Lista de Poemas
Essa que eu Hei de Amar…
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.
E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,
quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…
E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"
Esta Vida
Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.
Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida
Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.
Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!
Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.
Infância
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
Publicado no livro Poesia Vária (1947). Poema integrante da série II. Parte: Os Meus Haikais.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Os Andaimes
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.
Publicado no livro Poesia Vária (1925). Poema integrante da série II. Parte: Os Meus Haikais.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Canção do Expedicionário
Venho do morro, do engenho,
das selvas, dos cafezais,
da choupana onde um é pouco,
dois é bom, três é demais.
Venho das praias sedosas,
das montanhas alterosas,
do pampa, do seringal,
das margens crespas dos rios,
dos verdes mares bravios,
de minha terra natal.
Por mais terras que eu percorra,
não permita Deus que eu morra
sem que eu volte para lá
sem que leve por divisa
esse "V" que simboliza
a vitória que virá:
Nossa Vitória final,
que é a mira do meu fuzil,
a ração do meu bornal,
a água do meu cantil,
as asas do meu ideal,
a glória do meu Brasil!
Eu venho da minha terra,
da casa branca da serra
e do luar do sertão;
venho da minha Maria
cujo nome principia
na palma da minha mão.
Braços mornos de Moema,
lábios de mel de Iracema
estendidos para mim!
Ó minha terra querida
da Senhora Aparecida
e do Senhor do Bonfim!
Você sabe de onde eu venho?
É de uma pátria que eu tenho
no bojo do meu violão;
que de viver em meu peito
foi até tomando um jeito
de um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreiro
meu limão meu limoeiro,
meu pé de jacarandá,
minha casa pequenina
lá no alto da colina
onde canta o sabiá.
Venho de além desse monte
que ainda azula no horizonte,
onde o nosso amor nasceu;
do rancho que tinha ao lado
um coqueiro que, coitado,
de saudade já morreu.
Venho do verde mais belo,
do mais dourado amarelo,
do azul mais cheio de luz,
cheio de estrelas prateadas
que se ajoelham, deslumbradas,
(1890-1969)
Indiferença
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.
Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado
Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.
Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!
Haicai
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
Cigarra
Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.
Nós
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.
E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
- "Que é feito dela?" - indagarão - coitados!
E os amigos dirão: - "Que é feito dela?"
Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;
irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!
Branca de Neve
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.
Amei-te... E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada...
E és o primeiro sonho que sonhei.
Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!
Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação...
Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.
E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.
E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.
Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.
É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr...
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
O Idílio Suave
e és tão ansiosamente esperada, que enfim,
nem te sentindo o passo e já te tendo inteira,
completamente em mim,
quando, toda Watteau, silenciosa, apareces,
é como se não viesses.
Vens... E ficas tão perto
de mim, e tão diluída em minha solidão,
que eu me sinto sozinho e acho imenso e deserto
e vazio o salão...
E, sem te ouvir nem ver, arde-me em febre a face,
como se eu te esperasse!
Partes. Mas é tão pouco
o que de ti se vai que ainda te vejo o arfar
do seio, e o teu cabelo, e o teu vestido louco,
e a carícia do olhar,
e a tua boca em flor a dizer-me doidices,
como se não partisses!
Comentários (2)
Guilherme de Almeida
Guilherme de Almeida
GUILHERME DE ALMEIDA | Pioneiro na crítica de cinema no Brasil
Venha saber mais sobre o escritor Guilherme de Almeida no Artefato!
Aula 47 - Guilherme de Almeida
Indiferença | Poema de Guilherme de Almeida com narração de Mundo Dos Poemas
Barcos De Papel | Poema de Guilherme de Almeida com narração de Mundo Dos Poemas
Guilherme De Almeida
Casa Guilherme de Almeida, um mergulho na história do Brasil
A uma passante (Charles Baudelaire — na tradução de Guilherme de Almeida)
Murilo Cleto - Um Tributo a Wilson Batista (Espetáculo Completo)
ARTE E MITO: A HISTÓRIA PELOS SÍMBOLOS | com Guilherme Almeida
Coração | Poema de Guilherme de Almeida com narração de Mundo Dos Poemas
GUILHERME DE ALMEIDA | Escritores da Semana de Arte de 22
Essa Que Eu Hei De Amar | Poema de Guilherme de Almeida com narração de Mundo Dos Poemas
Esta Vida de Guilherme de Almeida por José Márcio Castro Alves
Entrega do Prêmio Colar Guilherme de Almeida | 26/06/2023
Felicidade | Poema de Guilherme de Almeida com narração de Mundo Dos Poemas
Prêmio Colar Guilherme de Almeida é entregue em Sessão Solene
DR. GUILHERME ALMEIDA - De Cara Com a BRABA PODCAST - #14
CREDO Guilherme de Almeida Narrado por César Ladeira
Guilherme de Almeida - Imagens e Livros
Guilherme de Almeida - Ecopista
Guilherme de Almeida Prado na Unibes Cultural
Charles Baudelaire - O albatroz - trad. de Guilherme de Almeida
Você Sabia ? Guilherme de Almeida
Momento Jornada Cultural - AFPESP: Casa Guilherme de Almeida
As Três Coroas - Jose Marcio declama Guilherme de Almeida
Guilherme de Almeida by José Márcio Castro Alves
As Três Coroas, de Guilherme de Almeida.
Entrega prêmio Colar Guilherme de Almeida 2023
Visita as Casas de Mario de Andrade e Guilherme de Almeida
Maurício de Souza se emociona ao receber o "Colar Guilherme de Almeida"
Festa Junina 2023 5a / Guilherme De Almeida
Sandra Cristina Peripato - Amor, Felicidade (Guilherme de Almeida)
Entrega prêmio Colar Guilherme de Almeida 2023 parte 2
Casa Guilherme de Almeida abre processo seletivo para o programa Cinematographos
COLETIVO AUTISTA DA UNICAMP: GUILHERME DE ALMEIDA CRIOU O COLETIVO PARA INCLUSÃO DE ADULTOS AUTISTAS
Réminiscences d’une étoile Occise - Guilherme de Almeida
Rendimentos de fundos imobiliários no mês de Junho! #primeiromilhão
Casa Guilherme de Almeida conta com obras originais de Cecília Meireles
Tudo sobre o imposto de renda 2022, como declarar passo a passo, onde declarar, quem deve declarar?
Sandra Cristina Peripato - Essa que Eu Hei de Amar (Guilherme de Almeida)
Sandra Cristina Peripato - Prece a Anchieta (Guilherme de Almeida)
Guilherme de Almeida e Revolução Constitucionalista
Defesa de Doutorado- Guilherme de Almeida Garcia Rodrigues
ISSO É GRAVÍSSIMO NO FLAMENGO E JOÃO GUILHERME JOGOU MERD4 NO VENTILADOR E ALOPROU!
Linda Cobertura na Guilherme de Almeida - Recreio dos Bandeirantes
IV Instantes Guilherme de Almeida
Homenageados no Prêmio Guilherme de Almeida
Casa do poeta Guilherme de Almeida, no Sumaré
Poemas modernistas: Guilherme de Almeida
Português
English
Español