Clarice Lispector

Clarice Lispector

1920–1977 · viveu 56 anos BR BR

Clarice Lispector foi uma escritora brasileira, nascida na Ucrânia, conhecida pela sua prosa introspectiva e inovadora. Sua obra explora a condição humana, a identidade, o mistério da existência e a epifania do cotidiano. Com um estilo único, marcado pela subjetividade e pela fragmentação, Clarice mergulhou nas profundezas da consciência, revelando o indizível e o fluxo ininterrupto da vida interior. Sua escrita desafia classificações fáceis, transitando entre o fluxo de consciência, o existencialismo e uma profunda sensibilidade lírica.

n. 1920-12-10, Chechelnyk · m. 1977-12-09, Rio de Janeiro

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Meu Deus, me dê a Coragem

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.
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Poemas

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Estrela Perigosa

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

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Nossa Truculência

Quando penso na alegria voraz
com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência.
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.

Minha falta de coragem de matar uma galinha
e no entanto comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.

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Citações

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Comentários (5)

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Uma autentica poetisa... de assustar qualquer pessoa... seu canto de clamor a Deus, suas fraquezas e suas esperanças em sobreviver aos dias de cada ano de sua vida.

robertinho de roberto
robertinho de roberto

Clarice Lispector é Clarice Lispector! Sou há eras seu leitor! Imagino , ou melhor, invejo sua inteligência, aprendendo aqui, alí o seu saber dizer que me encanta!

Andréa Mascarenhas
Andréa Mascarenhas

Alguma referência / fonte para estes poemas?

hascabulusca
hascabulusca

que poema legal

Clarice Lispector, minha inspiração, que dom era esse de expor a alma?