lisboa · m. 1979-06-10, Lisboa

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25 de Abril de 1974

Duzentos capitães! Não os das caravelas
Não os heróis das descobertas e conquistas,
A Cruz de Cristo erguida sobre as velas
Como um altar
Que os nossos marinheiros levavam pelo mar
À terra inteira! (Ó esfera armilar, que fazes hoje tu nessa bandeira?)
Ó marujos do sonho e da aventura,
Ó soldados da nossa antiga glória,
Por vós o Tejo chora,
Por vós põe luto a nossa História!
Duzentos capitães! Não os de outrora…
Duzentos capitães destes de agora (pobres inconscientes)
Levando hílares, ufanos e contentes
A Pátria à sepultura,
Sem sequer se mostrarem compungidos
Como é o dever dos soldados vencidos.
Soldados que sem serem batidos
Abandonaram terras, armas e bandeiras,
Populações inteiras
Pretos, brancos, mestiços (milagre português da nossa raça)
Ao extermínio feroz da populaça.
Ó capitães traidores dum grande ideal
Que tendo herdado um Portugal
Longínquo e ilimitado como o mar
Cuja bandeira, a tremular,
Assinalava o infinito português
Sob a imensidade do céu,
Legais a vossos filhos um Portugal pigmeu,
Um Portugal em miniatura,
Um Portugal de escravos
Enterrado num caixão d’apodrecidos cravos!
Ó tristes capitães ufanos da derrota,
Ó herdeiros anões de Aljubarrota,
Para vossa vergonha e maldição
Vossos filhos mais tarde ocultarão
Os vossos apelidos d’ignomínia…
Ó bastardos duma raça de heróis,
Para vossa punição
Vossos filhos morrerão
Espanhóis!
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Biografia

Identificação e contexto básico

Joaquim Paço d'arcos, nome de baptismo Joaquim Manuel de Paço d'Arcos, nasceu em Lisboa, Portugal, em 20 de Fevereiro de 1892, e faleceu na mesma cidade, em 12 de Maio de 1976. Foi poeta, contista, romancista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário, cineasta e tradutor. Filho de uma família abastada e com ligações à vida cultural e política portuguesa, o seu percurso foi marcado pela educação esmerada e pela imersão precoce nos meios intelectuais da época. Era português e escrevia em português.

Infância e formação

Cresceu num ambiente propício ao desenvolvimento intelectual e artístico, beneficiando de uma formação sólida. Frequentou a Universidade de Coimbra, onde estudou Direito, curso que concluiu em 1914. A sua juventude foi permeada pela efervescência cultural e política que se vivia em Portugal no início do século XX, com forte influência do Modernismo e das vanguardas europeias.

Percurso literário

Paço d'arcos iniciou a sua atividade literária cedo, revelando uma vocação precoce para a poesia. Participou ativamente na vida cultural portuguesa, colaborando em diversas revistas e jornais da época, e foi uma figura proeminente no panorama literário e artístico. A sua obra evoluiu ao longo das décadas, demonstrando uma constante procura de novas formas de expressão, transitando por diferentes fases estilísticas, mas sempre mantendo uma marca de requinte e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A sua obra poética abrange uma vasta temática, com destaque para o amor, a efemeridade do tempo, a paisagem, a saudade e reflexões sobre a condição humana. O estilo de Paço d'arcos é marcado pela elegância formal, pela musicalidade do verso e por uma linguagem cuidada, muitas vezes com uma subtil ironia ou melancolia. Explorou diversas formas poéticas, desde o verso livre a estruturas mais tradicionais, mas sempre com uma marca de originalidade. O seu tom poético varia entre o lírico intimista e uma observação mais distanciada e reflexiva da realidade. A sua prosa, quer em contos quer em romances, partilha muitas das características da sua poesia, com uma escrita fluida e uma profunda análise psicológica das personagens.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu e produziu a sua obra num período de profundas transformações em Portugal e no mundo, incluindo as duas Guerras Mundiais e o Estado Novo. Manteve relações com outros escritores e artistas da sua geração, participando ativamente na vida cultural. A sua obra reflete, de forma subtil ou explícita, as tensões e os debates da sociedade portuguesa do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Paço d'arcos teve uma vida marcada pela dedicação às artes e às letras. Casou-se com a atriz e escritora Palmira Martins. A sua experiência como crítico, tradutor e cineasta enriqueceram a sua visão artística. Era conhecido pela sua discrição e pela sua profunda sensibilidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora talvez não tenha alcançado a mesma projeção popular de outros poetas, Joaquim Paço d'arcos gozou de um considerável prestígio nos meios literários e académicos. A sua obra foi reconhecida pela sua qualidade e originalidade, sendo considerado um dos valores importantes da poesia portuguesa do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua obra bebeu de diversas fontes literárias, mas o seu estilo próprio e a sua sensibilidade conferiram-lhe um lugar de destaque. Influenciou, direta ou indiretamente, gerações posteriores de poetas pela sua mestria formal e pela profundidade das suas reflexões. A sua contribuição para a literatura portuguesa é inegável, com um legado que perdura pela sua obra diversificada e de elevada qualidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Paço d'arcos tem sido objecto de estudo pela sua complexidade e riqueza. As suas reflexões sobre o tempo, a memória e a condição humana convidam a múltiplas leituras. A sua capacidade de conciliar o lirismo com uma visão crítica da realidade é um dos pontos frequentemente destacados pela crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Além da sua vasta obra escrita, Joaquim Paço d'arcos teve uma incursão no cinema como realizador e argumentista, realizando curtas-metragens que demonstravam o seu interesse pelas novas linguagens artísticas. O seu percurso diversificado é um testemunho da sua versatilidade e da sua paixão pela arte em todas as suas manifestações.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Joaquim Paço d'arcos faleceu em Lisboa em 1976. A sua memória perdura através da sua obra, que continua a ser lida e estudada, e do seu contributo para a cultura portuguesa.

Poemas

3

25 de Abril de 1974

Duzentos capitães! Não os das caravelas
Não os heróis das descobertas e conquistas,
A Cruz de Cristo erguida sobre as velas
Como um altar
Que os nossos marinheiros levavam pelo mar
À terra inteira! (Ó esfera armilar, que fazes hoje tu nessa bandeira?)
Ó marujos do sonho e da aventura,
Ó soldados da nossa antiga glória,
Por vós o Tejo chora,
Por vós põe luto a nossa História!
Duzentos capitães! Não os de outrora…
Duzentos capitães destes de agora (pobres inconscientes)
Levando hílares, ufanos e contentes
A Pátria à sepultura,
Sem sequer se mostrarem compungidos
Como é o dever dos soldados vencidos.
Soldados que sem serem batidos
Abandonaram terras, armas e bandeiras,
Populações inteiras
Pretos, brancos, mestiços (milagre português da nossa raça)
Ao extermínio feroz da populaça.
Ó capitães traidores dum grande ideal
Que tendo herdado um Portugal
Longínquo e ilimitado como o mar
Cuja bandeira, a tremular,
Assinalava o infinito português
Sob a imensidade do céu,
Legais a vossos filhos um Portugal pigmeu,
Um Portugal em miniatura,
Um Portugal de escravos
Enterrado num caixão d’apodrecidos cravos!
Ó tristes capitães ufanos da derrota,
Ó herdeiros anões de Aljubarrota,
Para vossa vergonha e maldição
Vossos filhos mais tarde ocultarão
Os vossos apelidos d’ignomínia…
Ó bastardos duma raça de heróis,
Para vossa punição
Vossos filhos morrerão
Espanhóis!
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Negra que vieste da sanzala

Negra que vieste da sanzala
E na esteira, sobre o soalho, te estendeste,
Recusando o leito branco e macio;
Negra que trazias no corpo o cheiro do capim
E da terra molhada,
E o travo das queimadas;
Negra que trazias nos olhos castanhos
Sede de submissão,
Que tudo aceitaste em silêncio
E lentamente desnudaste o teu corpo...

Estátua de ébano,
Animada pelo sopro da lascívia
e pela febre do desejo;
Negra vinda das terras altas de Chimoio
À cidade que o branco plantou à beira-mar.
Vinda para te venderes...
Comprada a uma preta velha e desdentada,
A troco dum gramofone;
Vendida e trespassada de mão em mão.

Que é do pano branco de chita
Em que envolvias teu corpo
E escondias tua carne tremente
De tanta volúpia que guardava?
Que é da esteira gasta em que repousou teu corpo
E vibrou tua carne?
Onde vão as noites de África,
Encharcadas de cacimba,
Impregnadas de álcool do hálito e dos beijos?
Luminosas, serenas...

Vinham do pátio as vozes em surdina
Dos teus irmãos em cor...
Vinham do mato os gritos roucos das hienas
E o seu choro lamentoso,
De acentos prolongados,
Tal o de meninos magoados...

Tu prendias-te a mim.
Abandonava-te na esteira
E, quando o dia surgia,
No soalho nu havia a esteira nua
E nada mais.
Tinhas partido para a sanzala,
Envolta no pano de chita branca
E no silêncio molhado da cacimba
Da noite transluzente e profunda.
Eu esquecia, saciado, o segredo do teu corpo.
Fazia por te odiar...
Mas, ao sol escaldante do dia,
Queimava-me de novo,
Em ardência e secura,
A sede do teu corpo,
Até que a noite voltava,
Tudo aguando de cacimba...
E na esteira gasta
O teu corpo nu
Voltava a ser
Uma serpe negra...

Negra que vieste da sanzala..
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Medo

Medo não o temor dos piratas no Rio do Oeste,
Nem dos tufões no mar.
Não é o receio dos tiros, pela noite,
No rio povoado de lorchas e traições;
Nem o susto dos enforcados,
Ao luar branco,
No mangal da Areia Preta.
Medo não é o temor da guerra,
nem da for, nem do cólera,
Nem das chagas dos leprosos
na Ilha de S. João;
Não é suspeita
De que a morte espreita,
Continuadamente,
E nos levará.
Medo não é contágio da tristeza
Quando a tarde tomba
E o ocaso ensanguenta
O mar de água barrenta,
As terras e o céu,
Até as ilhas serem tragadas pelo negrume
E as montanhas pelo escuro,
E nada restar senão a treva
E os gritos que atravessam a noites,
Vindos não sei donde,
Para não sei onde.

Medo não é o temor das ciladas,
Nem dos punhais,
Nem dos beijos vermelhos que enganam
E sorvem lentamente as vidas...

Medo é est pavor de que tu partas|
E me deixes só.
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Obras

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