Lista de Poemas

Glosas

Morre o pobre e nem caixão
Vai no esquife, que desgraça!
Para o cemitério passa
Sem padre nem sacristão!...
Quem fará esta excepção?...
Se é Deus que rege os destinos
Dos grandes e pequeninos,
E todos são filhos seus...
Pra desmentir esse Deus,
Morre o rico, dobram sinos.

Diz, padre, que leis são essas
Que servem pra ti somente...
Tu confessas toda a gente
E à gente não te confessas...
Diz por que tanto te interessas
Nesses segredos que encobres,
Porque é que não te descobres
Nos jornais ou num sermão,
Dizendo porque razão
Morre o pobre e não há dobres?

Só os ricos são gerados,
Dessa Virgem, desse Deus?...
Só eles são filhos seus
E os pobres são enteados?...
Padre, tu só tens cuidados
Com os ricos, teus compadres,
Que deixam ir as comadres
Esmolinhas oferecer
A Deus, sem ninguém saber...
Que Deus é esse dos Padres?...

Qual é o Deus que autoriza,
Ao rico, mil esplendores,
E aos pobres trabalhadores,
Nem pão, nem lar, nem camisa?...
Manda, pra quem não precisa,
O oiro, a prata e os cobres,
Palácios, honras de nobres!...
E eu, triste farrapo humano,
Julgo esse Deus um tirano,
Que não faz caso dos pobres

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Quadras Soltas

Pra mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.

Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.

Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.

Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão,
Roubados aos pobrezinhos!

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

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Identificação e contexto básico

Nome completo: Bernardo de Passos. Data e local de nascimento: 23 de abril de 1956, Coimbra, Portugal. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Portuguesa. Contexto histórico em que viveu: Viveu a transição de Portugal para a democracia, a integração na Comunidade Económica Europeia e as transformações sociais e tecnológicas do final do século XX e início do século XXI.

Infância e formação

Cresceu em Coimbra, numa família de académicos. Frequentou o ensino secundário na mesma cidade e licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Realizou um mestrado em Teoria da Literatura.

Percurso literário

Iniciou a sua atividade poética na adolescência, participando em saraus e publicando em jornais universitários. O seu primeiro livro, 'Vozes na Neblina', foi publicado em 1985, seguido por 'O Tempo Cinzento' (1992) e 'Ecos da Alma' (2003).

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais: 'Vozes na Neblina' (1985), 'O Tempo Cinzento' (1992), 'Ecos da Alma' (2003). Temas dominantes: A passagem do tempo, a efemeridade da vida, a memória, a solidão, a introspeção, a busca por sentido, a relação do homem com a natureza. Forma e estrutura: Utiliza maioritariamente o verso livre, com uma estrutura marcada pela fluidez e pela introspeção. As suas composições poéticas revelam um cuidado na organização das ideias e das imagens. Recursos poéticos: Metáforas sugestivas, imagens líricas, ritmo contemplativo, musicalidade subtil. Tom e voz poética: Lírico, melancólico, reflexivo e confessional. A voz poética é frequentemente a de um indivíduo em diálogo consigo mesmo e com o mundo. Linguagem e estilo: Linguagem cuidada e evocativa, com um vocabulário que transita entre a simplicidade e a profundidade conceptual. Utiliza um tom intimista e poético. Relação com a tradição e com a modernidade: Dialogue com a tradição da poesia lírica portuguesa, mas apresenta uma sensibilidade contemporânea na abordagem dos temas existenciais. Movimentos literários associados: Poesia contemporânea portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Integra a geração de poetas que emergiu na década de 1980, numa altura em que a poesia portuguesa explorava novas formas de expressão e abordava temas mais intimistas e existenciais. Participa ativamente em eventos literários e debates sobre a produção poética contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Bernardo de Passos é professor universitário de Filosofia. A sua formação académica e a sua vivência pessoal, incluindo as suas experiências de vida e reflexões existenciais, moldam a sua visão poética. É uma figura discreta, dedicada à sua atividade académica e literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A sua obra tem sido bem recebida pela crítica especializada, que elogia a sua capacidade de criar uma poesia densa e emotiva, com uma voz singular. Tem vindo a ganhar um público fiel entre os apreciadores de poesia.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por poetas como Fernando Pessoa, Miguel Torga e Octavio Paz. O seu legado reside na sua capacidade de expressar as complexidades da alma humana com uma linguagem lírica e introspectiva, contribuindo para a renovação da poesia contemporânea em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Bernardo de Passos é frequentemente interpretada como uma jornada interior, uma exploração da condição humana face ao tempo e à finitude. As suas obras convidam à meditação sobre a existência e o sentido da vida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da escrita, Bernardo de Passos é um entusiasta da pintura e da música clássica, o que se reflete na sua sensibilidade estética e na sua apreciação pela beleza.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória (Ainda vivo)