Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo foi um médico e escritor brasileiro.

1820-06-24 São João de Itaboraí, Rio de Janeiro, Brasil
1882-05-11 Rio de Janeiro, Brasil
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1
8


Prémios e Movimentos

Romantismo

Alguns Poemas

Canto I - A Rocha Negra

VI
(...)
Dizem que ali na turva penha imensa
Em velhas eras se acoutava insana
Mulher sabida em mágicas tremendas,
Que ensinam maus espíritos; formosa,
Inda aos cem anos moça como aos vinte,
Vê-la um momento era adorá-la sempre;
E amá-la eterno perdimento d'alma.
Gênio das trevas, só da lua amiga,
Fugia à luz do sol; mercê d'encantos,
Durante a noite mística pairava
No espaço em torno à rocha densa nuvem,
Em cujo seio toda se embebia,
Mal se abriam no céu rosas d'aurora;
Chamavam-a por isso a Nebulosa.
(...)
Tempo, que se não mede, assim vivera
Sempre moça e gentil, mau grado os anos;
Uma noite porém de tredo olvido
(Foi castigo de Deus) ao mar se atira,
Sem que antes repetisse as da cabala.
Satânicas palavras; tarde as lembra...
Mais tarde as balbucia... os pés se molham...
Vai sentindo afundar-se... em vão braceja...
Ruge a tormenta... súbito revolto
A juba monstruosa o mar encrespa,
E no abismo e no céu jogam madrias;
D'encontro à rocha-negra bravas ondas
O corpo arrojão da esquecida maga;
Debalde a miseranda estende os braços;
Se à pedra quer ligar-se, as mãos lhe faltam,
Pelo dorso escabroso escorregando,
As unhas lasca em vão e fere os dedos;
Uma, dez, vinte vezes... sempre o mesmo,
Dúbia esperança, e desengano certo!...
Volve os olhos ao céu... cintila aurora;
Quebra-se à luz do sol de todo o encanto;
Ai da fada gentil!... solta no espaço
A nuvem protetora, mago asilo,
Vai fugindo a embeber-se no horizonte,
Como no mar imenso abandonada
Erma barquinha que a corrente alonga!...
Não pode mais com a vida... perde as forças...
Um derradeiro arranco... inda é baldado...
Último foi: — abriu medonha boca
O pego vingador, e absorveu-a,
Dando-lhe cova aos pés da rocha-negra.

V

Ninguém da maga diz que o corpo exânime
Boiasse à flor das águas; um mistério
Foi sua vida, igual mistério a morte:
Contam muitos, porém, que nas desoras
Das noites em que a lua aclara a terra.
No turvo cimo da tremenda rocha
Vem sentar-se a cismar branco fantasma:
Que tão profundos ais longos desata,
Como nunca exalara humano seio;
Que há frio gelador da rocha em torno.
Esse fantasma... é ela; e canta e chora,
E com pérfido choro e tredos cantos,
Os incautos atrai, que ao mar se arrojam
De súbita loucura arrebatados,
Ou por negros contratos se escravizam
Ao império fatal da Nebulosa.

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In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.3-6

NOTA: O "Canto I - A Rocha Negra" é composto de 36 parte

Eu me curvo ao destino de meu sexo; (Ato II, Cena I)

(...)

Eu me curvo ao destino de meu sexo;
É preciso viver no nosso mundo;
Receber como leis suas cadeias;
Ter o riso no rosto, e o pranto n'alma,
E dizer — sou feliz!... — Que sorte iníqua!
É a mulher excepcional vivente,
Que tem alma, e não querem que ela sinta!
Tem coração, e ordenam que não ame!...
A mulher sempre é vítima no mundo.
Sujeita des que nasce até que morre,
De pai passa a tutor, irmão, marido...
Sempre um senhor... (O nome é que se muda);
Sempre a seu lado um homem se levanta
Para pensar e desejar por ela;
Criança, junto a quem sempre vigiam;
Cego, que sempre pela mão se leva;
Eis a mulher!... eis o que eu sou, e todas!...
E ao muito se consegue ser amada;
É escrava, que num altar se prende,
Divindade, que em ferros se conserva.
E a quem se chama (Oh! irrisão!!!) SENHORA!
E portanto, eu serei como mil outras
Mártires nobres. Ver-me-ão passando
(Como essas tantas) Silenciosa... pálida
Sorrindo com o sorrir que esconde as mágoas:
Talvez digam ao ver-me — ela é ditosa!
Sim, que eu hei de saber (como outras fazem)
Abafar meus suspiros e gemidos,
E esconder os tormentos de minh'alma
Desse mundo egoísta, e sem piedade,
Que faz do homem "senhor" da mulher "mártir"

(...)


Publicado no livro O cego: drama em cinco atos em verso (1851).

In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.253. (Clássicos do teatro brasileiro, 3

Canto III - A Peregrina

XVIII

Sua estatura é alta e majestosa,
Sem que lhe abafe a majestade a graça.
Quieta face de um lago manso e puro,
Sereno céu de bonançosa aurora,
Eis sua fronta sossegada e lisa.
Os seus cabelos longos e brilhantes.
Como da tempestade a nuvem negros,
Em bastos caracóis brincando soltos,
Quando assentada, o colo lhe anuviam:
Tão grande negridão, seio tão níveo,
Em desordem furtando a mil desejos,
É como um caos que um mistério esconde:
Olhos negros também, de amor são raios;
Tem uma luz que aos corações é dia,
Tem um fitar que à indiferença é morte.
Ao ver-lhe a breve e graciosa boca,
Suas madonas retocara Urbino;
O bico da trocaz rubor mais puro
Não tem, que os lábios seus, nem mais alvura
Que os finos dentes neve cristalina.
Ao cisne do Uruguai não cede em graça
Seu colo altivo e belo, e nem as fadas
A cintura no mimo e delgadeza,
Torneara-lhe os braços gênio amigo,
Tão formosos se mostram! mão de um anjo,
Branca e leve qual pena de uma garça,
Jasmins colhendo por jasmim se houvera;
Níveos dedos coroam rubras unhas,
Quais hastes de cristal pétalas de rosas;
E o lindo pé, que às vezes se adivinha,
Quando mergulha na rasteira grama,
Invejariam silfos, que só voam.
Oh! tão formosa, custa a crê-la humana!
Parece um anjo que baixara à terra,
Anjo exilado da mansão dos justos,
Peregrinando na mansão dos erros.


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.93-95

NOTA: O "Canto III - A Peregrina" é composto de 41 parte
Joaquim Manuel de Macedo (São João de Itaboraí RJ 1820 - Rio de Janeiro RJ 1882) concluiu o Curso de Medicina na Escola Médica do Rio de Janeiro em 1844. No mesmo ano, publicou seu primeiro romance, A Moreninha, que alcançou grande êxito; nas décadas seguintes escreveria mais 16 romances. Em 1949, tornou-se Professor de História e Geografia do Brasil do Colégio Pedro II, cargo em que permaneceria até 1870. Foi sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e fundou, com Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre, a revista cultural Guanabara. Elegeu-se várias vezes Deputado pelo Partido Liberal (ala conservadora). Em 1857 publicou A Nebulosa, considerado pelo crítico Antonio Candido “o melhor poema-romance do Romantismo”. Macedo publicou 12 peças de teatro e é considerado um dos maiores prosadores do Romantismo brasileiro. Em sua poesia encontram-se traços românticos bastante característicos, como amores fatais, cenários de tempestade, imagens de donzelas angelicais e sonhadoras.
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