Lista de Poemas
Elegia dos Golfinhos
sem interferir: eles feriam
o cardume denso dos golfinhos, armadura azulada
protegendo atuns. Eram estes o alvo cobiçado
para as latarias de consumo. Tudo servia
aos velhacos: matemática, um navio branco
— noivo da Morte —, redes atiradas
em círculo perfeito e nefasto perto do cardume.
Tiros ecoavam no ar, encapelando
a ordem bela dos golfinhos no caos turbilhonante.
Aprisionados, eles se contorciam em desespero.
Lamentem-se os coros sagrados de Netuno
acorram Nereidas, Anfitrite em lágrimas com
seus cavalos marinhos em torno das malévolas mandalas
de redes sobre o mar. Ó Nova Idade, não vês tantas
formas desfeitas, não vês que o rei Midas
tudo transforma agora no ouro do negócio?
Os golfinhos tranqüilos começam a morder.
Ah, cascata iridiscente no limiar da morte
em dança fúnebre! É o anti-Cristo no coração dos homens,
o usurpador, o peixe voltado para a esquerda, involutivo.
Mercância vil contaminando cabeças
e corações! Vociferem as pitonisas
de cabelos soltos, pálpebras emaciadas!
São os golfinhos os novos educadores
com sua graça natural, com sua dança
que a morte não detém. Eles propõem música.
Agora
chamo-te - pai - da estação da infancia
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
os teus. Eu contigo em degredo.
Difícil tocar a face desse segredo cada vez mais longe
e partir e também ficar, embora encontrada a chave
[da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
- eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria desenhado pela mão mais fina. Passa uma
[pluma apenas uma
no rio acordado.
Murmúrios
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.
Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?
Utopia
inverno - verão
guerra - paz
penúria - saciedade:
era este o credo da Montanha
Dormindo velávamos.
Quantas vezes a ti voltei
regaço
e a ti voltarei
horizonte da meta?
Não do preciso ou impreciso desejo
mas doar pleno
sendo Deus oferenda e altar.
Quem desperta do gesto litúrgico
de si mesmo feito
sente o peito pulsar
silêncio
e dança.
Mulher e Pássaro
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.
Valsas de Esquina de Mignone
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.
Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.
Habitas meu coração:
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.
Boneca
parece assustada com o próximo milênio.
Quem a aninhará nos braços
com seus olhos de medo e retrós?
O signo da boneca é frágil
mais frágil que o de pássaro.
Confia. Assim passiva
o vento brincará contigo
franzirá teu avental
dirá coisas que entendes
desde a aurora das coisas:
foste um caroço de manga
uma forma de nuvem
ou um galho com braços
de ameixeira no quintal.
Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim.
Para ser embalada nos braços
da menina que houver.
Rude-suave amigo
"Sofro como um animal. Sou como um animal. Ninguém pode ajudar-me,
que a força é questão de ritmo. Quem não precisa
ser socorrido alguma vez? Mas é preciso humanamente
aproximar-se dos outros. "Mas tu - Henry - pareces incapaz
de ficar próximo de alguém". O mesmo diálogo se repete
entre eles em outras latitudes, tempos diferentes.
Trabalham juntos à beira da loucura, odiados e louvados
em dias consecutivos por sucessivas pessoas ou pelas mesmas.
Gêmeos divinos que a insanidade transforma em pactuários.
Sempre ficam à margem ou no centro instável de uma
compreensão equivocada. Entre céu e terra os ecos
inumeráveis desse diálogo. Comunhão e dist6ancia - coisas tão diversas!
Próximos apenas da solidão comungam na missa
de todos os dias e de todos os santos.
Habitas meu coração
Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias a tempo e medidas.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser onde jamais
me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-me em silêncio e às vezes como uma
criança me apertas em teu peito: acaricio
então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando no
enlace das colunas em seteiras escadas. Se
grito teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.
Comentários (0)
NoComments
Entrevista com Dora Ferreira da Silva
Dora Ferreira da Silva - O Poema
Cânticos | Dora Ferreira da Silva
Dora Ferreira da Silva: Nascimento do Poema | Poetisas Brasileiras | Recitar Poesia | Declamação =P
Dora Ferreira da Silva "Conversa Dom Pessoa"- por Rita Barbosa
Quando (Poema), de Dora Ferreira da Silva
Heracliteana- Dora Ferreira da Silva
Poema: "Nascimento do Poema" de Dora Ferreira da Silva #doraferreiradasilva #poemas #poesias
Poemas de Dora Ferreira da Silva
Friedrich Hölderlin - Às Parcas - Trad. de Dora Ferreira da Silva
Friedrich Hölderlin - Coragem poética (primeira redação) - trad. de Dora Ferreira da Silva
Dora Ferreira da Silva - Narciso (II)
Dora Ferreira da Silva - Pássaro e mulher - Leitor da noite
declamação do poema nascimento de um poema- Dora Ferreira da Silva
Dora Ferreira da Silva
Dora Ferreira da Silva - Só a poesia nos Salvará
Dora Ferreira da Silva - Narciso (1)
A Ressignificação do Mito no Pensamento em Vicente Ferreira da Silva | Com Thiago Diniz Santos
Rainer Maria Rilke - Pietà - Tradução de Dora Ferreira da Silva
Resgate Literário com Dora Ferreira da Silva...
DORA FERREIRA DA SILVA poema CHUVA | RECITAÇÃO COM GEGLIANE SANTOS.
Dora Ferreira " Diário de Uma Mulher II " (Entrevista )
Minutos de Poesia - Adélia Prado - Gilka Machado - Dora Ferreira
Mário Quintana/ Adélia Prado/ Dora Ferreira da silva/ Patativa do Assaré
São João da Cruz - Do nascimento [do Menino Deus] - trad. de Dora Ferreira da Silva
Conversa de Mulheres | Dora Ferreira | PublinetPT
Dora Ferreira TVI
Ferreira vs. Dora vs. Morais - Seeding Round, Heat 3 - MEO Rip Curl Pro Portugal 2019
31 de março de 2023
Carmen Dora Ferreira - O racismo no dia a dia
São João da Cruz - Coplas da alma que anseia por ver a Deus - trad. Dora Ferreira da Silva
17 Vicente Ferreira da Silva
Poema: Dora Duarte - A mais perfeita das mulheres; Narração - Silvana Flor- Cordelista.
#10 - RODRIGO PETRONIO A FILOSOFIA DE [VICENTE FERREIRA DA SILVA]
unbtv - programa poesia dora duarte
Aquela combinação perfeita. #amoperfumes
(4/4) Lançamento NOVA ÁGUIA nº 13: 23 de Março de 2014 | Palácio da Independência: Sede do MIL
11 de maio de 2023
12 de maio de 2023
Waldomiro Ferreira - Chega de sofrer
Filosofias da História no Brasil: Augusto de Carvalho - A Filosofia da História de Ferreira da Silva
FC 1989: Da Vinci - "Conquistador"
Fundamentally Perfect Surfing | Yago Dora's 'Ciclo'
Live da lançamento do livro "Vicente Ferreira da Silva: a redescoberta da mitologia"
HOMENAGEM AO POETA LINDOLF BELL
Aly Faque - Kinachukuro (Video Oficial)
Esther Fiaux | Adoração Exclusiva [Clipe Oficial]
Oitava Elegia de Duino (Poema traduzido), de Rainer Maria Rilke
Amado Batista - Princesa (Amado Batista 44 Anos)
Tá Na Mão de Deus | Aurelina Dourado - [Clipe Oficial]
Português
English
Español