Lista de Poemas

O INFINITO

Sempre cara me foi esta erma altura
Com esta sebe que por tanta parte
Do último horizonte a visão exclui.
Sentado aqui, e olhando, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios, e profunda quietude,
Eu no pensar evoco; onde por pouco
O coração não treme. E como o vento
Ouço gemer nas ervas, eu àquele
Infinito silêncio esta voz
Vou comparando: e sobrevem-me o eterno,
E as idades já mortas, e a presente
E viva, e seu ruído... Assim, por esta
Imensidade a minha ideia desce:
E o naufragar me é doce neste mar.

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XXXVII - Ouve, Melisso

ALCETA
Ouve, Melisso: vou contar-te um sonho
Desta noite que me retorna à mente
Ao remirar a lua. Eu estava
À janela voltada para o prado,
Olhando o alto: e eis que de repente
A lua se destaca; e pareceu-me
Que quanto mais se aproximava caindo,
Mais crescesse ao olhar; até que veio
A dar um golpe em meio ao prado; e era
Grande que nem um balde, e de centelhas
Vomitava uma névoa, estrilando
Tão forte como quando um carvão vivo
Entra na água e se apaga. Desse modo
A lua, como disse, em meio ao prado
Se apagava embaçando pouco a pouco,
E os relvados queimavam ao redor.
Então mirando o céu vi que restava
Como um lampejo ou rastro, como um nicho,
O ponto abandonado; de tal sorte
Que fiquei frio por dentro; e ainda temo.
MELISSO
E bem deves temer, que coisa fácil
Foi a lua cair em teu relvado.
ALCETA
Será? Não vemos amiúde estrelas
Caindo no verão?
MELISSO
Há tantos astros,
Que pouco dano é cair um ou outro
Deles, e mil restarem. Mas sozinha
Está no céu a lua, que ninguém
Nunca avistou cair senão em sonho.
(O assombro noturno, Recanati, 1819)
:
XXXVII - "ODI, MELISSO"
ALCETA
Odi, Melisso: io vo' contarti un sogno
Di questa notte, che mi torna a mente
In riveder la luna. Io me ne stava
Alla finestra che risponde al prato,
Guardando in alto: ed ecco all'improvviso
Distaccasi la luna; e mi parea
Che quanto nel cader s'approssimava,
Tanto crescesse al guardo; infin che venne
A dar di colpo in mezzo al prato; ed era
Grande quanto una secchia, e di scintille
Vomitava una nebbia, che stridea
Sì forte come quando un carbon vivo
Nell'acqua immergi e spegni. Anzi a quel modo
La luna, come ho detto, in mezzo al prato
Si spegneva annerando a poco a poco,
E ne fumavan l'erbe intorno intorno.
Allor mirando in ciel, vidi rimaso
Come un barlume, o un'orma, anzi una nicchia,
Ond'ella fosse svelta; in cotal guisa,
Ch'io n'agghiacciava; e ancor non m'assicuro.
MELISSO
E ben hai che temer, che agevol cosa
Fora cader la luna in sul tuo campo.
ALCETA
Chi sa? non veggiam noi spesso di state
Cader le stelle?
MELISSO
Egli ci ha tante stelle,
Che picciol danno è cader l'una o l'altra
Di loro, e mille rimaner. Ma sola
Ha questa luna in ciel, che da nessuno
Cader fu vista mai se non in sogno.
(Lo spavento notturno, Recanati, 1819)
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Infinito

Infinito
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.

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Identificação e contexto básico

Giacomo Leopardi foi um poeta, filósofo, filólogo e erudito italiano, amplamente considerado um dos maiores escritores da literatura italiana e uma figura proeminente do Romantismo. Nasceu em Recanati, nos Estados Papais, e faleceu em Nápoles. A sua obra é marcada por um pessimismo profundo e por uma reflexão existencial sobre a condição humana, a natureza e o sofrimento.

Infância e formação

Leopardi nasceu numa família aristocrática, mas decadente, em Recanati, numa época de grande efervescência intelectual e política na Europa. Desde cedo demonstrou uma inteligência prodigiosa e uma sede insaciável de conhecimento. Passou a sua infância e adolescência imerso nos estudos na vasta biblioteca do pai, adquirindo um conhecimento enciclopédico de línguas clássicas, literatura e filosofia. Essa formação autodidata, embora lhe permitisse dominar grego, latim, hebraico e outras línguas, também o isolou socialmente e contribuiu para a sua fragilidade física e mental.

Percurso literário

O percurso literário de Leopardi começou na juventude com a escrita de poemas e a tradução de obras clássicas. A sua obra poética, conhecida como "Canti", foi publicada em diversas edições ao longo da sua vida, refletindo a sua evolução artística e filosófica. Embora tenha tido poucas colaborações em revistas, a sua obra circulou e foi discutida em círculos intelectuais. A sua atividade como filólogo e editor de textos clássicos também foi fundamental para a sua formação e para a sua compreensão da antiguidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Leopardi é dominada por temas como a finitude da vida, a desilusão, a relação do homem com a natureza (vista como indiferente ou até hostil), a busca pela felicidade e a inevitabilidade do sofrimento. Os "Canti" abrangem diversas formas poéticas, incluindo o soneto e o verso livre, mas são notáveis pela sua musicalidade, intensidade lírica e profundidade filosófica. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem elevada, mas precisa, com um tom frequentemente melancólico e reflexivo. Leopardi é associado ao Romantismo, mas o seu pessimismo radical e a sua crítica à visão idealizada da natureza o distinguem de muitos contemporâneos. As suas "Operette morali" são diálogos filosóficos em prosa que exploram os mesmos temas existenciais com uma clareza e um rigor argumentativo notáveis.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Leopardi viveu num período de profundas transformações na Europa, marcado pelo Iluminismo tardio, o Romantismo e as convulsões políticas que culminariam nas revoluções do século XIX. Apesar do seu isolamento em Recanati, ele estava atento aos debates intelectuais e filosóficos da época, dialogando com pensadores como Rousseau e Kant, embora com uma perspetiva própria e frequentemente mais sombria. O seu pessimismo foi interpretado como uma resposta às promessas não cumpridas do progresso e da razão.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Leopardi foi marcada por uma saúde frágil, problemas de visão e uma profunda melancolia. A sua relação com a família, especialmente com o pai, o Conde Monaldo Leopardi, foi complexa. As suas tentativas de encontrar um sentido para a existência e a sua busca por afeto e reconhecimento foram temas recorrentes na sua obra. As suas correspondências revelam um homem sensível, erudito e atormentado pelas limitações da sua condição.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha tido um reconhecimento limitado em vida, o valor de Giacomo Leopardi como poeta e pensador foi gradualmente reconhecido após a sua morte. A sua poesia é hoje estudada e admirada em todo o mundo, e o seu pensamento filosófico continua a ser objeto de debate e análise. É considerado um dos pilares da literatura italiana.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Leopardi foi profundamente influenciado pelos clássicos gregos e latinos, bem como por pensadores iluministas e românticos. O seu legado reside na sua capacidade de expressar a angústia existencial humana com uma linguagem lírica de rara beleza e profundidade. Influenciou inúmeros poetas e escritores posteriores, tanto em Itália como no estrangeiro, e o seu pessimismo filosófico tornou-se um ponto de referência para a compreensão da condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Leopardi tem sido objeto de diversas interpretações, desde a visão de um poeta romântico melancólico até a de um filósofo ateu e materialista radical. As suas reflexões sobre a natureza, a ilusão e o sofrimento continuam a desafiar as conceções humanistas tradicionais, convidando a uma meditação profunda sobre os limites do conhecimento e da felicidade humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Leopardi era conhecido pelo seu humor negro e pela sua ironia cortante, que frequentemente transparecem nas suas "Operette morali". Apesar da sua fragilidade física, possuía uma mente incansável e uma memória prodigiosa. A sua correspondência revela detalhes íntimos sobre a sua rotina de estudo e sobre as suas relações interpessoais.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Giacomo Leopardi faleceu em Nápoles em 1837, vítima de edema pulmonar, provavelmente agravado pela sua saúde debilitada. A sua obra foi publicada postumamente em edições mais completas, consolidando o seu lugar como um dos maiores vultos da literatura e do pensamento ocidental.