Cláudio Alex

Cláudio Alex

n. 1998 PT PT

Cláudio Alex é um nome literário associado à poesia contemporânea, explorando temas existenciais e sociais. Sua obra se caracteriza por uma linguagem que transita entre o lirismo e a crueza da realidade urbana, buscando um diálogo com as inquietações do indivíduo na sociedade moderna. A poesia de Alex reflete sobre a identidade, o tempo e a busca por significado em um mundo em constante transformação.

n. 1998-06-09, Catanduva, São Paulo, Brasil · m. , París

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Bom Dia, Tristeza!

I
Bom dia, Tristeza!
Nada se absorve
ou se perde na beleza.
O inverno da desesperança
consentida.
O silêncio do pulsar
admitido.
Bon jour, Tristesse!

II
A conspiração noturna,
o advento da respiração
da brisa da madrugada,
um salutar reflexo de continuidade.
Implorar presença
que preencha a falta
do tudo.
Da totalidade de tudo.
Sinto muito,
se as manhãs são nuas,
se tuas tardes são vazias
e o tédio impercebido resvala nas quinas
dos móveis.
Se o volume da rádio-vitrola
faz as paredes purgarem
uma canção inesperável.

III
Se antes havia
um tênue ressonar
ao lado de minha abstinência,
hoje os resquícios
de presença
são absorvidos
pelos meus pêlos que se eriçam
ao toque invisível do desespero.

IV
Play me a ring!
Sing me a song!
A song of my desperate Christmas!
Im lost...

V
Um inexplicável
suor de nossa vadiagem.
Na tarde, na manhã,
na presença noturna,
a atmosfera que envolve a tudo.
Sinto saudades,
dessas tardes.
O telefone soar
e tudo ser...
A certeza do dia
frente à obscenidade
permitida.
O toque do espírito
na pele.
O contato profundo
nas partes impuras.

VI
Cravar os dentes
na ausência de tua carne.
Lamber o vazio
onde estariam tuas portas.
E o gosto amargo
da secura da falta de teus sumos
transborda em lágrimas
da mais pura incerteza.

VII
Deita comigo
o silêncio
da invalidez
das possibilidades.
Deita comigo
a fraqueza que nos levou
e te conduziu para perto do
cataclisma.
Permanece comigo
a falta de teu sussurro,
do teu gemido,
do ressuscitar
das velhas
e inesperadas
paixões.

VIII
Bom dia, Tristeza!
A porosidade da língua
que guarda o sabor
delicado
de tua saliva.

IX
Impressa em mim
cada emoção,
cada toque,
cada sensação
esculpida no fundo.
E as limalhas
da alma
permanecem
espalhadas
no ambiente do quarto.

X
Guardo comigo,
numa coleção
de fragmentos,
a ansiedade
da volta.

XII
Mas a desesperança
decompõe meu corpo,
leva minha noite...
Tristeza, bom dia!
Aqui fico eu,
permaneço,
jazente,
adormecendo,
aos poucos,
na inexistência
de tua presença.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Cláudio Alex é um pseudônimo, com o nome verdadeiro e os detalhes biográficos completos não amplamente divulgados. A sua obra poética insere-se no contexto da literatura portuguesa contemporânea, escrita predominantemente em língua portuguesa.

Infância e formação

Informações sobre a infância e a formação de Cláudio Alex não são detalhadamente conhecidas publicamente, sugerindo uma preferência pela privacidade.

Percurso literário

O percurso literário de Cláudio Alex é marcado pela publicação de obras poéticas que têm vindo a ganhar reconhecimento no panorama literário português. O início da sua escrita e a evolução ao longo do tempo não são detalhados, mas a sua obra revela um aprofundamento temático e estilístico.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Cláudio Alex, embora não com datas e contextos de produção específicos amplamente documentados, abordam temas como a condição humana, a cidade, o tempo e a subjetividade. O seu estilo poético tende a ser introspectivo, com uma linguagem que busca a precisão e a expressividade, muitas vezes utilizando o verso livre. A voz poética é frequentemente confessional e reflexiva, explorando a densidade imagética e recursos retóricos que conferem profundidade à sua expressão.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Cláudio Alex escreve no contexto da literatura portuguesa contemporânea, dialogando com as preocupações sociais e existenciais do século XXI. A sua obra reflete as tensões e as complexidades da sociedade atual, sem necessariamente se vincular a movimentos literários específicos de forma explícita.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Cláudio Alex são escassos, com o autor a manter um perfil discreto em relação à sua esfera privada.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Cláudio Alex tem vindo a crescer no meio literário, com a sua poesia a ser apreciada pela sua originalidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências específicas e o legado de Cláudio Alex ainda estão em construção e a serem definidos pela sua obra em curso.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Cláudio Alex convida à reflexão sobre a natureza da existência, a relação do indivíduo com o espaço urbano e a passagem inexorável do tempo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Devido ao seu pseudônimo e à discrição, muitos aspetos menos conhecidos da sua personalidade e hábitos de escrita permanecem no domínio do privado.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ainda em vida e em atividade literária, a morte e memória de Cláudio Alex são um tema para o futuro.

Poemas

12

Não sou arroz, eu não!

Eu não sou arroz, não, meu amor!
Te esforçaras para faze-lo,
mas escorregarei, sempre
pela saída impossível,
pela janela que parecia fechada.
E te sacudirei com força,
te revirarei por dentro
cairás sempre deitada na cama
e eu te terei.

Não sou arroz, eu não
nunca terás a certeza
completa de que sou
todo teu, por mais que eu diga
que eu afirme, ficara sempre
uma pontinha de duvida
de toda essa certeza.
Saberás que sou teu,
saberás que me tens,
mas temeras sempre
aquela saída oculta
que possa parecer uma porta
por onde eu
poderei desaparecer
por trás dela.

E me amaras loucamente
e me desejaras ter dentro de ti
porque quando estiver ali dentro,
envolvido no jogo da paixão terás
todas certezas.
Mas em outra hora, não terás tantas certezas,
e por essa razão fazer amor comigo
será mais imprescindível
do que com qualquer outra pessoa,
entregar-te-á com mais força
com maior afinco, porque
será quando terás a certeza
que me tens.

Nunca te acharas dona da situação
por completo, poderei te surpreender
com algo inimaginável.
Abalarei teu excesso de confiança.
E eu te virarei do avesso,
e te farei mulher
como ninguém jamais
te fez ou fará.

Desconfiaras sempre que te sentir confiante,
e aprenderas a extrair do teu homem
cada gota de prazer, que é tua e que é minha.
Porque assim ficaras mais nua e serás
possuída de todas as maneiras.
E gostaras de sê-lo.

Eu não sou arroz, eu não.
Eu te darei o antepasto,
o primeiro prato,
o segundo,
e te darei,
para deliciar,
a sobremesa.
Depois te regarei
de licor.

Aprenderas a não
acreditar que dominas.
Mesmo dominando
não terás certeza.
Porque no momento
seguinte eu posso
virar o jogo e ter toda.

Mas sempre tente me dominar,
finja que me tens na tuas mãos,
e ao mesmo tempo terás e não me terás.
Me saberás teu no intimo,
mas não terás confiança de di-lo
de boca cheia.

Eu, absolutamente, amor
não sou arroz, nem mesmo armário,
nunca serei uma mediocridade cotidiana.
Serei sempre um homem, digno da mulher és,
mas que só eu saberei, porque só eu sei faze-la.

Serei um homem digno de ter um filho contigo,
e desejaras muito este filho, porque também terás
um pouco mais de certeza de que serei teu.

E um dia, fora do espaço e do tempo,
saberás que eu sou desse jeito,
porque...

... bem, hoje não te darei certezas.
Terás que obte-las.
Hoje é segredo.

735

Não, amor

Não, amor
eu não quero roubar você de você.
Eu quero é te amar sem limites
quero é chegar ao fundo do teu coração.
Me ame como você o sente. Pode vir se entregar
sem medo de errar. Deixa eu ser como sou
eu também não tenho duvidas que te amo.

Eu amo você do jeito que é
continue sendo assim.
Nada é a toa.
Quero, sim desejá-la
quero lutar por ti.
Quero ser o que sou
e muito mais prá você.
Sou assim mesmo.
Meio maluco e de repente
quero tudo. Quero muito.
E quero mais, muito mais
eu entrei em contato
com teu coração.

Eu amo você.
foi o mesmo que
se nos tivéssemos feito amor.
Alias, nos fizemos.
Gostei do teu beijo. Da tua pele.
Da tua boca. Do teu corpo.
De passar as mãos nas tuas coxas.
Gostei de te amar.
Quero fartar você de desejo.
Quero fartar o teu desejo.

Não, eu te respeito, muito.
Não, sou egoísta não.
Pelo contrario.
às vezes exercito o desejo de sê-lo.
Por achar que deva me amar.
Mas, não, no fundo eu sou só compreensão.

Eu te amo como você é
e nossa relação é uma relação
baseada na verdade.
Seja como você é, fala o que
sente e como sente.
Não quero muda-la
Amo-te demais para isso.

Mas por favor, deixa-me te amar.
E não me restrinja dentro de ti.
Quando sentir amor por mim
venha para mim.
Quando me quiser, me tenha.
Não importa o que eu fale
as palavras são tolas
para explicar o que eu sinto.

Me tenha sempre.
Eu sou teu namorado,
não terminamos nada.
O amor é eterno
e ele é que existe.

952

Bom Dia, Tristeza!

I
Bom dia, Tristeza!
Nada se absorve
ou se perde na beleza.
O inverno da desesperança
consentida.
O silêncio do pulsar
admitido.
Bon jour, Tristesse!

II
A conspiração noturna,
o advento da respiração
da brisa da madrugada,
um salutar reflexo de continuidade.
Implorar presença
que preencha a falta
do tudo.
Da totalidade de tudo.
Sinto muito,
se as manhãs são nuas,
se tuas tardes são vazias
e o tédio impercebido resvala nas quinas
dos móveis.
Se o volume da rádio-vitrola
faz as paredes purgarem
uma canção inesperável.

III
Se antes havia
um tênue ressonar
ao lado de minha abstinência,
hoje os resquícios
de presença
são absorvidos
pelos meus pêlos que se eriçam
ao toque invisível do desespero.

IV
Play me a ring!
Sing me a song!
A song of my desperate Christmas!
Im lost...

V
Um inexplicável
suor de nossa vadiagem.
Na tarde, na manhã,
na presença noturna,
a atmosfera que envolve a tudo.
Sinto saudades,
dessas tardes.
O telefone soar
e tudo ser...
A certeza do dia
frente à obscenidade
permitida.
O toque do espírito
na pele.
O contato profundo
nas partes impuras.

VI
Cravar os dentes
na ausência de tua carne.
Lamber o vazio
onde estariam tuas portas.
E o gosto amargo
da secura da falta de teus sumos
transborda em lágrimas
da mais pura incerteza.

VII
Deita comigo
o silêncio
da invalidez
das possibilidades.
Deita comigo
a fraqueza que nos levou
e te conduziu para perto do
cataclisma.
Permanece comigo
a falta de teu sussurro,
do teu gemido,
do ressuscitar
das velhas
e inesperadas
paixões.

VIII
Bom dia, Tristeza!
A porosidade da língua
que guarda o sabor
delicado
de tua saliva.

IX
Impressa em mim
cada emoção,
cada toque,
cada sensação
esculpida no fundo.
E as limalhas
da alma
permanecem
espalhadas
no ambiente do quarto.

X
Guardo comigo,
numa coleção
de fragmentos,
a ansiedade
da volta.

XII
Mas a desesperança
decompõe meu corpo,
leva minha noite...
Tristeza, bom dia!
Aqui fico eu,
permaneço,
jazente,
adormecendo,
aos poucos,
na inexistência
de tua presença.

725

Te Espero

Todo amor tem que ser livre
Quem sou eu para dizer o certo,
quem sou eu para dizer o errado.
Todo amor acontece porque é perfeito
da forma que se apresenta.
Expresso meu amor
da forma e do jeito que ele é.
Expresso com as formas de sedução
que sei fazer e que a vida ensinou.
Faço-o livre porque livre ele o é.
Deixar de assim manifesta-lo
significa transforma-lo
em algo em que já não é.

Sou teu por uma opção de entrega,
porque esta entrega vem de dentro
e decorre de uma sensação plena.
é natural que ele se expresse
para alguém que preenche
completamente as emoções no peito.
E poderia haver alguém ao lado
que não haveria espaço dentro
para ser compartilhado.
O amor preenche-me por inteiro.

Estou triste
porque não tenho você ao meu lado.
Mas é uma tristeza completa
que é melhor que uma alegria
incompleta e cheia de vazios.
Se estou triste,
é porque às vezes o amor é triste,
é uma forma de sua manifestação.

Se, às vezes, sozinho solto um sorriso,
é porque se manifesta em mim
uma parte alegre de você.
Coisas que me fazem teu,
porque verdadeiramente te amo.

Se, às vezes, sozinho, eu choro
é porque se manifesta em mim
uma parte melancólica de ti,
nem por isso menos bela.
Coisas que me fazem teu.
Porque a verdade não esta só na alegria,
e o melancólico convive com o alegre.

Se às vezes fico com raiva
é porque o amor se manifesta
com a incompreensão.
Coisas que eu não compreendo.
Coisas que não sou compreendido.
Mas se existe a raiva
é sinal que existe o desejo:
um desejo incompreendido
mas que existe e é forte demais
para ser colocado de lado
junto das pequenices diárias.

Todas essas manifestações
são manifestações de amor.

Foste em busca do paraíso terrestre.
Te odiei.
Agora já não sinto, mas senti.
Essas coisas acontecem e fazem parte.
Longe de deixar-me tomar pela autopiedade,
isso serviu de aprendizado.
Aprendizado sobre você.
Não é aprendizado sobre nosso amor.
Nosso amor é como é
e assim é pleno.
É um aprendizado sobre você
porque é a tua verdade
que se manifestou.
E cada vez que isso acontece
aparece mais a verdade
daquilo que existe em nos.
Não sou perfeito, não és perfeita,
somos como somos,
e assim nos amamos.
Cada vez percebo mais
como nossos mecanismos de vida
começam a se integrar
cada vez mais e melhor.

Sei que te dar garantia
dessa compreensão,
dessa busca do entendimento,
te da segurança de ser
aquilo que realmente você é.
Você percebe que ai se expressa
a tua liberdade de ser
dentro de um relacionamento?

Vim para a sua vida
não de forma passageira.
Vim para a tua vida
para ficar contigo.
Temos tempo e não temos tempo.
Na verdade o tempo
é o que menos interessa.
Vim exercer em ti
a minha forma de sedução
e que te faz sentir mulher
perfeita e completa.
Vim para mexer com tua química
para transformar os teus hormônios
para mudar o teu desejo.
Vim para mudar a tua vida
e te trazer um mundo
que na verdade apenas pressentes.
Vim para te tomar por mulher
quando todos a tratam por menina.
Vim para te dar saber
da plenitude do desejo
e da arte de flui-lo.
Vim para você me ver
todos os e dias e afirmar baixinho:
- Este é meu homem!
Vim para te fazer inteira,
para integrar teus sentimentos,
para criar sinergia
e te fazer crescer em ti.
Vim para te mostrar que esta trancafiada
e não consegues viver,
que estas sufocada
de tanto a fazer
e nada fazer.

Quero que saiba que te amo
e que nada existe no mundo
que me desalente.

Que vencerei teu medo,
que te levarei comigo
para fazer amor.

E, então, saberás de tudo
e terás confiança maior
em teu próprio ser.

Eu vim aqui, desse mesmo jeito
para te levar ao encontro
do que existe em ti.
E só o amor, um grande amor,
é capaz de fazer coisas tão simples
e tão difíceis de serem feitas.

Estou aqui, sou teu,
venha definitivamente
para o meu encontro.

Te espero.

999

Quem é aquela mulher?

Deixe que eu te leve no sonho.
No sonho que meu corpo embala,
que a palavra cala,
que o pensamento voa.
Deixe que o calor te chegue
infiltre em teus poros,
erice teus pelos.
Escute meus apelos,
afague meus cabelos.
Arranhe minha pele.
Deixe essa fera,
esse fogo aberto,
essa mulher oculta,
renasça em carne viva.

Viva meu esforço,
minha luta.
Como me contorço,
como me refaço,
como que renasço.
É que para mim existe algo
diante do sonho.
Existe uma mulher real,
uma mulher que toco e que amo.
Existe uma força suavemente macia
que comprime meu peito,
que me engole a boca
que é meu próprio sangue,
na minha própria magia.

Existe uma mulher oculta,
renegada, calada
que me agarra e se integra comigo
num único momento,
num único organismo ofegante.
Depois se cala e me renega.
E já é outra que fala,
que me expulsa do leito,
que nega, que isola,
que repudia.

Quem é aquela nos momentos de entrega?
Quem é aquela que comigo revira os lençóis?
Quem é aquela mulher?

850

Farol Escarlate

I

Ah sim... sou eu...
Estava aqui pensando que a tarde invernal
poderia, como solar, trazer-te.
Boa tarde... sempre te espero.
Tua voz de garota, agora, comendo bolo.
Sim... te amo toda
Toda te quero.
Sempre.

Ah! O feitiço do amor prometido eterno.
A certeza do Sol e Lua gêmeos.
Que se apague a luz no eclipse
para que se amem nos escuro
esses dois amantes.
Pois o destino aperta o laço.

Estás de volta?
Chegou agosto... como disseram as cartas.
As cartas de tarot.
De novo aquela proximidade de alma.
O elo sensorial das coisas
que te trazem para junto e te mantêm comigo.

Cá estou eu, sábado,
fones no ouvido,
na tua mesma freqüência.

Sim, estou de novo dentro de ti.
Sim, estou aqui de novo
com essa coisa que preenche tudo.

Sim, te amo, sempre te amo
isso nunca irá acabar.

II

Cansada de atender
ao que lhe exige o comportamento.
Na rigidez dos dias, sem motivo,
sem o sol das hora hipotéticas,
sem o sol do brilho das clarezas.

Confusa!
Espécie perdida entre os afazeres.
Numa casa perdida aos acasos.
Numa cidade menor do que o próprio instinto.
Um confinamento no ermo atrás das nuvens.

O que se encontra atrás das nuvens?
O amor perdido em páginas de mensagens?
Onde está ele agora?
Onde ela está?
O frio de todos os invernos
a carcomer as fibras dos nervos.

Onde está a dona de si mesma?
Onde está a última tentação da carne?
Onde está o filho do acaso perdido na última morada?
A morada da última felicidade.
Percorrer as alamedas de volta prá casa.
Percorrer a aléas de volta prá si.
Tornar a encontrar-se, consigo, num dia futuro.
Beber aquela água, da mesma fonte,
até então envolta pela macegas de seus receios.

Estás de novo de volta.
Queres de novo a si mesma.
Retomar o tema do amor inacabado...
e a sinfonia da mulher que és.

Quem foi ela?
Onde estão aquelas manhãs?
Onde o sol brilhava diferente?
Quando a vida parecia ter a cor das horas?
Onde estiveste nesse exílio de ti?

Sim, percorrer os caminhos de volta...
É necessário ser.
Ou teu destino será ser apenas um resto de si?
E permanecer num eterno ter a fazer?

Eu hoje numa outra estação,
aguardo o comboio que te trás de volta.
Outra vida, outra plataforma.
Outra parada do além-sempre.
...da continuidade vital.
Da vida que sempre nos exige
o extrato contábil do ser nós mesmos.

Aguardo teu trem chegar
com a tranqüilidade na alma
de quem aprendeu que toda hora chega.
...e que o comboio sempre chega.

Tranqüilo na plataforma,
um homem diferente,
mas dentro de tua essência.
Dono de uma amor mais maduro.
Dono de mim, espero tua chegada.

Não, não é retorno.
É uma nova chegada.
É uma nova mulher
que encontra um novo homem
numa gare do destino.

O que persiste dentro de ambos é o amor.
O mesmo amado amor que ensinou a ser
Algo mais que a soma das vidas.
Que não se conteve dentro do frasco imposto
e, volátil, escapou, percolou os interstícios,
atravessou as distâncias e se misturou num éter
que sou eu e que és tu...
o dois-um transformado...
e que resiste a tudo.

Não... não existem recipientes que nos contenham!
Atravessaremos por todas as frestas...
Porque sempre haverá um meio
de recuperar a felicidade apenas adiada.

III

Você sabe onde está?
Ensina-me o caminho
para ir te buscar.
Eu preciso te encontrar
e te mostrar de ti.
Deitar minha voz em teus ouvidos.
Deitar meu olhar em seus olhos.
Sobre ti.
E fazer-te lembrar de ti.
Quem é você?
Ainda te lembra?
Percebes o exílio?
O que seria de ti
ao encontrar teu espelho
refletido em meus olhos.

Onde estão teus olhos?
Para onde olham agora?
E o que vêem?
Vislumbram o encanto das horas?
Percebem as cores da manhã?
Pressentem a magia dos momentos?
Sabem do toque intuído no bico do seio?
Sentem aquela emoção de encontrar o querido?
Do dia-após-dia que não cansa nunca?
Daquilo que sempre conduz a mais?

Ai... quanta saudade!
Quanta saudade de abranger-te, completa,
em meus braços.
Quanta ansiedade de saber-se pleno
de um amor infinito.

Não, não se corrói com a passagem das horas.
Não, não se dilui com o encanto das águas.
Eu estou aqui, renovado, mas teu.
Eu estou aqui e sou teu.
Espero o momento do reencontro,
pois sou teu,
permaneço teu,
sempre serei teu.

IV

Por que vacilas?
Fizestes tanto e agora
esboças desencanto.

Por que se embrenhar
nas malhas de seu medo?
Você já sabe que sempre é tarde,
Que nunca é cedo?

Que o momento é quando
se sente as veias palpitando.
E que o tempo deixado
jamais poderá ser reparado.

V

A noite traz-me o cheiro dos bálsamos.
O odor dos campos, a brisa das florestas.
As almas que pactuam o local do encontro,
acima das nuvens, por demais atalhos.

O fino eriçar dos pelos de tuas coxas.
O suave murmúrio oriundo de teu ventre.
De repente tudo é pele.
A seda das manhãs
tocadas pelo sol de inverno.
Noite e dia encontram-se no quarto.
O silêncio suburbano
entrecortado pelos fogos dos balões.

O fino estremecer dos músculos incautos.
O mover das pernas que abrem passagem
para que se mate a sede
de todos os dias aziagos.
O farfalhar das cobertas
num repente abandonadas ao lado.

VI

Um vale de luzes sob a janela.
Debruço na madrugada o meu hálito...
A febre de uma bronquite mal curada
a derramar espasmos sobre as estrelas.

Estou longe, sim, estou longe.
Nesta madrugada me perdes um pouco.
Sobra-me, no entanto, à luz das aparências...
Move-me a paz do silêncio através dos éteres.

Saio de mim, percorro as asas.
As vagas que incendeiam
as torres das refinarias
ao longe desse horizonte.

As contas dos colares das luzes da cidade.
O vento frio do último estertor de inverno.
O farol escarlate da usina.
A fumaça fabril do céu suburbano.

Estou aqui... estou aqui...
Estou longe do alcance de tuas buscas.
Longe do teu olhar e ouvido perscrutador.
Mas eu estou em teu silêncio
dessa noite de solidão,
vivência do desperdício,
da cidade, um precipício,
de ser mais uma noite vazia.

VII

As nuvens construíram um teto baixo...
sei que teu vôo perfura o céu
acima das nuvens.
Enquanto permaneço aqui
onde tudo é tão longe
e a viagem nunca começa.

Estou preso ao meu nada.
Atado ao rodapé dos vazios.
Onde eu tenho para ir?
Quais são os caminhos do vácuo?

Resta o amanhã de tudo:
as horas mortas de tuas tardes,
onde te lembres de ti;
onde juntas os fragmentos
e refaz-se o todo de ti.

Como se perder no cotidiano?
Fácil... quando o dia-a-dia apaga
o fogo de até mesmo existir.
- Não sou infeliz!
Mas não és feliz!

O que te resta na abundância?
Diga-me o dia de ir.
Abre a porta do teu endere
1 039

Para Ana

Conta-me o que houve...
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?

Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.

É verdade, o infinito e violeta?

Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.

Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.

Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.

791

Repouso em ti

Tu és meu leito.

A satisfação de um desejo realizado
Abraço teu corpo amado.

De novo um olhar ("te quero").

Torno a crescer dentro de ti

A magia do recomeço.

A orgia revisitada.

892

Poesia Diária

- Um digest diário sobre poesia em português.

O que traz este digest:

- poesias de autores que escrevem na língua
portuguesa;

- poesias estrangeiras traduzidas para o
português;

- poesias inéditas e novos poetas;

- ensaios, críticas sobre poesia;

- textos em prosa poética;

- biografias;

- notícias sobre prêmios e concursos;

- dicas sobre novos lançamentos em poesia;

- dicas para quem está começando a escrever;

- dicas sobre a poesia na Internet.

Se você gosta de poesia terá sempre contato com
uma seleção criteriosa e bem cuidada...

Se você é poeta, já tem trabalhos reconhecidos,
o Poesia Diária traz a oportunidade de troca de
experiências e conhecer os novos rumos...

Se você está começando agora, está querendo mostrar
seus poemas, integrar-se em grupos de poesia, conhecer
o caminho da poesia...

Se você é crítico de literatura precisa estar em
contato com o meio veloz da poesia cibernética...

Se você é editor, não pode deixar de atentar para
os novos talentos...

Existem várias razões para assinar Poesia Diária
e juntar-se a um grupo de 500 assinantes situados
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inscreva poesia.

1 123

Metamorfose Blues

O pensamento, essas mãos remotas
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o inatingível.

Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma das manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.

As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.

734

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