Maranguape
Maranguape, verde - serra
Com debruns névoa-algodão
És assim, oh minha terra
Aos olhos do coração
Quando chove aqui no Rio
E há vento solto soprando
Em mim uma saudade-frio
Vai de ti me aproximando
E o pensar, que é passarinho
Mais ligeiro que avião
Bate asas, toma o caminho
Que lhe indica o coração
Cidade tem vida, sim
Vida igualzinha à da gente
Nasce, morre, tem um fim
Tem até alma que sente
E por isso é relembrada
De maneira tão constante
E pode ser relembrada
Do bem perto ou do distante
P a s s a r e d o
Sabiá – canto dolente
À tarde a mata varando
Na alma de muita gente
Vais a saudade acordando
Vi um galo-de-campina
Seu colorido esbanjando
E as penas, à chuva fina
Um arco-íris formando
Um beija-flor cortejando
Uma rosa – vida em cor
Ao beijá-la vai doando
Pequenas doses de amor
Tico-tico pequenino
De galho em galho saltando
Qual um menino traquino
Vives a vida brincando
Rolinha fogo-pagou
O teu canto, na verdade,
É a voz de quem amou
Curtindo a dor da saudade
Entardecer da vida
Minha vida entardece, de repente
Sinto o peso dos anos. Na verdade
Revivo o meu passado no presente
Surpreso me pergunto: isso é da idade?
Meu íntimo responde: é, tens razão
Ao passo que se vive não se esquece
O que já foi vivido. A emoção,
O riso, o sonho, o gargalhar, a prece
Os bons e maus momentos tecem a vida
Todos eles na alma têm guarida
Onde dormitam pelo tempo afora
E de repente, então, meu caro amigo
O que no imo procurou abrigo
À saudade, desperta, como agora.
Inspiração
Caro tio, teu verso está em mim
Sinto-o a cada momento, quando escrevo
No princípio, no meio, até no fim
Do meu poema inspiração te devo
Adolescente, bem me lembro ainda
Eu te escutava cheio de emoção
Alguns sonetos teus – saudade infinda!
São patrimônio de meu coração
Sem rebusques, rimavas facilmente
Teu verso, que cantava, e era fluente
Trazia a marca da simplicidade
E hoje, ao recitar-se para alguém
A emoção juntar-se à fala vem
E os meus olhos marejam de saudade
Canção da esperança
Céu de cinza, meu imo se penumbra
A chuva cai, minhalma lacrimeja
O bem perto tem ares do bem longe
Meu pensamento, célere, voeja
Retalhos de lembranças vou juntado
Pedaços de conversa reunindo
E HOJE, bem desperto, acorda o ONTEM
Que dentro de meu ser vive dormindo
O afago ao distante em mim renasce
Na mudez infinita, mas presente
Dos olhos, num ligeiro garoar
Chuva, não chova! Pare! Vá embora!
E no longe, onde tudo é seco agora
A canção da esperança vá cantar
Morte ao amanhecer
Na quieta e calada madrugada
Morrem as vozes, nascem os sussurros
Há um respirar, é tardo, é ofegante
Sopro débil de vida que se apaga
Junto ao leito a família reunida
Partilha a mágoa que enluta corações
Ninguém se comunica por palavras
Olhar e gesto casam no silêncio
Um pássaro se alegra, o dia nasce
E o claro sol que lhe assoma à face
Penetra, vivo, o quarto do doente
E o astro sua lida iniciando
Derrama luz no olhar do moribundo
O ocaso de uma vida alumiando
Dé e a bruxa
Tinha uma boneca rota, esfarrapada
A que com os dedos imprimia vida
Dava riso de graça à meninada
E tornou-se pessoa mui querida
No fundo de minhalma está guardada
A lembrança dos dois, que é incontida
Vejo a boneca, cara amarfanhada
Junto ao peito do dono, adormecida
O tempo – vil ladrão – tudo nos leva
Deixa, contudo, nalma de reserva
Algo que à infância roubou o coração
Dé e a bruxa, mortos, eu contemplo
Sem esquecer jamais o seu exemplo
Trazer com um trapo alegria à solidão
A morte do escorrego
Do Escorrego a bica se finou
Como cantava! Agora emudeceu
Foi o homem, bem sei, que a magoou
Insensível e forte, ele a venceu
Perdida a sombra leve do arvoredo
Os pássaros, tristonhos, debandaram
A secura e o sol lhes deram medo
Bateram asas, longe, além, pousaram
Do bambusal se foi o sombrear
Da água não ouço o forte marulhar
Na paisagem há dor, há solidão
Na serra amiga os olhos meus pousando
Antevejo-lhe o verde estertorando
A implorar a nossa proteção
Resposta difícil
Avô e neto, amor nos olhos, vi
Pelas ruas alegres da cidade
Os extremos da vida se tocavam
Coração novo e velho ambos pulsavam
O pulsar doce da felicidade.
Defronte a uma vitrine os dois pararam
E os olhos do garoto namoraram
Um namoro gosto e demorado
Com uma bola vestida der listrado
Que derramava cor na exposição.
E olhos buliçosos, o Netuno
Fitando o olhar baço do velhinho
Voz aflita lhe fez esse pedido:
Compre essa bola, meu avô, pra mim
Olhe pra ela, não é bonitinha ?
Procure aí um dinheiro no seu bolso
Pergunte o preço, depressa, àquele moço
Eu me amarro, vovô, em futebol.
E o velho, que era rico de pobreza
Mas do metal que compra muito pobre
Só tinha de abastança o coração
E a alma, sem tamanho, pura e nobre.
Perdeu, então, a fala de repente
Procurou-a. Inútil seu intento
Só encontrou pra responder ao neto
Um orvalhar de olhos bem discreto
E a fala muda de seu pensamento
A n i v e r s á r i o
Um ano a mais tens hoje, caro filho
Um instante na vida – longa estrada
Dos teus olhos relembro o vivo brilho
No alvorecer de tua caminhada
Àquele tempo quando articulavas
Os vocábulos que aos poucos aprendias
E com teu riso infância os libertavas
O amor interpretava o que dizias
Homem, guardas, contudo, da criança
Algo que às vezes ao adulto cansa
Ser sincero, leal e bom amigo
Que ao longo do caminho a percorrer
A flor do bem não deixes perecer
Ao sol da vida; rega-a, dá-lhe abrigo