Como se te perdesse
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Identificação e contexto básico
Hilda Hilst, nascida Hilda Míriam Gonçalves Hilst, foi uma escritora brasileira de renome, conhecida pela sua obra multifacetada que abrange poesia, ficção e teatro. Figura ímpar na literatura brasileira, a sua escrita é reconhecida pela ousadia temática e pela experimentação formal. Escreveu em língua portuguesa.Infância e formação
Nascida em Jaú, no interior de São Paulo, Hilda Hilst teve uma infância marcada por uma saúde frágil e por uma educação que lhe proporcionou contato com a música e a literatura. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), mas logo se dedicou integralmente à carreira literária. A sua formação intelectual foi amplamente autodidata, com uma vasta cultura literária e filosófica.Percurso literário
O percurso literário de Hilda Hilst começou na poesia, com a publicação de "Outros Cantos" em 1961. Ao longo das décadas seguintes, expandiu o seu leque de gêneros, explorando o romance, o conto e o teatro. Sua obra é marcada por uma constante busca por novas formas de expressão, desafiando convenções e explorando os limites da linguagem. Publicou em diversas revistas literárias e antologias, consolidando sua posição como uma das vozes mais originais de sua geração.Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias A obra de Hilda Hilst é complexa e densa, caracterizada pela exploração de temas como a sexualidade, o desejo, a solidão, a morte, a religiosidade, a loucura e a busca pelo transcendente. A sua linguagem é marcada pela intensidade, pelo lirismo visceral, pela fusão do sagrado e do profano, do erótico e do místico. Utiliza recursos como a metalinguagem, a fragmentação, a repetição e um vocabulário rico e por vezes inusitado. O verso livre é predominante na sua poesia, e na prosa, experimenta com estruturas narrativas não lineares. O "Balada da Praia dos Cães" e "Da Morte. O Roteiro" são exemplos de sua prosa que mescla ficção, ensaio e lirismo. É frequentemente associada a uma estética que flerta com o existencialismo e o surrealismo, mas com uma identidade muito própria.Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico Hilda Hilst produziu sua obra num período de grandes transformações no Brasil, incluindo a ditadura militar. Sua postura transgressora e a ousadia de sua escrita a colocaram, por vezes, em contraponto com a sociedade e a crítica mais conservadora. Pertenceu a uma geração de escritores que buscavam renovar a literatura brasileira, dialogando com as vanguardas internacionais e explorando novas temáticas e formas.Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal Hilda Hilst viveu intensamente, embora sua vida pessoal tenha sido marcada por períodos de reclusão voluntária, especialmente em sua casa em Itu, onde fundou a Casa de Cultura Hilda Hilst. Suas relações afetivas e familiares, assim como suas crises pessoais, frequentemente transparecem na intensidade de sua obra. Manteve amizades com outros escritores e artistas, mas sua singularidade a fez, por vezes, solitária em seu percurso criativo.Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção Embora em vida tenha enfrentado dificuldades de reconhecimento e publicação, Hilda Hilst é hoje amplamente considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Sua obra tem recebido crescente atenção crítica e acadêmica, sendo objeto de teses, livros e artigos. Ganhou diversos prêmios literários ao longo de sua carreira e sua obra é traduzida para várias línguas, indicando um reconhecimento internacional cada vez maior.Obra, estilo e características literárias
Influências e legado Hilst foi influenciada por poetas como Fernando Pessoa, Cecília Meireles e por pensadores como Jean-Paul Sartre. Seu legado é imenso, marcado pela coragem de explorar os recantos mais profundos da alma humana, pela ousadia formal e pela capacidade de criar uma linguagem poética inconfundível. Influenciou gerações de escritores pela sua originalidade e pela sua liberdade criativa.Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica A obra de Hilda Hilst tem sido interpretada sob diversas óticas, destacando-se a análise da sua exploração da relação entre corpo e espírito, do sagrado e do erótico, e da condição humana em sua busca por sentido. A sua escrita é vista como um testemunho da complexidade da existência, marcada pela angústia, pelo desejo e pela transcendência.Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é o fato de ter se formado em Direito, embora nunca tenha exercido a profissão, preferindo dedicar-se inteiramente à literatura. Sua "casa-atelier" em Itu tornou-se um símbolo de sua reclusão criativa e um espaço dedicado à cultura. Sua obra "Da Morte. O Roteiro" foi escrita em um período de intensa crise pessoal.Obra, estilo e características literárias
Morte e memória Hilda Hilst faleceu em 2004, em São Paulo, deixando um legado literário inestimável. Sua obra continua a ser estudada, editada e a inspirar novos leitores e escritores, perpetuando sua memória como uma das vozes mais potentes e originais da literatura em língua portuguesa.Poemas
33Araras versáteis
Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
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Aquele outro não via
Aquele Outro não via minha muita amplidão
Nada LHE bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)
Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma Fome irada e obsessiva?
Nada LHE bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)
Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma Fome irada e obsessiva?
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E por que haverias de querer
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
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