Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

1540–1619 · viveu 79 anos PT PT

Frei Agostinho da Cruz foi um frade e poeta português do século XVII, uma figura proeminente do Barroco literário. A sua obra poética, marcada pela espiritualidade e pelo misticismo, reflete a profunda religiosidade da época e a tensão entre o terreno e o divino. Caracteriza-se pela linguagem culta, pela exploração de temas como o amor a Deus, a efemeridade da vida e a busca pela transcendência, muitas vezes através de formas poéticas tradicionais.

n. 1540-05-03, Ponte da Barca · m. 1619-05-14, Setúbal

10 818 Visualizações

§ Perdi-me dentro em mim

Perdi-me dentro em mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Contino contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.

Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.

E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vario movimento,

Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer a pesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.
Ler poema completo

Poemas

11

Da Oração

Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?

Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?
677

LIII Ó montes altos

Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;

Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.

Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;

Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.
596

II Os versos, que cantei importunado

Os versos, que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.

Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.

Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,

Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
576

XXIX Da emenda

Concluido me tendo a mi comigo
De deixar o caminho que levava,
Vendo com razões claras quanto errava
Em não me desviar do mais antigo.

Pois no trabalho seu, no mor perigo,
Meu amigo consigo a mi me achava;
E quando no meu mal algum buscava,
Achava-me comigo sem amigo.

Agora dei a volta por caminhos
De solitarios bosques enramados,
De feras bravas mansos passarinhos;

Que ainda que entre espinhos conversados,
Mais quero pé descalço entre espinhos,
Que dos homens humanos espinhados.
720

LI À morte

Os correos da morte são chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.

Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.

Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
731

elegia II

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
653

XLV Finis eiusque mali principium est futuri

Do fim de qualquer mal, que me persegue,
O principio de outro se me apega,
Porque quando um de mim se desapega,
Outro no mesmo instante se me apegue.

Assi do que se acaba outro se segue,
E àquele, que por vir está, me entrega,
E inda este não se vai, já outro chega,
Sem que para acabar-me nenhum chegue.

E pois, quando um acaba, outro começa,
De um só (se d’ambos não) fico forçado
A que de novo sempre me entristeça.

Já que tão mal me tenho aproveitado,
Que não faltando males, que padeça,
Na minha paciencia haja faltado.
630

§ Perdi-me dentro em mim

Perdi-me dentro em mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Contino contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.

Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.

E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vario movimento,

Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer a pesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.
662

LXIV Ao pecado original

Se sendo, meu Senhor, por vós formado
Adão, antes de ser o mal nascido,
Pecou, que fará quem foi concebido
Nas entranhas, que já tinham pecado?

Comer de um fruito só lhe foi vedado,
Tudo o mais a seu gosto concedido,
E por uma só vez haver caido,
Por muitas ser não posso levantado.

Tão fraca ficou minha natureza,
Que levantar não deixa o pensamento
Da terra, a que está atada e presa,

Tão imiga do meu merecimento,
Que se morder não pode na pureza,
Não deixa de ladrar um só momento.
711

LXI Ipse dixit et facta sunt

Se bastou só dizer para ser feito,
E mandar para ser tudo criado,
O que tambem a mim me está mandado,
Como não tem em mim o mesmo efeito?

E que seja maior este preceito
De ser Deos sobre tudo mais amado,
E que em mim só não seja efeituado,
Que tal deve de ser o meu defeito!

Dous extremos daqui fico notando,
Que confundem o meu entendimento
As causas dos efeitos discursando.

Não vejo quanto pode o mandamento
Noutro quão pouco em mim só fica obrando,
E de ambos falta em si o sentimento.
640

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.