Lista de Poemas
E se eu disser
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
Palimpsesto
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
Esse punhado de ossos
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
Comentários (0)
NoComments
Ivan Junqueira, apenas um poeta
Histórias de Acadêmicos - Ivan Junqueira: A Solaridade do Fim - Bloco 1
Depoimento do Acadêmico Ivan Junqueira
Ivan Junqueira - A tua data
Leituras - Ivan Junqueira - Bloco 1
Ferreira Gullar/ Ivan Junqueira, Rev Literária , de Marcos Ribeiro, parte 1
853 - Meu pai - Ivan Junqueira
Ivan Junqueira - Esse punhado de ossos
10º Ciclo de Conferências: "Vinicius de Moraes: língua e linguagem poética"
Poema de T.S. Eliot - Os Homens Ocos (tradução de Ivan Junqueira)
Ivan Junqueira - Poema Ritual | Melhores Poetas Brasileiros | Declamar e Recitar Poesia | EUIANCOSKI
Morre aos 79 anos o acadêmico Ivan Junqueira -
Tertúlia: Tradutores - Baudelaire por Ivan Junqueira
DENISE EMMER & IVAN JUNQUEIRA (4º Movimento)
Ferreira Gullar/ Ivan Junqueira, Rev Literária, de Marcos Ribeiro, parte 2
IVAN JUNQUEIRA - E SE EU DISSER - POESIA FALADA
DENISE EMMER & IVAN JUNQUEIRA (3º Movimento)
DENISE EMMER & IVAN JUNQUEIRA (3º Movimento)
Tertúlia: Tradutores - Baudelaire por Ivan Junqueira
Terceiro Movimento
Bruno Tolentino - O espectro (a Ivan Junqueira)
Morre o jornalista Ivan Junqueira - Repórter Rio
Kumitê - Ivan Junqueira
3º Ciclo de Conferências - "A poesia de Gonçalves Dias"
Poema de TS Eliot - Manhã à janela (trad. Ivan Junqueira).
Kumitê - Ivan Junqueira
É tão pouco. Ivan Junqueira.
Ivan Junqueira - O poema
Déclamation de A UNE PASSANTE de Charles Beaudelaire traduzido por Ivan Junqueira
Kata - Ivan Junqueira
POETA IVAN JUNQUEIRA E HOMENAGEADO
Poema de Ivan Junqueira - Ó doce mão...
A morte - Ivan Junqueira
Esse punhado de ossos (poema de Ivan Junqueira)
Morre aos 79 anos o acadêmico Ivan Junqueira
TN Entr Ivan Junqueira
Tristeza - Ivan Junqueira
Primeiro Movimento
POETA IVAN JUNQUEIRA POR LEDA PRADO .
111 - Ivan Junqueira - Sagração dos ossos
T. S. Eliot - Os homens ocos - trad. de Ivan Junqueira
Ivan Junqueira - É tudo amor
"MEU PAI" de ivan junqueira
Poema de Ivan Junqueira - É tanto o resplendor
ESSE PUNHADO DE OSSOS - Ivan Junqueira
PROGRAMA IVAN JUNQUEIRA ACREDITE NO BRASIL .
EU TE AMO TANTO (IVAN JUNQUEIRA) POR MARLOS DEGANI E AGONIA DE MARLOS DEGANI
PROGRAMA IVAN JUNQUEIRA ACREDITE NO BRASIL.
PROGRAMA IVAN JUNQUEIRA ACREDITE NO BRASIL
Morrer de Ivan Junqueira.
Português
English
Español