Lista de Poemas

Uma litania para a sobrevivência

Para aqueles entre nós que vivem no litoral
em pé frente às arestas constantes da decisão
cruciais e sós
para aqueles entre nós que não podem dar-se ao luxo
dos sonhos passageiros da decisão
que amam de passagem por soleiras
nas horas entre auroras
olhando para dentro e para fora
no instante antes e depois
buscando um agora que possa gerar
futuros
como pão na boca de nossos filhos
para que seus sonhos não reflitam
a nossa morte:
Para aqueles entre nós
que foram impressos com o medo
como uma linha tênue no centro de nossas testas
aprendendo a temer com o leite de nossas mães
pois por esta arma
esta ilusão de alguma segurança a ser achada
os de passos pesados esperavam silenciar-nos
Para todos nós
esse instante e esse triunfo
Nunca fomos destinados a sobreviver.
E quando o sol se ergue temos medo
que talvez não permaneça
quando o sol se põe temos medo
que talvez não se erga de manhã
quando nossos estômagos estão cheios temos medo
da indigestão
quando nossos estômagos estão vazios temos medo
que talvez nunca mais comamos
quando nós amamos temos medo
que o amor desaparecerá
quando estamos sós temos medo
que o amor jamais voltará
e quando falamos temos medo
que nossas palavras não sejam ouvidas
nem benvindas
mas quando estamos em silêncio
ainda assim temos medo
Então é melhor falar
lembrando-nos
de que nunca fomos destinados a sobreviver
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
A litany for survival
Audre Lorde
For those of us who live at the shoreline
standing upon the constant edges of decision
crucial and alone
for those of us who cannot indulge
the passing dreams of choice
who love in doorways coming and going
in the hours between dawns
looking inward and outward
at once before and after
seeking a now that can breed
futures
like bread in our children's mouths
so their dreams will not reflect
the death of ours:
For those of us
who were imprinted with fear
like a faint line in the center of our foreheads
learning to be afraid with our mother's milk
for by this weapon
this illusion of some safety to be found
the heavy-footed hoped to silence us
For all of us
this instant and this triumph
We were never meant to survive.
And when the sun rises we are afraid
it might not remain
when the sun sets we are afraid
it might not rise in the morning
when our stomachs are full we are afraid
of indigestion
when our stomachs are empty we are afraid
we may never eat again
when we are loved we are afraid
love will vanish
when we are alone we are afraid
love will never return
and when we speak we are afraid
our words will not be heard
nor welcomed
but when we are silent
we are still afraid
So it is better to speak
remembering
we were never meant to survive
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Fogo pendente

Tenho quatorze anos
e minha pele me traiu
o menino que não posso viver sem
ainda chupa o dedo
em segredo
me pergunto por que meus joelhos
estão sempre tão cinzentos
e se eu morrer
antes de amanhecer
mama está no quarto
com a porta fechada.

Eu preciso aprender a dançar
a tempo para a próxima festa
meu quarto é pequeno demais pra mim
considere se eu morro antes da formatura
eles cantarão melodias tristonhas
mas ao fim
dirão a verdade sobre mim
Não há nada que eu queira fazer
e coisas demais
que precisam ser feitas
mama está no quarto
com a porta fechada.

Ninguém nem para pra pensar
no meu lado nisso
Eu devia ter entrado pro Time de Matemática
minhas notas eram melhores que as dele
por que eu tenho que ser
aquela
que usa aparelho?
não tenho nada para vestir amanhã
será que viverei o suficiente
para crescer
e mama está no quarto
com a porta fechada.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Hanging Fire
Audre Lorde

I am fourteen
and my skin has betrayed me
the boy I cannot live without
still sucks his thumb
in secret
how come my knees are
always so ashy
what if I die
before morning
and momma's in the bedroom
with the door closed.

I have to learn how to dance
in time for the next party
my room is too small for me
suppose I die before graduation
they will sing sad melodies
but finally
tell the truth about me
There is nothing I want to do
and too much
that has to be done
and momma's in the bedroom
with the door closed.

Nobody even stops to think
about my side of it
I should have been on Math Team
my marks were better than his
why do I have to be
the one
wearing braces
I have nothing to wear tomorrow
will I live long enough
to grow up
and momma's in the bedroom
with the door closed.


1 183

Encarando

chove há cinco dias
sem parar
o mundo é
uma poça redonda
de água nublada
onde pequenas ilhas
estão só começando
a encarar
um menino pequeno
está liberando água
do seu canteiro
quando eu pergunto por quê
ele me diz
que sementes novas que nunca viram o sol
esquecem-se
e afogam-se fácil

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Coping
Audre Lorde

It has rained for five days
running
the world is
a round puddle
of sunless water
where small islands
are only beginning
to cope
a young boy
in my garden
is bailing out water
from his flower patch
when I ask him why
he tells me
young seeds that have not seen sun
forget
and drown easily.

.
.
.
1 014

Uma mulher fala

A lua marcada e tocada pelo sol
minha mágica é ágrafa
mas quando o mar der as costas,
deixará para trás meu formato.
Não busco favor
intocado pelo sangue
implacável como a praga do amor
permanente como meus equívocos
ou meu orgulho
Eu não misturo
amor com piedade
nem ódio com desdém
e se você me conhecesse
olhe dentro das entranhas de Urano
onde os oceanos sem sossego calcam

Eu não habito
em meu nascimento nem em minhas divindades
que sou sem idade e meio-formada
e ainda em busca
de minhas irmãs
bruxas em Daomé
me vestem em seus tecidos em camadas
como nossa mãe fazia
de luto.

Eu sou mulher
há muito tempo
cuidado com meu sorriso
Eu sou dissimulada, mágica velha
e a fúria nova do meio-dia
com todos os teus futuros largos
em promessa
Eu sou
mulher
e não branca

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

A Woman Speaks
Audre Lorde

Moon marked and touched by sun
my magic is unwritten
but when the sea turns back
it will leave my shape behind.
I seek no favor
untouched by blood
unrelenting as the curse of love
permanent as my errors
or my pride
I do not mix
love with pity
nor hate with scorn
and if you would know me
look into the entrails of Uranus
where the restless oceans pound.

I do not dwell
within my birth nor my divinities
who am ageless and half-grown
and still seeking
my sisters
witches in Dahomey
wear me inside their coiled cloths
as our mother did
mourning.

I have been woman
for a long time
beware my smile
I am treacherous with old magic
and the noon's new fury
with all your wide futures
promised
I am
woman
and not white.

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Identificação e contexto básico

Audre Geraldine Lorde, nascida em Nova Iorque, foi uma poeta, romancista, ensaísta e ativista de direitos civis. Escreveu predominantemente em inglês e é considerada uma figura central na literatura feminista negra e na teoria queer. A sua obra aborda as complexidades da identidade e da opressão nas sociedades americanas do século XX.

Infância e formação

Nascida no Harlem, Nova Iorque, Lorde era filha de imigrantes caribenhos. A sua infância foi marcada pela experiência da discriminação racial e pelas tensões culturais vividas pela sua família. Frequentou a Hunter College High School e, posteriormente, a Hunter College, onde começou a desenvolver o seu interesse pela escrita e pela poesia. A sua formação foi também moldada pelas suas experiências de vida e pelo ativismo social, que a expuseram a diversas ideologias e movimentos artísticos.

Percurso literário

Lorde começou a escrever poesia desde cedo, expressando as suas experiências e frustrações. O seu primeiro livro de poesia, "The First Cities", foi publicado em 1968. Ao longo da sua carreira, publicou nove livros de poesia e vários outros de ensaios e prosa, incluindo "Sister Outsider" e "The Cancer Journals". A sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo sempre um compromisso com a exploração das intersecções de identidade e opressão.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Lorde exploram temas como o racismo, o sexismo, a homofobia, a classe social, o envelhecimento e a mortalidade. A sua poesia é caracterizada por uma voz lírica e confessional, marcada por uma linguagem direta e poderosa. Utiliza metáforas vibrantes e ritmos intensos para transmitir as suas experiências e reflexões. O seu estilo é frequentemente classificado como poético-político, onde a exploração da identidade pessoal se entrelaça com a crítica social. Lorde foi uma pioneira na abordagem das intersecções de opressão, um conceito que se tornou fundamental para o feminismo interseccional.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Lorde viveu e escreveu durante um período de intensa atividade social e política nos Estados Unidos, incluindo o movimento pelos direitos civis, o movimento feminista e o movimento pelos direitos LGBTQ+. A sua obra reflete e dialoga com estes movimentos, oferecendo uma perspetiva única a partir da sua posição como mulher negra, lésbica e imigrante. Foi uma figura proeminente na cena literária e ativista, interagindo com outros escritores e intelectuais da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Audre Lorde foi casada com Edward Rollins e teve dois filhos. Mais tarde, estabeleceu relações duradouras com mulheres, vivendo abertamente como lésbica. A sua experiência com o cancro da mama, diagnosticado em 1978, teve um impacto profundo na sua escrita, resultando na publicação de "The Cancer Journals", uma obra visceral e honesta sobre a doença e a sobrevivência. As suas experiências pessoais de discriminação e luta foram centrais para a sua obra e ativismo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lorde recebeu vários prémios e honrarias ao longo da sua vida, incluindo bolsas da National Endowment for the Arts e do New York State Council on the Arts. O seu trabalho foi amplamente reconhecido pela sua importância para a literatura feminista negra e para a teoria queer, influenciando gerações de académicos e ativistas. A sua obra continua a ser amplamente estudada e celebrada internacionalmente.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Lorde foi influenciada por poetas como Langston Hughes e Gwendolyn Brooks. O seu legado é imenso, tendo impactado profundamente o feminismo interseccional, os estudos queer e a literatura negra. A sua obra inspirou inúmeros ativistas e escritores a abordar as complexidades da identidade e da opressão. É considerada uma das figuras literárias mais importantes do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Lorde tem sido objeto de extensos estudos críticos, que exploram as suas abordagens à identidade, poder e resistência. A sua ênfase na "diferença" como fonte de força e a sua defesa da necessidade de falar as verdades difíceis são temas recorrentes na análise da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Lorde era conhecida pela sua franqueza e coragem. Um aspeto notável da sua vida foi a sua transição para a autodefinição como "guerreira, poeta e lésbica", encapsulando as suas identidades multifacetadas. A sua dedicação à escrita e ao ativismo era quase total, moldada pelas suas convicções.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Audre Lorde faleceu em 1992 devido a complicações do cancro. A sua morte foi sentida como uma perda significativa para a literatura e o ativismo. A sua obra e o seu legado continuam a ser celebrados e a inspirar novas gerações.