Escritas

Lista de Poemas

Marpalavrilhar

e sombras, e enraizar coisas
e esse existir sempre, que não existia antes de ser imaginado
maior enigma que todos
como se fosse possível ter uma foto
nada, entre

balbucios, espaços entrecortados de sílabas, correntes de
prefixos, de ventos, assoprados por rimas, como se
houvessem dedos que procurassem segurar as cordas de uma
lira de areia, os enganos, as mentiras, os uivos, os olhares
lançados por maiúsculas, vôo de sinônimos, política das
relações oblíquas dos fonemas, prazeres guturais,
palatais, sibilantes, recurvados entre o balaústre de
hemistíquios, ávidos de presa, em seu pequeno choro
consonantal, nasal, linguodental, a epifania do som perfeito
da glota na invocação dos mistérios, vogais abertas ao ritmo
solar da andadura, pausa e percussão ocultas na cor da rima obscura,
ó falar dos gênios, em ão, em inhas, até o Poder. Ah! ervinhas a quem,
somente tu, Inês, dizias o nome que no peito, oculto tinhas.

"O perfume que dali se exala, já a deusa".

Nas palavras há galáxias distantes, onde talvez existam
estrelas em torno das quais girem planetas, fecundos
habitados por formas que desconhecemos, estrelas mortas,/
formadas

por desejos
iguais aqueles

necessários às reticências
distintos desses continentes que foram descobertos pelos
navegantes, na superfície do Planeta, apenas na forma em que
se apresentam, em mapa

onde cada ilha, arquipélago, promontório ou continente
submerge em um mar ausente, semelhante às coisas expostas ao
esquecimento, na luz do entardecer, além de qualquer
descobridor, entes aos quais não se pode ir ter com eles e
ao seu navegante o que cabe é criá-los, pelo dom que tem o
nome, ao ser dado às coisas

Marfim

Nota do Poema marpalavrilhar

" O perfume que dali se exala, já a deusa"
Castilho, "Amor e Melancolia"

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Chega a ser confortável a vida daqueles habitantes

Chega a ser confortável a vida daqueles habitantes
que vivem ao longo da Estrada de Ferro Transvesuviana,
que leva às ruínas de Pompéia e que contemplam
do alpendre, nas janelas, entre as venezianas
a cratera
no vértice rombo da montanha hiante.

O que nos resta é menos.
A esperança da dúvida.
Jamais saberemos por que o que existe existe.

A História é prima da histería.

Nota do poema "Chega a ser confortável ..."
Sétimo verso : "Rombo". Vale registrar, cf Silveira Bueno in " Grande Dicionário Etimológico e Prodódico da Língua Portuguesa", Vol. 7 2a. Tiragem, Ed. Saraiva, 1968, P.3751, o seguinte:
"Entre os mágicos da antiguidade, o rombo era um fuso de bronze, com que faziam encantamentos, prediziam o futuro, etc... O Gr. Rhombas da raiz rhombein, fazer gritar".

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Terramarear

No convés
o vento batendo no meu rosto,
eu pensava nas coisas que aconteciam
e acreditava
que a vida no mar é saudável.

A mão estendida para o mastro,
o barco cruzando o oceano.

Tinha treze anos e partia
em busca de glória e aventura.

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Réquiem para Alfonso Dellelis

O sentido é simples. Querer dizer como era do teu olhar a
música, é dizer isso.

Na hora em que uns trabalhadores enterravam teu cadáver
era, tua, essa, a música que se ouvia.

Eles nos olhavam com olhar igual ao teu quando olhavas,
embora a quase todos isso passasse desapercebido.

No momento em que o caixão começou a descer, dentro da cova,
muitas pessoas choravam. Pensou-se até em um padre. Imagine!

De dentro do buraco, o coveiro, em um mirar ausente
de qualquer reverência - há um corpo a enterrar, eis tudo -
é que olha com expressão igual ao teu olhar quando
miravas.

Estavas era morto. Era isso que o teu olhar no dele nos
dizia.

E então, inexplicavelmente, pareceu que o instante
foi varado de luz, e que ali, afirmando apenas
que estavas morto e que isso era isso, enfim triunfavas.

Nota do Poema Réquiem para Alfonso Delellis

Líder (ou como ele dizia, "lide") sindical.Presidente do
Sindicato dos Metalúrgicos de S. Paulo, foi preso em
janeiro de 1964 distribuindo panfletos socialistas,
num quartel do exército. Por interferência direta
do Presidente João Goulart, foi solto em
fevereiro. Assim que saiu, procurou Luiz Carlos
Prestes, Presidente do Partido Comunista, ao qual
estava filiado, e lhe relatou o que vira, na prisão: Os
militares preparavam um golpe. E Prestes:"Isso é
impossível.O exército brasileiro é popular e
democrata". "Como? Por quê?",ele quis saber. "Eu sou
oficial do Exército Brasileiro.Eu sou popular e sou
democrata", declarou o Cavaleiro da Esperança.
Antes que findasse o mes de março, Dellelis embarcou em
um navio para ir exilar-se na URSS.

Voltou ao Brasil antes da anistia e começou tudo de
novo, clandestinamente. Sua existência foi toda
consumida nessa luta.

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Estranha Desordem

Sou um jogo de espelhos
e a morte não irá interromper isso.
Apenas
o vinho poderá embaçar um pouco
todas as imagens.

Vivi uma vida estranha.

E haviam sempre uns olhares,
uns detalhes,
uma coisa que era realmente estranha.

Era tudo tão rápido, eu era tão pálido
e as pessoas viviam
dizendo
"você faz o que você quer"

E eu queria. Mas também com todas aquelas
lanchonetes
e ainda queriam que eu fosse desses
que entendem e vivem tudo isso
e moram em apartamentos
e vêem televisão e fumam cigarros.

(cont.)

Eu buscava uma luz,
o pé dentro do sapato,
tudo muito normal,
só que era mesmo, realmente, uma coisa estranha.

Eu era um triste, um simples
queria era pegar, tocar, mais
era tocar,um jeito,
Queria era que as coisas chegassem
com um barulho dágua
bem com um jeito
realmente não dá para explicar.

Depois, eu sei que tudo é muito resumível
e haviam sempre as coisas,
os números,
e as pessoas ficavam
olhando umas para as outras
explicando
como se somam as frações,

É claro que algo sempre escapava
e ficava vagando
pelo meio da sala,
desconfortável.

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