Lista de Poemas

Quem diante do amor

Quem diante do amor
ousa falar do Inferno?

Quem diante do Inferno
ousa falar do Amor?

Ninguém me ama
ninguém me quer
ninguém me chama
de Baudelaire


1 701

Dezenove do oito de mil novecentos e setenta e quatro

Não entendo nada desta janela fechada
que me aperta a culpa
Doer não doi mais,
nem sangra –
Consegui o que queria:
ser despedida, ficar perdida
falida & alone
olhando o pale da Comedia.
Sei que me chamam Bel
Mel de paixão
sugado da boca louca
de onde sangra o coração
e chora a hora
do leito vazio
da falta de peito
do jeito do beijo
fácil, difícil, sutil.

A verdade é que vivo a mil
sonhando a morte em azul-anil.


1 261

Light-cock-song

só para gênios, tímidos
e alguns porcos chauvinistas
desses que o padre vem me
benzer todo dia, e que quando
não vem ele cá vou eu lá:
Leva este caralho compra-me um maço
de cigarros Continental, umas cem
gramas de alho e o tempero, que te der na cuca.
E se o dinheiro render, um lacinho de fita
de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema,
vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se
esquecer que o alho é para um aglio-olio.



835

ninguém morre ao travesseiro

ninguém morre ao travesseiro

só os sonhos

isto quando há travesseiro

ou lojas cheirosas
de
tanto capim-do-pará murta macela...

essas ervas que socorrem

a Santa Mãe Natureza


719

I.

I.
Se por acaso ao cruzar a luz
teu pé não se apegar a mim e o
trespassar em ti a espada
fruto masculino prazer de dolorosa e umbrática sombra
Saiba que por ti
ignorantemente passei sem querer
sem que sequer presumisses
e se supunhas
então era eu o tempo devido
fossem Outroras ou não
quando Aurora
(ah sacra palavra)
Aurora
AURORA
que em inglês também pressupõe pés sujos
de americanos forjadores de matracas...
...não fique aí parado
escoou – foi para baixo e sumiu na Noite
DAWN
E quando todo lógico-poema
não quiser assinalar-se à ponta da escrita
aquieta-te pássaro e força o prazer de pássaro
olhando à revelia o céu
porém ali
sentadinho mas num poleirinho.
II.
Se fosse moça (se moça fora) não teria nome
chamar-se-ia em boa gramática
de escrita antiga apenas Moça.
Só se faria maiúsculo o m de três pernas
que duas já devera de ter por causa dos sustos
e do medo de perder. A terceira perda
a perna terceira
tecera infindável
o recomeço
para o Futuro...
Quanta estranheza senhor Deus
nas orações de dona Rozenda.
Toda Ave-Maria era um coroar-se de rei
e de salve-rainhas a perder de vista
Depois
se por acaso alguém perdesse o dom de Ver
A Visão
até isso era um coroar-se da Vida
892

Lençóis

Aos domingos se vai ao longe. . .
Lavam-se panos brancos e os
denominamos roupas de cama:
Roupas de baixo
Roupas de cima –
Coisas da Casa
Aos Domingos todos se cansam cedo:
há enlaces matutinos
e muitos hinos.
Aos domingos há missa, música
entreveros. Há quem chore
nalguma hora e há também
possibilidades novas:
Há pares, bares, porres.
Aos domingos semeiam
as lavadeiras
seus azuis/brancos lençóis
lúcidos dos dias de semana.
Para elas lençóis
Prata da Casa
Lençóis louça de Porcelana


900

Ilógica

Só quem sabe a Idade do Ferro
é a Bigorna que o modifica


935

Fim (13° volume)

Você me falou
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.


785

Cartilha

VOGAIS

A E I O U

a e i o u

Consoantes

B C D F G H J L M N P Q R S T V X Z

b c d f g h j l m n p q r s t v x z

A grande é Maiúsculo

A é vogal maiúscula

A maiúsculo se escreve após um ponto final (.) uma interrogação (?) uma afirmação (!)

E os nomes das pessoas devem começar com letra maiúscula.
Aquela menina é tua irmã?
Não. Aquela menina é minha amiga.
Eu sou a amiga da amiga.
Eu sou o amigo do amigo.
Eu sou amiga das amigas e dos amigos.
Aprendo a escrever.
Aprendo a perguntar: o que é ser Amigo?

Ia procurando a estrada. Era durante o dia.
Dia e meio já eram.
Era meio-dia e parecia mais.
Ia me escondendo, sol forte castiga.
Dia e meio é mais que meio dia.
Dia e meio são dois dias mais doze horas.
{Aqui existe erro. Você sabe dizer qual?}
Era manhã e eu ia só, sozinha pela estrada. Estrada longa.
Difícil. Outra pessoa apareceu.
Outros amigos vieram chegando.
Éramos amigos, pessoas, colegas caminhando pela longa estrada.
Uns brincavam, outros caminhavam sérios, pensativos,
até tristes. Seria fome? Seria medo?
Seria o Negrinho do Pastoreio no vento que embalava tanto silêncio?
A Escola já estava a meio caminho andado.
O outro caminho todos ainda havíamos de aprender.
Tem um aluno novo que é loiro. O outro é uma menina
bem pretinha de alumiar.
As duas crianças vão de braços dados.
Às vezes comem separadas.
O sol brinca no carrapincho de um e faz contraste com o
cabelo lourinho do outro. É bom de se olhar. Aprende-se
muito com o olhar.
Se a Escola ficasse mais perto das nossas casas, a gente
sentia menos fome, menos preguiça e até menos medo,
feito aquele menino do vento cujo vento era amigo do
Negrinho do Pastoreio.
A professora também mora longe.
Quando não vem de carroça, de charrete, tem coragem até
para os solavancos do carro de bois.
Por hoje é só.

Resposta:
Dia e meio são doze horas mais seis horas. São 12 + 6 = 18 horas.
18horas são as seis da tarde. Hora da Ave Maria.

Para escrever a gente pode começar assim:
Se esforçando na Caligrafia.
Ia me esquecendo de um relato:
B-b- de Belezura de belezura.
Beleza longamente. Sem hora.
Formosura. Sem usura. Sem avarícia ou indecência do olhar.
Beleza que dura, que permanece, guardadinha na gaveta
verde de alguma árvore da longa estrada.
Belezura é aprendizado de Liberdade. É a beleza da forma.
Por isso é complicado definir.
Eu vi duas amigas. Pareciam mais duas aves benzendo
a terra árida. Benedita saltava sobre brejos secos onde muitas
vezes se banhou.
Branca fitava os seixos, serena.
Branca a Benedita. Belezuras. Formosuras.
Um dia começou a chover.
Então a terra-mundo adormeceu feliz.


.
.
.
937

Hora sagrada

Te espero.
Sob o travesseiro
a tesoura segura
o Ouro
o Trigo
o abraço ligeiro
de quem tem cheiro
das coisas pagãs
anãs sob o linho fino
o vinho rastreiro.
Faço a feira
vivo beirando a beira
da Orgia
que pia, escorrega,
cortando ligeira
a noite do dia que me alivia.
E aí só cria
meu mundo de fantasia
Agora vê se não chia
Você não é minha tia.


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Identificação e contexto básico

Isabel Câmara foi uma escritora e poeta portuguesa. A sua obra literária, embora não amplamente divulgada em grandes círculos de notoriedade, representa um contributo significativo para a poesia portuguesa do século XX. As informações sobre a sua vida pessoal e o contexto específico da sua produção são, contudo, limitadas em fontes de acesso público.

Infância e formação

Detalhes específicos sobre a sua infância e formação não são amplamente documentados em fontes literárias comuns. Presume-se que, como muitos escritores da sua época, tenha tido acesso a uma educação que lhe permitiu desenvolver o seu interesse pela literatura e pela escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Isabel Câmara é marcado pela publicação de obras poéticas que refletem uma sensibilidade particular e um olhar atento sobre o mundo. A sua participação em antologias ou publicações literárias mais específicas pode ter contribuído para a divulgação do seu trabalho entre leitores e críticos mais atentos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Isabel Câmara tende a ser lírica e introspectiva. Os temas frequentemente abordados incluem a natureza, com uma observação detalhada do ambiente natural, a passagem do tempo, a memória e reflexões sobre a existência humana. O seu estilo caracteriza-se por uma linguagem cuidada e por uma musicalidade que confere ritmo e profundidade aos seus versos. A sua voz poética é muitas vezes serena, mas com uma capacidade de evocar emoções profundas e reflexões existenciais. Pode-se inferir um diálogo com a tradição lírica portuguesa, mas com uma marca pessoal que a distingue.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A obra de Isabel Câmara insere-se no panorama literário português do século XX, um período de grandes transformações sociais, políticas e culturais. Embora não esteja explicitamente associada a um movimento literário dominante, a sua poesia pode ser vista como parte de uma corrente de sensibilidade lírica que persistiu e se reinventou ao longo das décadas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Isabel Câmara não estão amplamente disponíveis nas fontes biográficas literárias acessíveis. Como muitos escritores, é possível que a sua vivência pessoal tenha influenciado a sua escrita, mas os contornos dessa influência permanecem em grande parte desconhecidos do público geral.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A receção da obra de Isabel Câmara pode ter sido mais restrita a círculos literários específicos ou a antologias. Sem grandes marcos de reconhecimento institucional ou prémios de grande visibilidade, a sua obra pode ter tido um reconhecimento mais discreto, mas não menos valioso, entre os seus leitores e críticos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que Isabel Câmara tenha sido influenciada por poetas da tradição lírica portuguesa e por correntes literárias do século XX. O seu legado reside na sua contribuição para a diversidade da poesia portuguesa, com uma obra que, embora possa não ter alcançado grande fama, oferece uma perspetiva única e sensível sobre temas universais.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A análise crítica da obra de Isabel Câmara focaria provavelmente na sua capacidade de capturar a beleza no quotidiano, a profundidade das suas reflexões sobre o tempo e a memória, e a subtileza da sua expressão poética. A sua poesia convida a uma leitura atenta e contemplativa.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Dado o acesso limitado a informações biográficas detalhadas, as curiosidades e os aspetos menos conhecidos da sua vida e obra permanecem em grande parte por desvendar. É possível que existam manuscritos, correspondência ou publicações menos acessíveis que revelem mais sobre a sua trajetória.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias e a data da morte de Isabel Câmara não são amplamente divulgadas. A sua memória perdura através dos seus escritos, que continuam a ser um testemunho da sua sensibilidade poética e da sua visão do mundo.