João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

João Airas de Santiago foi um trovador galego-português, ativo no século XIII. Pertence ao período da lírica medieval em língua galego-portuguesa, sendo conhecido pelas suas cantigas, especialmente as de amor e de amigo. Sua obra, embora pertencente a um contexto literário específico, reflete as convenções da poesia trovadoresca, explorando temas como o amor cortês e a saudade, e contribuindo para o património da literatura medieval da Península Ibérica.

n. Séc. XIII, Santiago de Compostela

47 162 Visualizações

A Meu Amigo Mandad'enviei

A meu amigo mandad'enviei
a Toled', amiga, per boa fé,
e mui bem creo que já co el é;
preguntad', e gradecer-vo-lo-ei,
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.

Ca do mandadeiro sei eu mui bem
que, depois que lh'o mandado disser,
que se verrá mais cedo que poder;
e, amiga, sabede vós d'alguém
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.

E sempre catam estes olhos meus
per u eu cuido que há de viir
o mandadeir', e moiro por oír
novas del, e preguntade, por Deus,
       em quantos dias poderá chegar
       aqui de Toledo quem bem andar.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

João Airas de Santiago foi um trovador galego-português, cuja atividade poética se situou no século XIII. É uma figura proeminente da chamada "Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Santiago de Compostela", o que sugere uma forte ligação à região da Galiza. O seu nome indica uma origem familiar ou uma afiliação à Ordem de Santiago.

Infância e formação

A informação sobre a infância e formação de João Airas de Santiago é escassa, como é comum para a maioria dos trovadores medievais. Presume-se que, como outros trovadores de renome, tenha tido acesso a uma educação que lhe permitisse dominar a arte da composição poética e musical, no contexto da sociedade cortesã da época.

Percurso literário

O percurso literário de João Airas de Santiago está centrado na produção de cantigas, que são o género poético característico da lírica galego-portuguesa medieval. A sua obra é composta por cantigas de amor e de amigo, demonstrando a maestria nas formas e nos temas convencionais da poesia trovadoresca.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de João Airas de Santiago incluem um conjunto de cantigas, das quais se destacam algumas cantigas de amor, que seguem o modelo do amor cortês, e cantigas de amigo, que expressam a voz feminina e a saudade. O seu estilo é caracterizado pela musicalidade, pela elegância formal e pela expressão de sentimentos de forma convencional, mas sincera, dentro dos preceitos da lírica trovadoresca. A sua obra contribui para o corpus da poesia galego-portuguesa medieval, revelando as sensibilidades e os temas que moldavam a produção literária daquele período.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Airas de Santiago viveu durante o século XIII, um período marcado pela expansão dos reinos cristãos na Península Ibérica e pela consolidação de uma cultura cortesã onde a poesia trovadoresca florescia. A sua ligação a Santiago de Compostela insere-o num importante centro cultural e religioso da época. A poesia galego-portuguesa era a língua de expressão literária privilegiada para a lírica na Península Ibérica nesse período.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de João Airas de Santiago. A sua afiliação à Ordem de Santiago e a sua ligação a Compostela são os aspetos mais conhecidos da sua biografia, sugerindo uma vida ligada a atividades religiosas ou militares, além da sua atividade como trovador.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de João Airas de Santiago advém do seu lugar como um dos trovadores da lírica galego-portuguesa. A sua obra foi preservada em cancioneiros medievais, o que permitiu a sua sobrevivência até aos dias de hoje e o seu estudo por parte de investigadores da literatura medieval.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Como trovador, João Airas de Santiago insere-se na tradição da poesia lírica cortesã que se desenvolveu na Europa medieval. O seu legado reside na contribuição para o repertório da poesia galego-portuguesa, um património literário fundamental para a história da língua e da literatura em Portugal e na Galiza.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A análise crítica da obra de João Airas de Santiago foca-se na sua adesão às convenções da cantiga de amor e de amigo, bem como na sua capacidade de expressar as emoções humanas dentro de um quadro formal específico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A sua ligação à Ordem de Santiago e a cidade de Compostela confere-lhe um interesse particular, sugerindo uma vida que conjugava a prática religiosa ou militar com a arte poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias da morte de João Airas de Santiago são desconhecidas, tal como a data exata da sua morte. A sua memória perdura através das suas cantigas, preservadas nos cancioneiros medievais.

Poemas

81

Quer Meu Amigo de Mi Um Preito

Quer meu amigo de mi um preito
que el já muitas vezes quisera:
que lhi faça bem; e já temp'era,
mas, como quer que seja meu feito,
       farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
       mais nom tam cedo com'el querria.

E digam-lhi por mi que nom tenha
que lho vou eu por mal demorando,
ca el anda-se de mi queixando,
mais, como quer que depois [mi] venha,
       farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
       mais nom tam cedo com'el querria.

El é por mi atam namorado
e meu amor o traj'assi louco
que se nom pod'atender um pouco,
mais, tanto que eu haja guisado,
       farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
       mais nom tam cedo com'el querria.

E, como quer que fosse, el querria
haver já bem de mim todavia.

E bem sei del que nom cataria
o que m'end'a mim depois verria.
569

Vedes, Amigo, Ond'hei Gram Pesar

Vedes, amigo, ond'hei gram pesar:
sei muitas donas que sabem amar
seus amigos e soem-lhis falar
e nom lho sabem, assi lhis avém;
e nós sol que o queiramos provar,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Tal dona sei eu, quando quer veer
seu amigo, a que sabe bem querer,
que lho nom podem per rem entender
o[s] que cuidam que a guarda[m] mui bem;
e nós sol que o queiramos fazer,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Com'eu querria, nom se guis'assi:
falar vosco, que morredes por mi,
com'outras donas falam, e des i
nunca lhis mais podem entender rem;
e nós [sol] ante que cheguemos i,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Coita lhi venha qual ora a nós vem
per quem nos a nós tod'este mal vem.
536

Foi-S'o Meu Amigo a Cas D'el-Rei

Foi-s'o meu amigo a cas d'el-rei
e, amigas, com grand'amor que lh'hei,
quand'el veer, já eu morta serei,
mais nom lhe digam que morri assi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Per nulha rem nom me posso guardar
que nom moira ced'e com gram pesar,
e, amigas, quand'el aqui chegar,
nom sábia per vós qual mort'eu prendi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Eu morrerei cedo, se Deus quiser,
e, amigas, quand'el aqui veer,
desmesura dirá quem lhi disser
qual mort'eu filhei des que o nom vi,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.

Já nom posso de morte guarecer,
mais, quando s'el tornar por me veer,
nom lhi digam como m'el fez morrer
ante tempo, porque se foi daqui,
       ca, se souber com'eu por el morri,
       será mui pouca sa vida des i.
519

Vai Meu Amigo Com El-Rei Morar

Vai meu amigo com el-rei morar
e nom mi o disse nem lh[o] outorguei,
e faz mal sem de mi faz[er] pesar;
mais eu perça bom parecer que hei,
       se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
       quanto lh'eu farei, quando mi quiser.

E [el] quer muito com el-rei viver
e [a] mia sanha non'a tem em rem;
e el-rei pode quanto quer poder,
mas mal mi venha onde vem o bem,
       se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
       quanto lh'eu farei, quando mi quiser.

E el punhou muit[o sempr'] em me servir
e a [e]l-rei nunca serviço fez,
por end'el-rei nom há que lhi gracir;
mais eu perça bom parecer e bom prez,
       se nunca lh'el-rei tanto bem fezer
       quanto lh'eu farei, quando mi quiser.

Ca mais [lhi] valrá se lh'eu [bem] quiser,
que quanto bem lh'el-rei fazer poder.
555

Amigo, Queredes-Vos Ir

Amigo, queredes-vos ir,
e bem sei eu que mi averrá:
enmentre morardes alá,
a quantos end'eu vir viir,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

Nom vos poderia dizer
quant'hei de vos irdes [pesar],
mais a quantos eu vir chegar
d'u ides com el-rei viver,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

Coitada ficarei d'amor
atá que mi vos Deus adusser,
mais a quantos eu já souber
que veerem d'u el-rei for,
       a todos eu preguntarei
       como vos vai em cas d'el-rei.

E, se disserem 'Bem', loarei
Deus, e graci-lo-ei a 'l-rei.
681

o Voss'amigo Que S'a Cas D'el-Rei

- O voss'amigo que s'a cas d'el-rei
foi, amiga, mui cedo vos verrá,
e partide as dõas que vos dará
- Amiga, verdade bem vos direi:
       fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
       e sas dõas dé-as a quem quiser.

- Disserom-mi ora, se Deus mi perdom,
que vos trage dõas de Portugal,
e, amiga, non'as partades mal.
- Direi-vos, amiga, meu coraçom:
       fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
       e sas dõas dé-as a quem quiser.

- Dizem, amiga, que nom vem o meu
amigo, mailo vosso cedo vem,
e partid'as dõas, que trage, bem.
- Direi-vos, amiga, o que dig'eu:
       fará-mi Deus bem, se mi o adusser,
       e sas dõas dé-as a quem quiser.

E bem sei eu [que], des que el veer,
haverei dõas e quant'al quiser.
762

Amei-Vos Sempr', Amigo, E Fiz-Vos Lealdade:

Amei-vos sempr', amigo, e fiz-vos lealdade:
se preguntar quiserdes em vossa puridade,
saberedes, amigo, que vos digo verdade;
ou, se falar houverdes com algum maldizente
e vos quiser, amigo, faz[er d]'al entendente,
dizede-lhi que mente,
dizede-lhi que mente.
558

Meu Amig'e Meu Bem E Meu Amor

Meu amig'e meu bem e meu amor,
disserom-vos que me virom falar
com outr'home por vos fazer pesar,
e por en rog'eu a Nostro Senhor
que confonda quem vo-lo foi dizer,
e vós, se o assi fostes creer,
e mim, se end'eu fui merecedor.

Já vos disserom por mi que falei
com outr'hom'e que vos nom tiv'em rem,
e, se o fiz, nunca mi venha bem;
mais rog'a Deus sempr'e rogá-Lo-ei
que confonda quem vo-lo diss'assi,
e vós, se tam gram mentira de mim
crevestes, e mim, se o eu cuidei.

Sei que vos disserom, per bõa fé,
que falei com outr'hom', e nom foi al
senom que vo-lo disserom por mal;
mais rog'a Deus, que [e]no ceo sé,
que confonda quem vos atal razom
diss', e vós, se a crevestes entom,
e que confonda mim, se verdad'é.

E confonda quem há tam gram sabor
d'antre mim e vós meter desamor
- ca [o] maior amor do mund[o] é.
760

Ir-Vos Queredes, E Nom Hei Poder

Ir-vos queredes, e nom hei poder,
par Deus, amigo, de vos en tolher,
e, se ficardes, vos quero dizer,
meu amig', o que vos por en farei:
os dias que vós a vosso prazer
       nom passastes, eu vo-los cobrarei.

Se vos fordes, sofrerei a maior
coita que sofreu molher por senhor;
e, se ficardes polo meu amor,
direi-vo'lo que vos por en farei:
os dias que vós a vosso sabor
       nom passastes, eu vo-los cobrarei.

Ides-vos e teendes-m'em desdém
e fico eu mui coitada por en;
e ficade por mi, ca vos convém,
e direi-vos que vos por en farei:
os dias que vós nom passastes bem,
       ai meu amigo, eu vo-los cobrarei.
698

Pero Garcia Me Disse

Pero Garcia me disse
que mia senhor com el visse;
e dixe-lh'eu, que nom oísse:
       - Ai Pero Garcia,
       gram med'hei de Dona Maria,
       que nos mataria!

Disse-m'el: - Aventuremos
os corpos e alá entremos.
Dixe-lh'eu: - Nõn'o faremos.
       Ai Pero Garcia,
       gram med'hei de Dona Maria,
       que nos mataria!

Disse-m'el: - Entremos, ante
que Dona Maria jante.
Dix'eu: - Ide vós deante.
       Ai Pero Garcia,
       gram med'hei de Dona Maria,
       que nos mataria!

Mal conhoscedes Dona Maria,
       ai Pero Garcia!
468

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.