Escritas

Lista de Poemas

SÃO ASSIM OS TÚMULOS

São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio,
com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura.

E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas,
a cabeça baixa, a fonte dos lamentos –
acompanha as horas pétreas dos que jazem.

Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se embora
para que cada qual possa viver
a sua própria morte.

São assim os túmulos.
E das sombras da noite, com um sorriso mau,
eis que a velha aparece.

Juntando os dedos, ela apaga a chama
e recolhe as flores para seu amante.
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VI

O jardim com suas fontes na chuva
verás somente da janela baixa
de trás da vidraça embaçada. Teu quarto
será iluminado apenas pela chama da lareira
e por vezes, nos relâmpagos distantes aparecerão
as rugas de tua fronte, meu velho Amigo.

O jardim com as fontes que eram em tua mão
o ritmo de outra vida, fora dos mármores
quebrados e das colunas trágicas
e uma dança em meio aos oleandros
próximo às novas pedreiras,
um vidro opaco o terá cortado de tuas horas.
Não respirarás; a terra e a seiva das árvores
rebentarão da tua memória para bater
nessa vidraça onde bate a chuva
do mundo lá fora.
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X

Nossa terra é cerrada, só montanhas
quem tem o céu baixo como teto dia e noite.
Não temos rios não temos poços não temos fontes,
apenas poucas cisternas, também vazias, que ecoam e que
adoramos.
Som estagnado oco, idêntico a nossa solidão
idêntico ao nosso amor, idêntico aos nossos corpos.
Parece-nos estranho que outrora pudéssemos construir
nossas casas, cabanas e currais.
E nossas bodas, as frescas grinaldas e os anéis
tornam-se enigmas inexplicáveis para nossa alma.
Como nasceram, como criaram-se nossos filhos?

Nossa terra é cerrada, Encerram-na
as duas Simplégades negras. Nos portos
quando descemos para respirar ao Domingo
vemos iluminarem-se no pôr-do-sol
madeiras quebradas de viagens que não terminaram
corpos que não sabem mais como amar.
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De Solstício de verão - VIII

Duro espelho o papel em branco
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
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Comentários

Já escurecera na sacada
junto a nós uma urgência esvoaçava
nos dois corações, bem aninhada,
uma confissão correspondida.

Vã, murchou a voz. Enxame de erros
nossos lábios, e nas profundezas
do corpo, Deus, só estava acesa
nossa espera da benção pedida.

Dentro da casa os sonhos zumbiam
e da luz da tarde até o ímã
dos cabelos teus, tudo trazia
à memória o anjo inalcançável
de para com os anéis subitâneos
de chofre caídos, dos abanos
no pensamento que, o mesmo orando,
líamos, evangelho inefável.

Mulher que na minha alma te hospedas
tua surpresa é o que me resta
formosa mulher amada, nesta
tarde que absurdamente definha,
e os teus olhos de círculos negros
e a noite e seu calafrio ligeiro…

Quimera, espada do meu silêncio,
curva-te e entra outra vez na bainha.
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EXISTE

Existe, pelos deuses cruéis predestinada,
uma dor universal,
e cada um de nós dela pega a sua parte,
quanto aguente levar.

Julgamos insensatos
os que, carregando pressurosamente nos ombros
mais do que podiam carregar,
aliviam assim a carga comum:
os heróis, os mártires, os criminosos.

Rogo-lhes que nos perdoem.
Recordamos.
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VIII

Mas que procuram nossas almas viajando
sobre conveses de navios arrasados
espremidas com mulheres amarelas e bebês que choram
sem poder distrair-se nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas que os mastros apontam.
Gastas pelos discos dos fonógrafos
amarradas involuntariamente a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas
estrangeiras.

Mas que procura nossas almas viajando
nesses cascos podres
de porto em porto?

Movendo pedras quebradas, respirando
com mais dificuldade a cada dia o frescor do pinheiro,
nadando nas águas desse mar
e daquele mar,
sem tato
sem homens
em uma pátria que não é mais nossa
nem vossa.

Sabíamos que eram belas as ilhas
em algum lugar aqui perto que tateamos

um pouco mais baixo ou um pouco mais alto
um ínfimo espaço.
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XXI

Nós que partimos para essa peregrinação
olhamos as estátuas quebradas
esquecemo-nos e falamos que a vida não se assim tão
fácil
que a morte tem caminhos inexplorados
e uma justiça própria,

que quando em pé nós morremos
dentro da pedra irmanados
unidos com a dureza e a fraqueza,
os velhos mortos fugiram do círculo e ressuscitaram
e sorriem em meio a uma estranha calma.
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De Esboços para um verão

A cada manhã me lembra a água morna
que não tenho junto a mim nada mais vivo.
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