Escritas

Lista de Poemas

Urbe

hoje na minha boca
não cabem girassóis

cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe

um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril

um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem

hoje na minha boca
cabe apenas o poema

o poema hóspede da agonia
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O surfista

um tempo

passa kombi
passa corpo
passa poste
passa árvore
e o menino pendurado na lanterna

dois tempos

passa moto
passa morte
passa gente
passa carro
e o menino pendurado na flanela

três tempos

passa ônibus-bicicleta-caminhão
pega brisa
pega onda
pirueta — flamboaiã
flexão — fio de cobre
e o menino pendurado na banguela

passa a via
passa o vulto
passa a vida
passa o passo
paira o ar
               sangue e vidro
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Tereza

mãos enormes
as de Geraldo
tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza
quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa
de varanda
e passar uma semana em bariloche
neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo
mãos enormes
as de geraldo
tão grandes que se espremem nas algemas
e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida
no carro do IML
para exame de corpo de delito
sob suspeita de estrangulamento
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DIFERENÇA

meu amor ouve fado
não rodopia
apenas baila e espreita.

eu gosto de tango.

minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
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o sol anestesia

o sol anestesia a dor e de dor é feito
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
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MORTE SOB CARBONO

a floresta (dentro
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta

nomes números nódoas

as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário

— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra

as velhas

acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
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O CAMINHO DA FACA

parte em arco
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga

cruza a dor, o sonho
escuta

zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes

parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança

desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade

pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
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UM CERTO SOL SOBRE SÃO PAULO

para maria josé oiticica


o sol se põe em são paulo

a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala

o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
                     espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair

o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
                     grito
teu nome de ateu

são paulo anda à margem

à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós

são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
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ladainha para alberto da cunha melo

para a alma do poeta que se foi
eu rogo ao poema que componha o silêncio

para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva

para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida

para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro

para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão

para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho

para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão

para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta

para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor

para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas

para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos

para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias

para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
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diáspora

abro os olhos
e a quarta-feira é cinza

as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel

é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício

diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão

sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão

abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto

a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
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