Lista de Poemas

IV

(...)

E nessas cidades, vilas e aldeias, nos seus cais,
praças e chafarizes — vi somente — escravos!

E à porta ou no interior dessas casas mal construídas
e nesses palácios sem elegância — escravos!

E no adro ou debaixo das naves dos templos — de
costas para as imagens sagradas, sem temor, como
sem respeito — escravos!

E nas jangadas mal tecidas — e nas canoas de um
só toro de madeira — escravos; — e por toda a parte
— escravos!!...

Por isto o estrangeiro que chega a algum porto do
vasto império — consulta de novo a sua derrota e
observa atentamente os astros — porque julga que
um vento inimigo o levou às costas d'África.

E conhece por fim que está no Brasil — na terra
da liberdade, na terra ataviada de primores e esclarecida
por um céu estrelado e magnífico!

Mas grande parte da sua população é escrava —
mas a sua riqueza consiste nos escravos — mas o
sorriso — o deleite do seu comerciante — do seu
agrícola — e o alimento de todos os seus habitantes
é comprado à custa do sangue do escravo!

E nos lábios do estrangeiro, que aporta ao Brasil,
desponta um sorriso irônico e despeitoso — e ele diz
consigo, que a terra — da escravidão — não pode
durar muito; porque ele é crente, e sabe que os
homens são feitos do mesmo barro — sujeitos às
mesmas dores e às mesmas necessidades.


Poema integrante da série Capítulo I.

In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.10-1
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IV

(...)

Uma voz sonora e retumbante partiu do Ipiranga
e foi do mar aos Andes e do Prata às margens do
Amazonas.

E todos se ergueram violenta e instantaneamente
como um cadáver por virtude do galvanismo.

E soltaram o mesmo brado com voz entusiasta e
forte, e travaram das armas com a impavidez do guerreiro
e com a esperança do homem que pugna em favor da justiça.

E a corrente que prendia um Império a outro Império,
fraca com o seu comprimento, estalou violentamente
em mil pedaços.

E os dois Impérios soltaram dois gritos simultâneos;
— era de um lado o despeito do caçador que
vê fugir-lhe a presa, e do outro o contentamento da
águia quando pela primeira vez ousa fitar a luz do
sol e a balançar-se nos campos incomensuráveis do
espaço.

E os homens, que eram livres, regozijavam-se com
a vitória do povo emancipado, e os que eram tiranizados
afiavam com mais ardor a espada da liberdade
nas escadas dos potentes.

(...)


Poema integrante da série Capítulo III.

In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.62-6
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Comentários (4)

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Lucri
Lucri
2026-02-11

O melhor!

Dolores Martins
Dolores Martins
2024-08-18

Amo! Lindo!

Moisés
Moisés
2023-12-23

A diferença é que Gonçalves Dias era um poeta de verdade: amava a beleza e a natureza e cantava sobre ela. A preocupação dele não era dinheiro ou fama. Se voce so se preocupa com fama e dinheiro, nunca ira ser lembrado ou chegara aos pes de Gonçalves Dias. Camões, o maior poeta da nossa língua já pediu até esmola, Cruz e Sousa viveu uma vida miserável e tendo seu cadáver numa carroça de estrume, Fernando Pessoa não ganhou um único centavo com a poesia, eles escreviam para a eternidade. Já dizia Goethe: " nasce o que brilha apenas para o já, para o porvir, o que é real viverá!"<br />

2014-08-12

Era um homem apaixonado certamente! E que me faz apaixonar em cada poesia!