Lista de Poemas

NAUFRÁGIOS

Podemos naufragar dentro de casa,
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;

icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,

tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
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Quase Gregas - Nona

O fogo foi o menor dos teus roubos,
estranho a dureza dos deuses.
Tal lume belo, mas breve, foi pobre
contra o puro lampejo
(– também provisório –, esse que nos funda e
nomeia,
miraculoso,
que aqui, mundo errado,
passando e pesado,
é luz liberta assustada com tudo;
nas vísceras, o frio vivo
e o discurso em acúmulo
é o mapa nos desrumando de Argos).
No entanto, infeliz, teu suplício,
por mais insano, comove.
Depois nosso cosmo foi pouco,
mas tua dor, moribundo,
não pode encerrar o tal ciclo sanguissedento,
banquete dos deuses mais loucos,
aqueles que não puderam,
por cegos,
firmarem, na própria cabeça, o sacrifício.
Por séculos, foi este o motivo:
aniquilante equilíbrio.
Se foi necessário?
Indubitável –
aí, te encontras plasmado em obscuro penhasco.
Com moscardos e súplicas, até Io te abandonou.
Agora, só, medita sobre o teu gesto:
outro labirinto infindável.
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Quase Gregas - Oitava

Sigo a senhora mestiça,
(ou melhor, seu perfume barato),
pelas calçadas da Rua Recife,
na aberta manhã de agosto.
Sigo esse rastro de infância cavado no ar,
meu coração siderado minera seu ouro nenhum.
Mas, depois, no intervalo indistinto,
entre o fim da tardinha
e a beira da noite,
surge sutil e exato o velho pesar –
hóspede importuno,
suja as paredes,
estraga a mobília,
emperra as portas.
Enxoto-o, mas quer se instalar.
Sedutor desastroso,
promete e o que dá desespera de si.
Há um desejo jamais concluído,
lacuna terrível e familiar,
reacendido minuto a minuto sem pausa.
O cansaço movente
(chora seus idos,
devoto ama e desama na mesma equação)
silencia
diante do maciço da noite vazado de luz.
Grato, agora,
o cansaço movente,
por ter seu suor enxugado por muitos,
lida invisível de mãos preparando seu sal.
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Quase Gregas - Quarta

Nossos pequenos tesouros terrenos,
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
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BALANÇA

Para Alana Freitas El Fahl

 y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors

 

Uma pessoa é sempre mais pesada

do que indica a balança
ao sair de casa desloca

todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos

e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos

que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas

que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs

que a fazem sair
das línguas inumeráveis

que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto

– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva

e menos do que isso
esse peso

é parte do seu compromisso
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Quase Gregas - Sétima

O soco explode
e arrebenta o nariz do Primeiro,
que cai
não cai,
tonteia aos tropeços
e, em fúria,
num giro,
arremete!,
– bloco compacto contra o Segundo,
quando, surpreso num susto,
ângulos confusos,
o Primeiro devolve-lhe o murro!
Lábio partido,
perdido dois dentes,
esguicho de sangue;
soco após soco, o Segundo,
no chão,
consegue, no sufoco,
num empurrão,
projetá-lo pra longe.
Cuspindo vermelho,
arfando,
sem trégua, retorna o Primeiro,
travado num chute
que, ainda deitado, o Segundo lhe acerta.
Dobrando sem fôlego,
tomba a três metros.
(Não são lutadores,
talvez inimigos,
mas devem ter seus motivos, pois, antes,
calados, se olharam
e, feito bichos grunhindo,
mediram-se em mil semicírculos).
Se erguem insultando um ao outro,
e, num impulso, se atracam no ar!
Leva vantagem na queda o Segundo,
acertando sequências desencontradas
no rosto,
pescoço, nariz do Primeiro,
este, no desespero, o asfixia
até vê-lo em desmaio convulso.
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TRÊS VEZES LÁZARO

Levou três tiros em
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.

Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,

talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,

derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber

que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes

irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama

dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,

quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
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A VENDA POR DENTRO

Serengas, peixeiras,
vianas e naifas,
facões, lambedeiras
– as lâminas várias;

pregos, parafusos,
quinas, estreitezas
– o roxo mais puro,
a dor mais espessa;

o chumbo de fita,
o chumbo de caça
– o peso da vida,
o grão na garrafa;

os sacos de estopa,
as tais aniagens –
a mais suja estofa
serve de bagagem;

lata de eletrodo
e lata de tinta,
vassouras e rodos
– falta coisa ainda:

no baú de tampa,
açúcar, arroz,
feijão, a sustância
que só vem depois;

volumes, texturas,
cores, formas, cheiros –
nesse caos que açula
o pai é o ordeiro;

nesse labirinto,
a vida a varejo,
a Casa Bahiana
desse João Galego;

os tais viajantes,
suas promissórias,
o dever de ontem
vou saldar agora;

enxada, estrovenga,
pá, grosas e plainas,
as chaves de fenda,
verrumas, chibancas;

espátulas, tornos,
formões, discos, cintas,
cincerros, gangôlos
– falta coisa ainda:

foices, roçadeiras,
mata-pastos, lixas
– em dias de feira
o freguês capricha;

via de mão dupla –
toma lá, dá cá,
o freguês tem culpa?
E quem não terá?

Breu, painço, alpiste,
pacotes, sacolas,
os vários calibres
da mesma bitola;

cartucho, espoleta
(chamada de escorva),
da cinza e da preta
os tipos de pólvoras;

coloratos, bombas,
nitroglicerina,
dinamite assombra
– falta coisa ainda:

grifos, alicates,
torqueses e puas,
mas qual é a chave
da porta da rua?

o mundo das cordas,
nylons, piaçavas,
zinco pesa e corta
a mão destreinada;

anzóis, garateia,
o mundo das linhas,
pequena epopeia
da Venda e da Língua;

segunda a segunda,
domingo não falha,
o balcão circunda
nossa vida e fala;

balança: o ouro a fio,
o metro que finda,
serrotes, barril
– falta coisa ainda.
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Quase Gregas - Quinta

Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
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MEDIDA

e falho, e falho sempre, dom sem fim,
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez

e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez

e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
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