Cançoneta
Era um homem que andava indeciso
em viver na planície ou na serra.
Ponderou-lhe um velhinho de siso:
Já falou ao ministro da guerra?
Outro tipo queria somente
cultivar seu pedaço de terra.
Uma voz lhe soprou, suavemente:
Quem resolve é o ministro da guerra.
Um cristão de bigode e voz grossa
vai casar, e eis que tudo lhe emperra.
Num suspiro, a consciência diz: Nossa!
Que diria o ministro da guerra!
O brotinho, mal vence o concurso,
foge ao flash e em mosteiro se encerra
se lhe indaga um amigo (onça ou urso):
Quem mediu: o ministro da guerra?
Um compadre mui douto deseja
reformar o estatuto, mas berra
o moleque, na esquina: Ora veja
lá por trás o ministro da guerra!
Deputado já velho e sabido
à lonjura de Sirius se aferra.
Mesmo assim, quem escapa ao ruído,
ao clarão do ministro da guerra?
Peixe vivo, voador, diamantino,
a saltar entre o Cairo e Belterra,
não escutas bater este sino:
pescador é o ministro da guerra.
19/05/1956
Cantiga
Claro janeiro antigo e sempre novo,
segue a esperança, fluida, no teu rumo.
Por que, entre as alvíssaras do povo,
aumentar-nos o imposto de consumo?
As rosas de Iemanjá, na praia cheia,
no mar ignoto, enquanto a noite gira,
são preces amorosas sobre a areia,
meiga verdade, feita de mentira.
Não desencantes tanto encantamento
a florir no céu mágico e nas almas.
Aqui te deixo meu requerimento:
dá-nos manhãs azuis e tardes calmas.
Dá-nos, janeiro, paz (não muita, ou morta,
que o coração exige certo fogo):
faze que esteja aberta a grande porta
ao que for belo e bom, eis nosso rogo.
Para os dois garotinhos inda à espera
que a justiça abra os olhos, meu janeiro,
dá-lhes as mães exatas, primavera
a se multiplicar pelo ano inteiro.
Aos dez mais e às dez mais… que lhes darias,
se eles têm tudo? ou falta-lhes paciência
para aumentar a sucessão dos dias
ocos, por sob a frívola aparência?
Aos milhões menos, nada lhes prometas
que não queiras cumprir: janeiro, é sábio
acabar de uma vez com velhas tretas
e, à falta de canção, cerrar o lábio.
Mas não quero cerrá-lo sem que peça
nove dias de sol para um de chuva,
um compromisso idoso ao dr. Lessa,
menos mosquito e mais laranja e uva.
Não aumentes, janeiro, o meu cinema,
leva contigo o tal cinemascópio,
mas deixa em Laranjeiras e Ipanema
a barateza alegre deste ópio.
E finalmente, amigo, sê cordato,
superlegal e, sobretudo, ordeiro:
batendo o 31, passa o mandato
ao nosso caro mês de fevereiro.
01/01/1956
Curral do Conselho
Aqui se recolhem
os animais vagantes
em ruas estradas logradouros públicos
e os de qualquer natureza
encontrados em plantações
pastos
alheias terras
com ou sem dono conhecido.
(Anexo-dependência do Matadouro.)
Aqui se reúnem
a um passo, a uma parede,
a uma cerca baixa
da morte
os bichos errantes.
E formam nova sociedade.
A sociedade do depósito.
Aqui se espera
uma sorte qualquer
ou nenhuma.
Se passam para o outro lado
e são abatidos?
Se apodrecem aqui mesmo
ou fogem?
Quem virá buscá-los e para quê,
a burros velhos que não valem
o capim-gordura e o milho prêmios,
e a cachorros cegos de lazeira
desaprendidos de latir?
Aqui o Hotel do Fim, ao lado
o Matadouro, meta de ouro.
Proibições
Não galope sem razão,
nem faça galopar animais soltos
no calmo perímetro urbano.
Não faça, oh não faça
gritaria a desoras
salvo por motivo justificado.
Não invente batuque ou cateretê
que infernize o sono do vizinho.
Não cante ou reze alto, noite alta,
ao velar seu defunto.
Não escale muro de cemitério.
Não suba nas árvores das aleias e nos monumentos
funerários.
Não lave nem estenda roupa branca
entre os túmulos.
Verão
Pedes, amigo, novas da cidade
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
Sete Dias
Ó Musa semanária, que divisas
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
Portão
O portão fica bocejando, aberto
para os alunos retardatários.
Não há pressa em viver
nem nas ladeiras duras de subir,
quanto mais para estudar a insípida cartilha.
Mas, se o pai do menino é da oposição
à ilustríssima autoridade municipal,
prima da eminentíssima autoridade provincial,
prima por sua vez da sacratíssima
autoridade nacional,
ah, isso não: o vagabundo
ficará mofando lá fora
e leva no boletim uma galáxia de zeros.
A gente aprende muito no portão
fechado.
Libertação
Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.
Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.
Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.
Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.
O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.
JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.
Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!
Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.
À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas
(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.
Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.
Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.
Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?
Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.
Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.
Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.
Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.
Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.
Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)
Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
Terapia Ocupacional
A enxovia
fascina
a peneira
colorida
a gaiola
de taquara
o boneco
de engonço
o riso
dos presos
o embaixo
da vida.
A enxovia
dando para o ar livre
casamento de luz e miséria
imanta o menino
a voz do assassino
é um curió suave
propondo a venda
de um girassol de trapo.
Os Assassinos
Os assassinos vêm de longe.
Vêm do Onça, do Periquito, das Bateias,
da Serra do Alves.
Sangue seco nos dedos, olhar duro,
na roupa o crime escrito.
Os assassinos alçam a foice
na curva da estrada. A gameleira
conta o que viu e foi um brilho desabando
na entranha do inimigo.
Estavam destinados a matar.
Mamaram leite turvo.
Na escola eram diferentes.
As namoradas estranhavam
seus beijos sem doçura.
A terra decidiu que matassem.
Cumpriram, sem discutir.
Júri mais concorrido do que missa.
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas