Escritas

Lista de Poemas

Mocambo

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".

Mocambo
não é macumba do destino,
é teimosia de pobre,
é maldade de rico.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".

Mocambo,
semente brava
rolando do sertão
— flor ardente e ativa
brotando em lameirão.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga,
— "Ordem e Progresso".

Mocambo
tem menino barrigudo,
tem velho indolente
dos tempos coloniais,
que a civilização mocambeou,
pois, de novo,
o estrangeiro se aproveitou.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo" —

Mocambo
tem mãe de prenhez fácil,
de amor sem preconceito,
onde tudo cresce
sem urbanização,
sem asfalto, sem livro,
sem jardim, sem timão.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".

Mocambo
de amor bem agarrado,
de família comprimida,
com fácil união
de pele jambo e preta,
sob desembestado sol de tição.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".

Mocambo,
casa de anão,
cabendo brasileiro grande,
mulata de corpo bom,
que, sem charque, sem feijão,
tem busto bonito e oco pulmão.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".

(...)


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Asfalto

Quando andares cabisbaixo
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...

Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.

Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.

(...)

Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.

Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.

Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.

(...)

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In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Garoa em Pequim

Cai uma lânguida chuva em Pequim,
igual às nostálgicas chuvas que já vi;
vagarosa como o tédio,
dentro de um sombrio cinzento,
mergulhando em dúvida
a colorida alegria,
deixando meus olhos indecisos,
que procuram rever e fixar
a nítida silhueta milenar,
com a alma se debatendo para não ficar
entre as recordações da garoa paulista
e a envolvente realidade chinesa.

Debate-se meu ser apaixonado
entre o saudoso chuvisco paulista
e o véu úmido, cinzento e contínuo,
cobrindo a silhueta velha, nova e divina.

Cai lenta e persistente em Pequim
uma bruma afogando na abstração
minh'alma suspensa entre dois mundos,
atonando um desconhecido passado.
me afastando do indelével presente,
me levando a "Paulicéia Desvairada",
me trazendo a Pequim encantada.

Cai lenta uma chuva em Pequim,
pesando positivamente dentro de mim.

(...)


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Metamorfose de Minha Anatomia

Na espiral heterogênea da vida,
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.

Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.

Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.

Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.

(...)


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Martelo-Pilão

Malha, malhando,
malhando está,
o pilão não cessa,
não pode cessar.

Pão, pão,
martelo-pilão
Pão com pão
com fome é bom.

Motores, engrenagens,
correias, roldanas,
bancadas unidas
por eixos gerais.

Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.

Só param,
só cessam
quando convém
tocar
a sirene,
pela mão
do patrão.

Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.

Que apito estridente!
Estridente apito
no coração da gente
em cada um ecoou.

Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.

Malha, malhando,
malhando está.
Pesadas tonelagens
de milhões e milhares,
passando no malho,
que não cessa,
não pára,
não pode parar.

Pão, pão
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.

(...)


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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Questionário

Meus ávidos olhos fotografam sentimentos;
minhalma, porém, nem sempre os revela com exatidão
O certo é que sou um barco,
carregando uma crescente carga humana e ativa,
densa e colorida.
Trago evidente um contínuo horizonte,
embora proibido de aportar nos portos da sofreguidão.
(...)

Hoje, quando volto ao mundo do egoísmo,
ao mundo do medo e do fetichismo,
te peço, encantadora aeromoça,
de nebulosa e inconsequente expressão,
que respondas meu questionário informal,
proposto por meu conturbado coração:

Como apreciar-te,
Neste sorriso multi-adestrado?
Como encontrar-te,
nesta fosforescência do grande nada?
Como será tua meiguice
em tua bondade-assalariada?
Como será o brilho dos teus olhos
sem o reflexo dos "neons"
das más intenções?
Que dirás ao teu noivo,
ao teu marido, ao teu amante,
depois de multifazer tuas atenções,
depois de estudar
um mundo de feições,
depois de viver
tantas efêmeras aproximações?
Ainda tens noção profunda do que é a firmeza
em tua profissionalidade aérea?

Como sabes o que preferem;
se um sorriso sensual ou teu olhar de pureza?
Estarás feliz na rota íntima que vôas?
Poderás voar ao além do pão de cada dia,
ao além dos "nylons" que te amaciam,
ao além dos cosméticos que te escondem?
....................................................
Venho voando dum mundo
de curtas asas para ilusões
e encontro teus olhos
perdidos em "neons".

Aeroporto de Zurich, 22/10/1962


In: Nossa Voz, São Paulo, 29 nov. 196
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