Lista de Poemas

VIDA E OBRA

Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.

E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,

canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.

Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
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A LEITORA

Ali está ela, atenta.
Mas, repara: lê

como se levitasse.
O escrito pouco importa.

É como se não lesse. Imagine:
uma língua tão estrangeira

que ela não reconhecesse,
não soubesse qual e,

serena, não dá por isso.
Ou mais que:

não lê. Vê
as páginas,

como se da janela
a paisagem

e pousasse os olhos
na orla das páginas

sem saber
onde vão as palavras.

Frui, tão-só,
a pele, o almíscar,

a árvore
que o livro foi um dia.
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O ATOR

Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
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PAISAGEM PARA ANNA AKHMÁTOVA

O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
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VERDE-CLARO

Coroa, manto, brasão
e cetro, pousa.

Minúsculo,
só, nenhum exército.

Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.

Não sei que nome tem,
insigne inseto,

senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.
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VALSA PARA GRAÇA

Abra-se tudo
em grande-angular:

alas a ela, abra-se tudo
em salas que se abram

em salas abertas, salões,
e o que se fechara

antes desabroche
numa sucessão de estrelas

em pleno dia claro.
Abra-se o teto

do planetário, abra-se
o coração de fogo

e nele toda dor
torne a nada e

nada lhe resista e
por onde passe alastre

sua leveza. Alas a ela,
e que ela me leve.

Porque nela tudo parece
mover-se sobre salto

alto, sobretudo a alma,
a alma que parece calçar

a mesma sandália que
as palavras e os gestos

dela, alas
a ela, que assim

alta,
como que vai

descalça e dançasse
sobre-além dos alarmes

e do medo, largando
na sua valsa

um rasto só de beleza.
Alas a ela.
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INTERVALO

É o que lhe digo: a medida.
Quantos de nós entre nós
se tantos os vazios a preencher
entre querermos e a distância?

A delicadeza dá dois passos.
A vontade avança. A dúvida
recua. Quantos de você entre
você e Camus, entre você

e a casa, entre você e quase,
entre você e o nó que lentamente
vai desatando entre você
e nós? Há muitos entre nós:

que somos, que não somos,
que seríamos, entre a sua voz
e ouvi-la entre a vertigem
de tocar, por sobre o Saara,

as mãos e o jardim que nelas
se abre, agora que não há
senão um sim e um sim,
e temos sede, e rimos alto

entre livros, arrebatamentos,
amendoeiras e a impressão
de que, sem deixar traço,
todos desapareceram.
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VINHETA

Ame-se o que é, como nós,
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa

e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.

Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Foi Gastão Cruz quem. em Lisboa, me levou
a ela. a velha senhora, a senhora bela;

era um dia diadema, de azul líquido e sim
simultaneamente matemático;

nenhum de nós morreria naquele outono
de arames claros: a hora como que se curvava

quando Sophia falava, e então
todas as palavras eram números mágicos.
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TUDO VAI TERMINAR BEM

Rogai por nós Mercearia Nossa Senhora das Graças
Café e Restaurante Nossa Senhora de Fátima
por nossas alegrias Padaria São Jorge
Imobiliária São Jorge Vidraçaria São Jorge

porque jamais voltaremos à casa dos nossos dias
rogai por nós Maternidade Santa Maria Clínica
Pediátrica São Boaventura Casa de Repouso
São Bartolomeu olhai por nós

Clínica Oftalmológica São Judas Tadeu
Instituto de Beleza Santa Inês imploramos
amor e cremos sempre outra vez Depósito
de Bebidas São Pedro Autoescola São Cristóvão

quando estivermos sós, e só, ó cidade de São Paulo
tende piedade de nós na hora de nossa morte
rogai por nós Cristo Redentor Avenida
Nossa Senhora de Copacabana.
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