Escritas

Lista de Poemas

Tomar coca-cola com você

é ainda mais divertido que ir a São Francisco, La Jolla, Tijuana, Tecate, Ensenada
ou ter o estômago revirado de enjoo na Madison Avenue em Nova Iorque
em parte porque nesta camisa laranja você me parece um São Francisco melhor mais feliz
em parte por causa do meu amor por você, em parte por causa do seu amor por vodca
em parte por causa das margaridas laranja fluorescente cercando os ipês
em parte por causa do mistério que nossos sorrisos vestem diante de gente e estatuária
é difícil de acreditar quando estou com você que pode haver algo tão imóvel
tão solene tão desagradavelmente definitivo quanto estatuária quando bem em frente
no ar quente das quatro da tarde em São Paulo nós vagamos em círculos num vai e vem como uma árvore respirando por suas oftálmicas

e a exposição de retratos parece não ter qualquer rosto, só tinta
você de repente pergunta-se por que diabos alguém deu-se ao trabalho de pintá-los
.................................................................................eu olho
você e preferiria olhar você a todos os retratos do planeta com exceção
talvez doAuto-Retrato com corrente de ouro de vez em quando que está no MASP
aonde graças aos céus você nunca foi então podemos ir juntos pela primeira vez
e o fato de que você se move tão lindo resolve mais ou menos o Futurismo
assim como em casa eu nunca penso noNu Descendo uma Escada ou
num ensaio nalgum desenho do Michelangelo ou Da Vinci que antes me deixava boquiaberto
e de que adianta aos Impressionistas toda a sua pesquisa
quando eles nunca conseguiam a pessoa certa para encostar-se à árvore ao pôr-do-sol
ou a propósito Marino Marini se ele não escolheu o cavaleiro com o mesmo cuidado
.................................................................................que o cavalo
é como se tivessem roubado deles uma experiência maravilhosa que eu não pretendo desperdiçar e é por isso que estou aqui falando tudo isso pra você


(contextualização de Ricardo Domeneck)
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Por que eu não sou pintor

Eu não sou pintor, sou poeta.
Por quê? Eu acho que preferiria ser
pintor, mas não sou. Bem,
por exemplo, Mike Goldberg
começa um quadro. Eu dou
uma passada. "Senta e bebe alguma coisa",
ele diz. Eu bebo; nós bebemos. Eu dou
uma olhada."Você pôs SARDINHAS neste."
"É, precisava de alguma coisa ali."
"Ah." Eu vou e os dias vão-se
e dou outra passada. O quadro
está indo, e eu vou, e os dias
vão-se. Dou uma passada. O quadro está
pronto. "Cadê SARDINHAS?"
Tudo o que sobrou são
letras, "Estava exagerado", diz Mike.
E eu? Um dia começo a pensar sobre
uma cor: laranja. Eu escrevo um verso
sobre laranja. Não demora a tornar-se
uma página inteira de palavras, não de versos.
Então, mais uma página. Deveria ter
tantas coisas mais, não de laranja, de
palavras, de como laranja é horrível,
e a vida. Dias vão-se. É assim mesmo
em prosa, eu sou poeta de verdade. Meu poema
está pronto e eu ainda não mencionei
laranja. São doze poemas, eu chamo de
LARANJAS. E um dia numa galeria
eu vejo o quadro de Mike, chamado SARDINHAS.
(tradução de Ricardo Domeneck)
Why I am Not A Painter
I am not a painter, I am a poet.
Why? I think I would rather be
a painter, but I am not. Well,
for instance, Mike Goldberg
is starting a painting. I drop in.
"Sit down and have a drink" he
says. I drink; we drink. I look
up. "You have SARDINES in it."
"Yes, it needed something there."
"Oh." I go and the days go by
and I drop in again. The painting
is going on, and I go, and the days
go by. I drop in. The painting is
finished. "Where's SARDINES?"
All that's left is just
letters, "It was too much," Mike says.
But me? One day I am thinking of
a color: orange. I write a line
about orange. Pretty soon it is a
whole page of words, not lines.
Then another page. There should be
so much more, not of orange, of
words, of how terrible orange is
and life. Days go by. It is even in
prose, I am a real poet. My poem
is finished and I haven't mentioned
orange yet. It's twelve poems, I call
it ORANGES. And one day in a gallery
I see Mike's painting, called SARDINES.
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Linhas ao ler “A pintura” de Coleridge

Já não me resta bondade alguma
tampouco nenhuma ternura
essa fraqueza foi arrancada de mim-
antes ela cercava meu desejo
como pétalas beiram o centro
de uma flor, e agora suas
sementes se esvaem, delicadas asas
ao vento! Onde há de pousar
na terra acolhedora
eu ainda não sei, mas vou
reconhecer seu primeiro
frágil broto e o saudarei
tão terno quanto a chuva
sabendo que cada sucessiva
flor é mais bela quanto
mais apaixonadamente breve.


:


Lines while reading Coleridge"s "The Picture"


I have no kindness left
and no more tenderness
that weakness"s torn from me-
it once surrounded my desire
as petals fringe the center
of a flower, and now it"s
gone to seed, delicate wings
in the wind! and where it
falls to welcoming earth
I don"t know yet, but I will
recognize the first frail
shoot and greet it then
as tenderly as the rain,
knowing that each successive
flower"s more beautiful,
the more passionately short-lived.
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São Paulo e tudo mais

Totalmente sem graça e sorridente
eu entro
me sento e
encaro a geladeira
é abril
não maio
é maio
coisas tão pequenas precisam ser definidas pela manhã
depois das coisas grandes da noite
você quer que eu vá? quando
penso em tudo que tenho pensado fico maluco
apenas “viver em Birmingham é um inferno”
apenas “você vai sentir minha falta
mas isso é bom”
quando as lágrimas de toda uma geração forem reunidas
caberão todas numa xícara
e se elas evaporam
nem por isso a vida tem calor
“esse variado sonho, viver”
eu estou vivo com você
cheio de prazeres ansiosos e ansiedades prazerosas
dureza e maciez
ouvindo enquanto você fala e falando enquanto você lê
eu leio o que você lê
você não lê o que eu leio
e tudo bem, o curioso sou eu
você lê por alguma razão misteriosa
eu leio só porque sou escritor
o sol não necessariamente se põe, às vezes só desaparece
quando você não está aqui alguém entra e fala
“ei,
cadê o dançarino dessa cama?”
Ah os verões poloneses! aquelas brisas!
aqueles dentes pretos e brancos!
você nunca vem quando diz que vem por outro lado você vem sim
:
St.Paul and all that
Totally abashed and smiling
I walk in
sit down
face the frigidaire
it’s April
no May
it’s May
such little things have to be established in the morning
after the big things of night
do you want me to come? when
I think of all the things I’ve been thinking of I feel insane
simply “life in Birmingham is hell”
simply “you will miss me
but that’s good”
when the tears of a whole generation are assembled
they will only fill a coffee cup
just because they evaporate
doesn’t mean life has heat
“this various dream of living”
I am alive with you
full of anxious pleasures and pleasurable anxiety
hardness and softness
listening while you talk and talking while you read
I read what you read
you do not read what I read
which is right, I am the one with the curiosity
you read for some mysterious reason
I read simply because I am a writer
the sun doesn’t necessarily set, sometimes it just disappears
when you’re not here someone walks in says
“hey,
there’s no dancer in that bed”
O the Polish summers! those drafts!
those black and white teeth!
You never come when you say you’ll come but on the other hand you do come
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Três árias

para Norman Bluhm
1.
Tantas coisas no ar! fuligem,
bolas de elefante, uma nuvem chinesa
que já desabou por completo, um gato
girado pelo rabo
e as sensações
dos mortos que batem e se esbarram
dentro dos meus olhos cansados
2.
Lá nas profundezas vive um passarinho
que só cantarola, um canto de coragem
e temperança; administra uma fundição
e como é firme ao pegar as coisas! arranca-as
do limo e depois – oh! céus! – numa travessura
ele as joga no caldeirão da feiura
e já um pôr do sol vem nomeando
os álamos que, aguados, só veem a si mesmos
3.
Ah ser um anjo (se anjos houvesse!) e subir
direto ao céu e dar uma olhada e depois
descer
não estar coberto com aço e alumínio
fulgurantemente feio nas distâncias puras e estalando e
estourando, arfando
mas ser parte do topo das árvores e do azul, invisível,
na escuridão iridescente ao longe,
silencioso, ouvindo ao
ar tornar-se não ar tornar-se ar de novo
:
Three airs
to Normam Bluhm
1.
So many things in the air! soot,
elephant balls, a Chinese cloud
which is entirely collapsed, a cat
swung by its tail
and the senses
of the dead which are banging about
inside my tired red eyes
2.
In the deeps there is a little bird
and it only hums, it hums of fortitude
and temperance, it is managing a foundry
how firmly it must grasp things! tear them
out of the slime and then, alas! It mischievously
drops them into the cauldron of hideousness
there is already a sunset naming
the poplars which see only, watery, themselves
3.
Oh to be an angel (if there were any!), and go
straight up into the sky and look around and then
come down
not to be covered with steel and aluminum
glaringly ugly in the pure distances and clattering and
buckling, wheezing
but to be part of the treetops and the blueness, invisible,
the iridescent darkness beyond,
silent, listening to
the air becoming no air becoming air again
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Canção (Estará sujo)

Estará sujo
como se parece sujo
é o que você pensa na cidade
será que só parece sujo
é o que você pensa na cidade
você não se recusa a respirar recusa
alguém chega com um belo dum mau caráter
parece atraente. será mesmo. sim muito
ele é tão atraente quanto mau caráter. será. sim
é o que você pensa na cidade
passe seus dedos por sua mente sem musgo
isto não é um pensamento é fuligem
e você tira muita sujeira das pessoas
será menos mau o caráter. não. melhora constantemente.
você não se recusa a respirar recusa
Is it dirty
does it look dirty
that's what you think of in the city
does it just seem dirty
that's what you think of in the city
you don't refuse to breathe do you
someone comes along with a very bad character
he seems attractive. is he really. yes very
he's attractive as his character is bad. is it. yes
that's what you think of in the city
run your finger along your no-moss mind
that's not a thought that's soot
and you take a lot of dirt off someone
is the character less bad. no. it improves constantly
you don't refuse to breathe do you
(tradução de Ricardo Domeneck)
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Para Lígia, após uma festa

Você nem sempre sabe o que estou sentindo.
Ontem à noite no ar morno de setembro enquanto
eu brandia uma invectiva contra alguém que não me interessa
era amor por você que me inflamava,
e não é esquisito? pois em salas cheias de
estranhos minhas emoções mais tenras
contorcem-se e
dão à luz o grito.
Estenda sua mão, não há
um cinzeiro, de repente, ali? Ao lado
da cama? E alguém que você ama adentra o quarto
e diz você não
quer os ovos um pouco
diferentes hoje? E quando eles chegam são
apenas ovos mexidos comuns e o ar morno
permanece.
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Poema

Há dias em que sinto exalar uma fina poeira
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta

e é porque um arqueólogo
adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome

Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.
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Ao capitão do porto

Quis certificar-me que eu chegaria a você;
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:


To the harbormaster
Frank O´Hara

I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or I am hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.


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