Escritas

Lista de Poemas

Maranguape

Maranguape, verde - serra
Com debruns névoa-algodão
És assim, oh minha terra
Aos olhos do coração

Quando chove aqui no Rio
E há vento solto soprando
Em mim uma saudade-frio
Vai de ti me aproximando

E o pensar, que é passarinho
Mais ligeiro que avião
Bate asas, toma o caminho
Que lhe indica o coração

Cidade tem vida, sim
Vida igualzinha à da gente
Nasce, morre, tem um fim
Tem até alma que sente

E por isso é relembrada
De maneira tão constante
E pode ser relembrada
Do bem perto ou do distante

👁️ 3 555

Entardecer da vida

Minha vida entardece, de repente
Sinto o peso dos anos. Na verdade
Revivo o meu passado no presente
Surpreso me pergunto: isso é da idade?

Meu íntimo responde: é, tens razão
Ao passo que se vive não se esquece
O que já foi vivido. A emoção,
O riso, o sonho, o gargalhar, a prece

Os bons e maus momentos tecem a vida
Todos eles na alma têm guarida
Onde dormitam pelo tempo afora

E de repente, então, meu caro amigo
O que no imo procurou abrigo
À saudade, desperta, como agora.

👁️ 879

P a s s a r e d o

Sabiá – canto dolente
À tarde a mata varando
Na alma de muita gente
Vais a saudade acordando

Vi um galo-de-campina
Seu colorido esbanjando
E as penas, à chuva fina
Um arco-íris formando

Um beija-flor cortejando
Uma rosa – vida em cor
Ao beijá-la vai doando
Pequenas doses de amor

Tico-tico pequenino
De galho em galho saltando
Qual um menino traquino
Vives a vida brincando

Rolinha fogo-pagou
O teu canto, na verdade,
É a voz de quem amou
Curtindo a dor da saudade

👁️ 1 008

Biête do sertão

Zé, meu fi, esse biête
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.

As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim

As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.

E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.

E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração

Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.

Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.

Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração

👁️ 899

Noite de São João

A festa qui nóis fizemo
No convite já dissemo
Mas car ece ispilicá
É pra mode arrelembrá
Do São João que se passou

São João das fogueira grande
Das labareda bunita
Que assubia lá pra riba
Lambendo a cara da noite
Levando junto com ela
O grito das meninada
Os papouco dos foguete
As reza da gente grande
O gargaiá da moçada

São João das bacia dágua
Friinha de fazê gosto
Pra gente oiá bem no fundo
E percurá pela cara
Quando a cara aparecia
Meu Deus, qui sastifação!
A criatura vivia
Inté o outro São João

Mais porém quando essa água
A cara do ente escondia
Valei-me, Virge Maria
Mal sinal, assombração
Pro mode qui a morte vinha
Dizia os véi, os antigo
Com a sua foice bem grande
Antes do outro São João

São João das comida boa
Faz minha boca miná
Cangica, pé-de-moleque
Pamonha, mi, aluá
São João das bomba estourando
Dos busca-pé percurando
Muié mode aperreá
Dos coió e das rodinha
Dos traque, das estrelinha
Quaje sem luz, pobrezinha
Num briava, mais porém
Infeitiçava o oiá

Afiado, afiada
Padrim, madrinha também
Dando volta na fogueira
Com as mão bem agrudada
Dando nó nas amizade
Arrochando os parafuso
Dos amô, das afeição.
São João qui taqui guardado
No meu véio coração
Coração já mei cansado
Mas quinda bate avexado
Toda vez que o calendaro
Me amostra na sua fôia
Que é noite de São João

👁️ 939

Primeiro soneto aos invernos de outrora

Os invernos de outrora não esqueço
Preciosos guardados da lembrança
Revê-los, quem me dera, a qualquer preço
Mas somente a saudade hoje os alcança

Meu rio, o Pirapora, transbordava
O céu era de um cinza carregado
O trovão noite a dentro ribombava
E o coração do povo era aguado

Quando uma chuva visitava a noite
O vento solto semelhava açoite
Ainda hoje escuto-lhe o silvar

Quando relembro esse passado agora
O homem, bem baixinho, vezes chora
E diz que ao menino quer voltar

👁️ 722

Terceiro soneto aos invernos de outrora

Caminho que se perde no distante
Passado que eu supus haver morrido
Mas que surge, eu o sinto nesse instante
Dos pingos dessa chuva ressurgido

Cantar de chuva me comove, sim
Porque mergulha nalma sem demora
É cantiga - saudade, não tem fim
É sempre um despertar do meu outrora

Eu te bendigo, chuva boa, amiga
Minha emoção me roga que te diga
Um presente trouxeste – o meu passado

E ao te sentir de leve o abrandar
Vejo o HOJE de mim se aproximar
E do meu lume o sonho é apagado

👁️ 833

Brincando de criança

Mergulhar no passado de mansinho
É tarefa que cumpro a cada instante
Detendo-me da existência no caminho
Alço vôo e então pouso no distante

Quem me leva de volta é a saudade
Que vive no meu peito se aninhando
No entardecer da vida quem não-há-de
Viver sempre o seu ontem namorando

Namoro-o, sim, e é o pensamento
Que tudo alcança dentro de um momento
De tão ardente amor a viva chama

Apagá-la? Jamais! Pois, na verdade,
De criança brincar, fugir à idade
É algo que a velhice sempre ama.

👁️ 755

Beijo injeitado

Cabôca, si tu subesse
O tamãin do meu amô
Tu nunca mais rifugava
Meus beijo, minha fulô

Tu sabe donde eles vem?
Num duvida de eu não!
Vem dum cantim resguardado
Todo de seda forrado
No fundo do coração

E feito pomba-de-bando
Eles de lá vão fugindo
E no sangue margúiando
Devagarim vão subindo.

Pelo sangue trafegando
Me dando febre e tremô
Sem avexame si pranta
Nos beiço-ôi dágua de amô

Mas quando eles se arrelia
Mode tua boca incontrá
Valei-me, Vige Maria!
Tu inventa de rejeitá

Tem dó de eu, meu pecado
Adocica meu sofrê
Vivo cos peito arroxado
De tanto beijo injeitado
É grande o meu padecê

Si hoje tu dé um não
Com a verdade machucado
Me imbrenho por esses mato
À moda boi desgarrado
Mas levo no coração
Cum afeto, cum devoção
Qual jóia de estimação
Todo esses beijo injeitado.

👁️ 929

A morte do escorrego

Do Escorrego a bica se finou
Como cantava! Agora emudeceu
Foi o homem, bem sei, que a magoou
Insensível e forte, ele a venceu

Perdida a sombra leve do arvoredo
Os pássaros, tristonhos, debandaram
A secura e o sol lhes deram medo
Bateram asas, longe, além, pousaram

Do bambusal se foi o sombrear
Da água não ouço o forte marulhar
Na paisagem há dor, há solidão

Na serra amiga os olhos meus pousando
Antevejo-lhe o verde estertorando
A implorar a nossa proteção

👁️ 927

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment

NoComments