Escritas

Lista de Poemas

Horas

Gelava o tempo branco do relógio.
Fundiu-se um dia o mostrador
aberto para dentro
num foco por onde as horas negras fugiram enlouquecidas!

Lá para longe na faixa rósea da distância
recuaram ante o incessante alarido dos sinos
e logo regressaram
desesperadamente procurando em vão
o maquinismo do relógio,

Vai-se o dia fechado de silêncio
num quadrado de luz amarelada
e de novo preso o pé da jovem
quando ia para sair.

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A Máquina Prisioneira

A máquina acabava o dia a mastigar
e aos poucos os dentes lhe caíam
perdendo-se na espuma do ar negro,
ondulante, da fábrica.

Um desejo insubmisso
de cercar os átomos gigantes
vinha encher um braço
donde surgia um corpo
lacerado
sangrento!
e donde surgia um braço
cheio de sangue novo
que libertava a máquina!
A sorrir desdentada
a máquina adormecia...

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Canção

Não te deites, coração,
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.

Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.

Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...

Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!

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Sugestão

Entro na igreja majestosa e calma,
erro na sombra sob as arcarias.
Anda no ar silêncio, e a minha alma
toma a frieza das colunas frias...

Numa capela triste aonde espalma,
dourado lustre, chamas fugidias,
tocam-me o peito as sete duma palma,
a evocar-me de Cristo as agonias.

Começa o som do órgão, morno, errante,
o aroma do incenso penetrante
como as garras aduncas do tormento.

E já o desejo acre de esquecer,
ao longe o mundo eu só escutar e ver,
coração me nasce brando e lento. . .

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Ondulação

O luar ondula
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .

Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.

E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!

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