Lista de Poemas
A última boa ação
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
Parêntesis
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
Antropológica
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou
a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo
u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano
o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico
no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo
infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
Naxos
o labirinto o desenho infinito
o engenho
a ter se deixado
devorar assim
no centro —
coração intestinos e outras
vísceras
abertas sem fio indicando
saída meada invisível
e sem uso
Melhor talvez
o minotauro
dentes chifres cascos e mãos
de homem
do que o homem
querendo lança não
um lar
o mar então
é a única
companhia ele nunca
nunca cala
suas mil bocas ondas
repetindo
eu você
na praia estreita
até os deuses sentem
dó
Balada
quando ele nasceu era outono
e seu pai já havia morrido
quando ele nasceu
sua mãe morreu
quando ele nasceu
sua mãe e seu pai estavam mortos
quando ele nasceu estava órfão
era dia de mortos quando ele nasceu
e ele foi chamado Ferdinando
era novembro então
quando ele nasceu
não um novembro qualquer
era novembro de um ano
e dezoito anos depois havia guerra
Ferdinando foi à guerra
Ferdinando foi ferido
Ferdinando foi levado no colo por um colega até a trincheira
o colega voltou
o colega buscou
outro ferido
e com ele no colo pisou numa mina
era dia de São Fernando
e ele nasceu
era dois de dezembro quando seu filho nasceu
era um mês depois do dia de mortos
quando seu filho nasceu
era um dia de outono, era um dia de vivos
lá fora nevava quando seu filho nasceu
Ferdinando brincava
nasci um mês antes de meu filho
nasci no dia de mortos
nasci no dia do santo
era dia de mortos
era um dia de outono
era novembro de um ano
era São Fernando
era um dia de outono
era dois de dezembro
era um dia de outono
era seis de janeiro
quando Antonio morreu
quando Antonio morreu
seu pai já havia morrido
quando Antonio morreu
era dia de reis
era dia de reis
Uma carta não enviada de Teerã
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
Meditação Universitária
pela técnica
são felizes.
Eu tive uma colega, ela
vinha de longe
ela não tinha mãe
a lhe enfiar
sanduíches de atum
com muita maionese
na mochila.
Enquanto eu me debatia,
a cara quase
mergulhada na gaveta
da mesa do estúdio,
com interpretações
de quadros renascentistas,
de estátuas gregas,
com a semiótica
dos cartazes alemães
ou tentava dotar
de algum sentido oculto
uma curva no papel,
ela caminhava ereta
e sorridente pela rampa
abraçada à sua régua T.
No campo
pelo homem:
o caminhão
o balde
o carrinho
de mão
o vermelho é a cor que cor
ta
o campo.
Uma vez pegamos o carro
e fomos ver
o campo
de maçãs.
O carro era cinza
o campo era plano,
de quando em quando havia
uma construção no meio
do nada todo igual
a ele mesmo.
O bebê dormia
nós não vimos nada
vermelho
mesmo se as maçãs
estavam lá
em algum lugar.
De quando em quando havia
um trator
amarelo.
Na avenida
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
As jóias da coroa
ser princesa eu já não era
loura como Cinderela
minha irmã sim e espevitada
chegara ao mundo resolvida
eu não sabia o que fazer
daquela massa castanha
nem lisa nem crespa sobre a cabeça
e acreditava que talvez a cobiçada coroa
de strass
de miss
operasse um pequeno milagre ao encimar
minhas incertezas infantis
então a cada carnaval a cada ida
às lojas de fantasias no centro da cidade
dava-se uma renovada decepção
a diminuta coroa ficava ali
na mesa envidraçada
com seu brilho de mentira
Um dia
numa celebração de aniversário talvez
meu pai nos fez umas coroas
eram de papel cartão preto
adornadas com purpurina no lugar
das pedras e com volutas douradas
feitas a caneta
A caneta era especial
importada só ele usava
e tudo na coroa traía o traço
que era dele totalmente
que era o mesmo
de seus quadros nas paredes
era a marca de sua mão
Eu não sabia quanto aquela coroa
que levei tristemente à minha
cabeça castanha
era real
tão mais real que o diadema prateado
com pequeninas pedras
esquecido na vitrina
No círculo de papel preto
se encerrava o futuro
não o lar imaculado mas a aranha
pequenina se escondendo
num canto do armário
as meias cobrindo os pés
na hora de dormir numa casa
não aquecida
em mais um inverno austral
ao lado de um homem
o herdeiro
mais legítimo
daquela ideia
de príncipe
que fora possível encontrar
e que me dera um descendente
louro de olhos azuis
repetindo no rosto
seus traços castanhos
O cartão escuro era o que fazia
as joias da coroa luzirem mais
Comentários (0)
NoComments
Presentación
NEXT to NORMAL musical: intervista a FRANCESCA TAVERNI e ANTONELLO ANGIOLILLO
Non lo sai-Io sono-Next to Normal Francesca Tavern Antonello Angiolillo Luca Giacomelli
Io sono- Next to normal 31/10/15 Francesca Taverni Antonello Angiolillo Luca Giacomelli Ferrarini
A CIDADE E O FUTURO, com Bianca Tavolari, Kelly Fernandes e Francesca Angiolillo
Next to Normal - Non Lo Sai- Io Sono -F. Taverni - A. Angiolillo - Luca Giacomelli Ferrarini
Next to Normal - Non Lo Sai / Io Sono (F. Taverni, A. Angiolillo, L. Giacomelli Ferrarini)
Roberta Faccani con Francesca Taverni nel finale di Take
Next to Normal -Io Sono (REPRISE) - A. Angiolillo - Luca Giacomelli Ferrarini
[ShowOn.it] - Questi cinque anni - Francesca Taverni
La Voce Del Silenzio - Francesca Taverni
saluti finali-Next to Normal
Italian Musical Awards 2016 Francesca Taverni
RENT 2020 - Prendere o lasciare - Francesca Taverni e Graziana Borciani (Take me or Leave me)
Sway - ANTONELLO ANGIOLILLO (Live)
Manuela Zanier (Francesca)
ANTONELLO ANGIOLILLO in cocerto a Mesagne
21/11/16 La città delle donne - Francesca Ballico parla di LAURA BETTI (V. breve)
Giovina Angiolillo - Quando
"NEXT TO NORMAL" di B.YORKEY e T.KITT - APPLAUSI FINALI - TEATRO DELLA LUNA, ASSAGO (MI), 21.10.2017
Francesca Di Cataldo, Miss sonorifattatutta
Sono vivo-Next to Normal Luca Giacomelli Ferrarini
Teatro: Next To Normal
NEXT TO NORMAL - Intervista ad Antonello Angiolillo
STANDING OVATION per "NEXT TO NORMAL" - Regia: Marco Iacomelli -MILANO, TEATRO DELLA LUNA, 27.2.2016
MUSICAL DAY 2016 - Esibizione e premiazione ospiti NEXT TO NORMAL + PREMIAZIONE
Next to Normal - Superboy e l'invisibile me (L. Adriani, F. Taverni, L. Giacomelli Ferrarini)
Non lo sai(ripresa)-Next to Normal Francesca Taverni Brian Boccuni
NEXT TO NORMAL - Intervista a Francesca Taverni
718 ANGIOLILLO, Luciana, ARG vs MARTIGNANI, Licia, ITA 3 3 SDP
Intervista a Francesca - Manuela Zanier
NON SOLO STEFANO - 1° puntata (ospite ANTOELLO ANGIOLILLO)
iMusical - Francesca Taverni
"NEXT TO NORMAL" - Applausi finali - NICHELINO (TO), 31.10.2015
With Every Breath I Take - Francesca Taverni
La danza dei serpenti, Francesca Fagiani - da MilleVoci 2011 ©
Isolati Fenomeni - Maladie (Official Video)
#NaJanelaFestival | Mesa 3: Carol Bensimon e Michel Laub
Simona Patitucci-Stefania Cento-Antonello Angiolillo-Fabrizio Voghera, La gelosia non è più di moda
Antonello Angiolillo Erica Abelardo Sand Art
Francesca Taverni_Erinnerung (memory).MOV
1046-Nedic, Marlen Sophie (GER) vs Pollet, Francesca (BEL) 7-9
Festival de Literatura Brasileira #NaJanelaFestival
Pasqualino marajà...Giò Angiolillo (voce) Vincenzo De Ritis (fisarmonica)
N2N Francesca Taverni
OLBC MI CHIAMO EVA Perfetto Antonello Angiolillo
trailer QUESTI 5 ANNI secondo anno
Intervista a Antonello Angiolillo
Morra, Amor - trecho 2 performance online.
L'Arte della miscelazione, Francesca Gentile, Funi 1898
Trabalhou no jornal Folha de S.Paulo e nas editoras Instituto Moreira Salles e Bei. Em setembro de 2017, estreou na literatura com os volumes de poesia Rua Lisboa e Etiópia, lançados simultaneamente pela editora carioca 7Letras.
Em 2016, recebeu uma bolsa de criação literária do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e foi à Etiópia, procurando reconstituir as lembranças de seu pai de uma passagem pelo país em 1967.
Etiópia, escrito após aquela viagem, foi ganhador do Prêmio Alphonsus de Guimaraens de 2018.
Português
English
Español