Escritas

Lista de Poemas

A Grande Dor Das Cousas Que Passaram

A grande dor das cousas que passaram*
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.

Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.

Ó bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo a minha voz

para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!
* Verso de Camões. (N. A.)
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Triste Horizonte

Por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia
e continua, branda: Volta lá.
Tudo é belo e cantante na coleção de perfumes
das avenidas que levam ao amor,
nos espelhos de luz e penumbra onde se projetam
os puros jogos de viver.
Anda! Volta lá, volta já.
E eu respondo, carrancudo: Não.
Não voltarei para ver o que não merece ser visto,
o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser.
Não o passado cor-de-cores fantásticas,
Belo Horizonte sorrindo púbere núbil sensual sem malícia,
lugar de ler os clássicos e amar as artes novas,
lugar muito especial pela graça do clima
e pelo gosto, que não tem preço,
de falar mal do Governo no lendário Bar do Ponto.
Cidade aberta aos estudantes do mundo inteiro, inclusive Alagoas,
“maravilha de milhares de brilhos vidrilhos”
mariodeandrademente celebrada.
Não, Mário, Belo Horizonte não era uma tolice como as outras.
Era uma provinciana saudável, de carnes leves pesseguíneas.
Era um remanso muito manso
para fugir às partes agitadas do Brasil,
sorrindo do Rio de Janeiro e de São Paulo: tão prafrentex, as duas!
e nós lá: macio-amesendados
na calma e na verde brisa irônica…

Esquecer, quero esquecer é a brutal Belo Horizonte
que se empavona sobre o corpo crucificado da primeira.
Quero não saber da traição de seus santos.
Eles a protegiam, agora protegem-se a si mesmos.
São José, no centro mesmo da cidade,
explora estacionamento de automóveis.
São José dendroclasta não deixa de pé sequer um pé de pau
onde amarrar o burrinho numa parada no caminho do Egito.
São José vai entrar feio no comércio de imóveis,
vendendo seus jardins reservados a Deus.
São Pedro instala supermercado.
Nossa Senhora das Dores,
amizade da gente na Floresta,
(vi crescer sua igreja à sombra do Padre Artur)
abre caderneta de poupança,
lojas de acessórios para carros
papelaria, aviário, pães de queijo.
Terão endoidecido esses meus santos
e a dolorida mãe de Deus?
Ou foi em nome deles que pastores
deixam de pastorear para faturar?
Não escutam a voz de Jeremias
(e é o Senhor que fala por sua boca de vergasta):
“Eu vos introduzi numa terra fértil,
e depois de lá entrardes a profanastes.
Ai dos pastores que perdem e despedaçam
o rebanho da minha pastagem!
Eis que os visitarei para castigar a esperteza de seus desígnios.”

Fujo
da ignóbil visão de tendas obstruindo as alamedas do Senhor.
Tento fugir da própria cidade, reconfortar-me
em seu austero píncaro serrano.
De lá verei uma longínqua, purificada Belo Horizonte
sem escutar o rumor dos negócios abafando a litania dos fiéis.
Lá o imenso azul desenha ainda as mensagens
de esperança nos homens pacificados — os doces mineiros
que teimam em existir no caos e no tráfico.
Em vão tento a escalada.
Cassetetes e revólveres me barram
a subida que era alegria dominical de minha gente.
Proibido escalar. Proibido sentir
o ar de liberdade destes cimos,
proibido viver a selvagem intimidade destas pedras
que se vão desfazendo em forma de dinheiro.
Esta serra tem dono. Não mais a natureza
a governa. Desfaz-se, com o minério,
uma antiga aliança, um rito da cidade.
Desiste ou leva bala. Encurralados todos,
a Serra do Curral, os moradores
cá embaixo. Jeremias me avisa:
“Foi assolada toda a serra; de improviso
derrubaram minhas tendas, abateram meus pavilhões.
Vi os montes, e eis que tremiam.
E todos os outeiros estremeciam.
Olhei para a terra, e eis que estava vazia,
sem nada nada nada.”

Sossega, minha saudade. Não me cicies outra vez
o impróprio convite.
Não quero mais, não quero ver-te,
meu Triste Horizonte e destroçado amor.
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O Nariz do Morto

— Olha. O nariz do morto! — que nariz
e que morto? Que piada mais sem graça
é esta? — Não, senhor. É o Vilaça
(Antônio Carlos) com seu livro duro
e triste, machucante — almofariz
em que mói a si próprio e se destrói,
para ressuscitar ainda à procura
de seu rumo, indefesa criatura
solta ao vento da vida. Quer a paz?
Quer a guerra interior, ou foge dela?
Entre cacos de vida, Sigismundo,
numa doçura mista de amargor,
de letras e leituras faz seu mundo.
Há de salvá-lo não a fé; talvez
o raio impressentido de um amor.
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Folheando Disegni, de Kantor

Kantor:
o desenho torna-se modo de possuir as coisas
o desenho torna-se modo de absorver a coisa
o desenho torna-se modo de viver a coisa
o desenho torna-se modo de oferecer a coisa
em sua realidade não circunstancial.

Kantor:
a palavra torna-se a última projeção do desenho
a palavra transporta o desenho para o sentimento do desenho
a palavra incorpora-se ao desenho
a coisa o desenho a palavra
fundem-se em generosa radiação.

Kantor:
invade o país dos signos e deles faz sua mansão.
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Antibucólica 1972

— Até a clorofila?…

— Sim, senhor:
até a clorofila entra na fila
dos poluidores. Diz-nos um doutor
de Illinois que, em matéria de monóxido
de carbono, a graminha é uma parada.

Aparemo-la então, que em disparada
a relva, no jardim ou em depósito
no quarto de dormir (sei lá) é o mesmo
que automóvel queimando gasolina.

— A sina, pois, do mundo, é sem remédio?
Se da fumaça escapo, e rodo a esmo
pelos parques cisneiros da cidade,
trato de preparar meu epicédio,
pois o verde de amigo fez-se inimigo
e me leva, com toda a falsidade,
para o último hotel, vulgo jazigo.

Nó mais, verde, nó mais, que a língua tenho
(Camões que me perdoe, com seu engenho)
acidulada e a voz enrouquecida.
Já tusso, já sufoco, já me vejo
na horizontal postura inarredável
só de papar um mísero legume
ou de alecrim cheirar meigo perfume
que esconde no seu seio algo terrível.

Ah, natureza má que me enganavas,
fingindo-te benigna: vai às favas
e que as favas te sejam bem letais,
que de árvores, arbustos, tenras folhas,
tudo isso que polui, não quero mais
saber. Não são usinas gigantescas,
bombas, resíduos mil, restos largados
à flor das águas em sinistras bolhas
que corrompem a vida que vivemos.
É a grama, o capim, leve, ondulante,
forma que o vento curva a seu talante,
e que, ao perecer, nos envenena
o ar, desprendendo o tóxico tremendo.
É grama, é folha, é rama, ó Tom, é planta,
são as flores de março… mas que pena.

Bonito, vegetais; é isso aí?
Em vez de fotossíntese, vocês
fotossujeira operam na atmosfera?
Já era a pura estampa virgiliana
sub tegmine fagi (leia-se: oiti),
nos braços de Amarílis ou de Inês?
Emudece a canção, flauta de cana,
e foge, pastor meu, dos verdes campos,
previne os bois, avisa os pirilampos,
que a coisa não está de brincadeira.

A poluição, sabe-se agora, é velha
mais do que o homem. E não será o homem
freguês da poluição, em vez de autor?
Por pessimista, rogo, não me tomem,
nem quero ser tachado de farsista:
se tudo é poluição, até na flor,
no vergel, no quintal, seja o que for,
tratemos com a máxima presteza
de redigir político tratado:
teremos cativado a natureza,
convindo em que convivam lado a lado
o homem e a poluição fazendo amor.
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Joan Crawford: In Memoriam

No firmamento apagado
não luciluzem mais estrelas de cinema.
Greta Garbo
passeia incógnita a solidão de sua solitude.
Marlene Dietrich
quebrou a perna mítica de valquíria.
Joan Crawford,
produtora de refrigerantes, o coração a matou.
O cinema é uma fábula de antigamente
(ontem passou a ser antigamente)
contada por arqueólogos de sonho, em estilo didático,
a jovens ouvintes que pensam em outra coisa.
O nome perdura. Também é outra coisa.
Tudo é outra coisa, depois que envelhecemos.
E não há mais deusas e deuses. Há figurinhas
móveis, falantes, coloridas, projetadas
no interior da casa. Não saem nunca mais,
enquanto se esvazia o céu da Grécia
dentro de nós — azul já negro, ou neutra-cor.
Joan, não beberei por ti, à guisa de luto,
nenhum líquido fácil e moderno.
Sorvo tua lembrança
a lentos goles.
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A Falta de Erico Verissimo

Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda — como tarda!
a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.
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Ataíde À Venda?

— Quanto quer pelo Ataíde?
fala ao padre lazarista
o emissário paulista
de olhar guloso na “Ceia”
que na aguda serrania
ilumina qual candeia
as ruínas do Caraça.
Dou duzentos, dou quinhentos,
oitocentos mil cruzeiros
por esse quadro… — Não, não!
— Já que estou com a mão na massa,
reforço meus argumentos,
ofereço-lhe um milhão.
Pintura aqui nesses altos,
na friúra desolada
destas rocas, destes longes,
não tem sentido nem vez.
Só peregrinos e monges
podem curti-la. Melhor
é levá-la quanto antes
para o conforto envolvente
do Palácio Bandeirantes.
— Já disse: não. — Ah, desculpe,
prefere que se desfaça
a obra de Mestre Manuel
no desgaste que lhe inflige
o dente roaz do Tempo
em sua faina cruel?
Quer ver Cristo desbotado,
carcomido, atomizado,
mancha pálida no pano?
Seus bem-amados discípulos,
sua mesa, seu pão ázimo,
sua colação simbólica,
sua postura litúrgica,
e sua mensagem mística,
sumindo, pasto de traça,
de cupim e de pobreza,
neste sem-fim do Caraça?
— Deus é grande… — Deus ajuda
a quem, esperto, madruga.
E daí, meu padre, atente
que milagre brasileiro
anda bastante vasqueiro.
Pegue logo esse dinheiro
e com ele faça obras,
obras, obras e mais obras
que a casa do Irmão Lourenço
está pedindo, e que, feitas,
serão atrativo imenso
à multidão de turistas.
Bote piscina, playground,
cassino — um “Monte Cassino”,
bote som sofisticado
com Raquel Welch e quejandas
bailando pelas varandas!
— Jamais… — Jamais? Que pecado,
recusar a minha oferta!
Eis que outro sacerdote,
de mansinho e de oiça alerta,
já sonhando com um caixote
só de notas de quinhentos
abarrotando a arca murcha
da magra comunidade,
puxa o primo pela manga,
sussurra-lhe: — É bom negócio.
Deus decerto não se zanga,
se vige a necessidade.
Os dois discutem: — Não, não.
— Ora essa, meu irmão.
Vai-se a pintura, mas fica
a nossa vida segura.
Já se criam dois partidos
entre os padres pressionados
e já novos compradores
em enxames voadores
e propostas tentadoras
ferem o doce silêncio
em que, à tarde, ressoa
a melodia dos poemas
de Henriqueta Lisboa
sobre a vívida montanha.
Vende, não vende. Vendemos?
Que vale ter Ataíde
e não ter teto e parede?
Ser um sacrário de arte,
a mais pura arte mineira,
orgulho do nosso Estado
e da alma brasileira,
sem ter como restaurar
a velha casa de ensino
onde ensinamos a amar
as criações do passado?
Debatem os lazaristas
o grave dilema, enquanto
Manuel da Costa Ataíde
e sua tela, suprema
esperança de resgate
da indigência caracense,
viram tema de comércio.
Corre, corre, Aureliano,
vai, Conselho de Cultura,
depressa, Assembleia, vai,
salva os padres agoniados
da prontidão que os achaca,
e salvando-os, preservando-os
da mercantil ameaça,
salva a arte, salva a glória,
salva o máximo tesouro,
a riqueza que não passa:
Cristo-Ceia do Caraça!
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A Lourdes E Cassiano Ricardo

No jardim cassiano
a florida acácia
de cassa vestida
translúcida
luz de lourdes lua
luaramar
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Um Lírio, Por Acaso

E de repente Santa Teresinha
— quem diria? — faz 100 anos.
Ela que tem sempre 24
nas estampas dos gay twenties.

Santa do modernismo brasileiro,
do altar particular de Ribeiro Couto,
a quem curaste de tuberculose,
a tuberculose de que morreste,
santa invocada por Manuel Bandeira:
“Santa Teresa, não, Teresinha.
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!”
Não o atendeste, amiga Teresinha…

O poeta se queixava:
“Fiz tantos versos a Teresinha…
Versos tão tristes nunca se viu!
Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
era tão pouco! Não era glória…
Nem era amores… Nem foi dinheiro…
Pedia apenas mais alegria:
Santa Teresa nunca me ouviu!”

A ti nada pedi, mas simpatizava
com teu jeito simples de ser santa
do nosso tempo de incredulidade,
tempo de ciências exatas, Marx, anarquismo.
(Os ateus brasileiros levam sempre um santinho no bolso,
nossos comunas quando morrem, a família reza missa
de sétimo dia e de trigésimo.)
Simpatizava, simpatizava contigo
lendo tua autobiografia na tradução do padre Lochu
antes que me expulsassem do colégio
com a aprovação do próprio tradutor.

Naquele tempo
as autobiografias dos santos eram censuradas
e eu não sabia que foste
carmelitanamente precursora
do feminismo:
“Ah, pobres mulheres, tão desprezadas!
A todo instante nos proíbem:
Não faça isto, não faça aquilo,
e ameaçam excomungar-nos…”
Suave santa brasileira
por graça do diminutivo
que te fazia baiana, carioca, uberabense
(quem ousou um dia falar Santa Isabelinha, Santa Margaridinha?),
muito mais próxima de nós, em Lisieux,
do que a filha de Capistrano clausurada
ali no Morro,
e tão novinha
que dava oportunidade de dizer
a um senhor de 60 anos, na Avenida:
“Esta santa, mais moça do que eu…”
Então podemos todos ser santos?
Os santos não são apenas medievais,
predestinadíssimos, raríssimos,
para realçar ainda mais
nossa impossibilidade de pureza
ou para resgatá-la?

Vez ou outra eu ruminava essas coisas
enquanto ia chafurdando e esquecendo
a nostalgia de ter tido
o desejo, não digo de ser santo,
mas apenas o franciscano encapuzado
que assiste ao enterro do Conde de Orgaz
junto de Santo Agostinho e Santo Estêvão
na tela fantástica do Greco,
ou um dos pescadores no políptico de São Vicente,
de Nuno Gonçalves ou Hugo van der Goes, que sei eu,
aquele pescador quase de bruços
no painel da esquerda.

Já nem sei, minha santa,
qual o teu papel na Igreja contestante
de setenta,
és talvez, tão bonita, tão menina,
frágil demais para o serviço que se exige
do novo Cristo combatente,
mas a doçura não é arma também,
a seu tempo e seu modo, no combate?

Reparo agora,
já não és menina, és centenária,
ou assim te conta o tempo a vida breve,
e tenho de chamar-te vovozinha,
vovozinha Teresa do Carmelo,
de mel no nome e de ternura acesa
no coração de um distraído agnóstico,
ao abrir o jornal e nele ver
três linhas com teu nome,
entre os nomes de Hanói e de Manágua,
como um lírio nascido por acaso.
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Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
2024-05-15

Um pouco mais Drummond na vida.

Bruna de Castro Alves
Bruna de Castro Alves
2023-10-28

Conheci este poema aos 12 anos e ele me tocou profundamente. Na época pensava sobre Hiroshima, mas sua sagacidade abriu minha consciência para o horror do poder e da perversidade humana. Viva Drumond!

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2023-08-27

O eterno poeta... o maior , o mias belo... o imortal encantador.