Lista de Poemas

Urbe

hoje na minha boca
não cabem girassóis

cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe

um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril

um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem

hoje na minha boca
cabe apenas o poema

o poema hóspede da agonia
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O ORIENTE DA CIDADE

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe

entre putas e pombos construí poemas
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Tereza

mãos enormes
as de Geraldo
tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza
quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa
de varanda
e passar uma semana em bariloche
neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo
mãos enormes
as de geraldo
tão grandes que se espremem nas algemas
e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida
no carro do IML
para exame de corpo de delito
sob suspeita de estrangulamento
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O surfista

um tempo

passa kombi
passa corpo
passa poste
passa árvore
e o menino pendurado na lanterna

dois tempos

passa moto
passa morte
passa gente
passa carro
e o menino pendurado na flanela

três tempos

passa ônibus-bicicleta-caminhão
pega brisa
pega onda
pirueta — flamboaiã
flexão — fio de cobre
e o menino pendurado na banguela

passa a via
passa o vulto
passa a vida
passa o passo
paira o ar
               sangue e vidro
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DIFERENÇA

meu amor ouve fado
não rodopia
apenas baila e espreita.

eu gosto de tango.

minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
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CÉU DE CONFEITEIRO

uma fatia de céu
é dada
nesta noite de maio

quinhão que cabe ao homem
que da janela espera

a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício

uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda

quinhão que cabe ao amor
em tempos de luas magras
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MORTE SOB CARBONO

a floresta (dentro
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta

nomes números nódoas

as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário

— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra

as velhas

acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
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O CAMINHO DA FACA

parte em arco
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga

cruza a dor, o sonho
escuta

zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes

parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança

desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade

pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
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o sol anestesia

o sol anestesia a dor e de dor é feito
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
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sombreiro

sombreiro braseiro sombreiro braseiro sombreiro
eiro eiro eiro eito eito eito sombreiro braseiro
sombreiro sombrabrasil sombrabobrasil
sombrabobrasilis brasilis brasilis
brasilis brasilis brasilis
sombrasilis silis
silis silis
sil sil sil
lis
lis
lis
somsemeiranembeira
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