As Time Goes By
Como o
tempo passa
Enquanto ficamos sós...
Passamos nós pelo tempo
Ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois á taça
O que afinal sou eu só
- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.
Ímpar
Como é
ímpar
Na moldura de uma cama
Um par
Quando se ama!
Talvez Amanhã
Talvez
amanhã eu saiba
Talvez amanhã eu siga.
Talvez amanhã não caiba
Nas palavras que te diga...
Entretanto, que sei eu?
Eu que não sei o que sou.
Depois do que aconteceu,
Apesar do que acabou.
Não vamos dormir agora
- que a manhã é uma promessa
que o teu sorriso devora.
Vamos despir-nos depressa
Ainda temos uma hora
Antes que o sonho adormeça.
A Ti
Aos trista e sete anos do teu corpo,
Às vinte e quatro horas da tua carne
E ao desejo que , às vezes, é tão pouco
E ao amor que,mesmo assim, ainda arde
Ao ciíme da tua boca, quando calas
Ao silêncio dos teus olhos, quando choras
E aos teus braços nus, quando me abraças
E ao teu ventre que é tão breve quando parto.
E às tuas esperanças vãs que eu alimento
A ao ópio do teu sonho onde me tardo,
E a ti onde, afinal, não aconteço....
Carta de Amor
Para te dizer tão-só que te queria
Como se o tempo fosse um sentimento
bastava o teu sorriso de um outro dia
nesse instante em que fomos um momento.
Dizer amor como se fosse proibido
entre os meus braços enlaçar-te mais
como um livro devorado e nunca lido.
Será pecado, amor, amar-te demais?
Esperar como se fosse (des) esperar-te,
essa certeza de te ter antes de ter.
Ensaiar sozinho a nossa arte
de fazer amor antes de ser.
Adivinhar nos olhos que não vejo
a sede dessa boca que não canta
e deitar-me ao teu lado como o Tejo
aos pés dessa Lisboa que ele encanta.
Sentir falta de ti por tu não estares
talvez por não saber se tu existes
(percorrendo em silêncio esses altares
em sacrifícios pagãos de olhos tristes).
Ausência, sim. Amor visto por dentro,
certezas ao contrário, por estar só.
Pesadelo no meu sonho noite adentro
quando, ao meu lado, dorme o que não sou.
E, afinal, depois o que ficou
das noites perdidas à procura
de um resto de virtude que passou
por nós em co(r)pos de loucura?
Apenas mais um corpo que marcou
a esperança disfarçada de aventura...
(Da estupidez dos dias já estou farto,
das noites repetidas já cansado.
Mas, afinal, meu Deus, quando é que parto
para começar, enfim, este meu fado?)
No fim deste caminho de pecados
feito de desencontros e de encantos,
de palavras e de corpos já usados
onde ficamos sós, sempre, entre tantos...
Que fique como um dedo a nossa marca
e do que foi um beijo o nosso cheiro:
Tesouro que não somos. Fique a arca
que guarde o que vivemos por inteiro.
Confissão
Entre números
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.
Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados
Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.
E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.
Rosa dos Ventos
Ao sul de mim existe um porto
Que não se bebe.
Apenas se pressente.
Me embriaga
E , contudo, não se mede.
Mulher cujo perfume só recordo
Na madrugada fria, ainda doente.
A Norte, porém, quando confessa
Vontades que traz apetecidas
Confesso que me aquece, nessa pressa,
Outras mulheres que cria já esquecidas.
A Oeste bastava outra vontade
Para alcançar a praia repetida
Que outro gesto quisera e de vaidade.
Finalmente, a Leste, a despedida,
Abraço que ficou por acabar,
Palavra de começo e de partida
Que o tempo não deixou acreditar...
Jantar
Jantar
sozinho, comer
O resto da minha sede.
Como se alguém repartisse
A fome de apetecer
Outro corpo que se bebe
E que depois nos fugisse....
ComPassos
Como compassos
Abrem-se em passos maiores
Apressadas, inquietas,
Sóbrias, nuas, indiscretas,
Lânguidas, em lentos passos,
Por avenidas, esquinas, corredores,
As duas pernas da mulher.
Secreto o centro que as une
E as afasta
Mantendo aceso o lume
Desse calor que as não gasta.
Deixam rastos, desenhos, arabescos
Pelas calçadas, ruas e passeios,
Se nos prometem na cor dos lábios frescos
A sombra nua da rosa dos seus seios.
Como se cruzam e se abrem em desafio,
Como convidam, sem silencio, se ela quer
A esse galope, às vezes terno, às vezes frio
À rédea solta rumo ao centro da mulher.
Marcam , a andar, o ritmo do Universo,
Do coração conhecem a rotina.
Por uma flor, às vezes por um verso
Da pura e casta desperta a libertina.
Compasso vivo, metrónomo complexo
Que marca o tempo e o andamento do prazer,
Chama-se amor ou profissão ou apenas sexo,
Seja ela amante, prostituta ou só mulher.
Verbo
Amar a
mulher
É também sentir
Antes de a beijar, antes de a despir,
Esse sabor doce
Como se ela fosse uma rosa a arder
Esse verbo tão difícil e tão fácil de dizer...