Arsenii Tarkovskii

Arsenii Tarkovskii

1907–1989 · viveu 81 anos RU RU

Arsenii Tarkovskii foi um poeta russo, conhecido pela sua poesia de profunda ressonância existencial e a sua capacidade de evocar imagens vívidas da natureza e da memória. A sua obra, marcada por uma linguagem rica e um tom filosófico, aborda temas como o tempo, a morte, o amor e a busca por significado. O seu legado poético é notável pela originalidade e pela força expressiva, influenciando gerações de poetas na Rússia e além.

n. 1907-06-12, Kropivnitskiy · m. 1989-05-27, Moscovo

3 438 Visualizações

Vida, Vida

Não acredito em pressentimentos, e augúrios
Não me amedrontam. Não fujo da calúnia
Nem do veneno. Não há morte na Terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que
Ter medo da morte aos dezessete
Ou mesmo aos setenta. Realidade e luz
Existem, mas morte e trevas, não.
Estamos agora todos na praia,
E eu sou um dos que içam as redes
Quando um cardume de imortalidade nelas entra.
Vive na casa e a casa continua de pé
Vou aparecer em qualquer século
Entrar e fazer uma casa para mim
É por isso que teus filhos estão ao meu lado
E as tuas esposas, todos sentados em uma mesa,
Uma mesa para o avô e o neto
O futuro é consumado aqui e agora
E se eu erguer levemente minha mão diante de ti,
Ficarás com cinco feixes de luz
Com omoplatas como esteios de madeira
Eu ergui todos os dias que fizeram o passado
Com uma cadeia de agrimensor, eu medi o tempo
E viajei através dele como se viajasse pelos Urais
Escolhi uma era que estivesse à minha altura
Rumamos para o sul, fizemos a poeira rodopiar na estepe
Ervaçais cresciam viçosos; um gafanhoto tocava,
Esfregando as pernas, profetizava
E contou-me, como um monge, que eu pereceria
Peguei meu destino e amarrei-o na minha sela;
E agora que cheguei ao futuro ficarei
Ereto sobre meus estribos como um garoto.
Só preciso da imortalidade
Para que meu sangue continue a fluir de era para era
Eu prontamente trocaria a vida
Por um lugar seguro e quente
Se a agulha veloz da vida
Não me puxasse pelo mundo como uma linha.
(in Tarkóvski, Andrei. Esculpir o tempo, tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1990. - trata-se de um dos poemas recitados por Arseni Tarkóvski no filme O Espelho, de 1975).
:
Outra tradução:
VIVA, VIDA!
Não acredito em premonições, não temo superstições,
veneno e calúnia não vigoram sobre mim.
Não existe morte, senão plenitude no mundo.
Somos todos imortais; tudo é imortal.
Não é preciso temer a morte,
seja aos dezessete ou aos setenta.
Nada há além de presente e de luz;
escuridão e morte não existem neste mundo.
Chegados que somos todos à margem, sou um dos escolhidos
para puxar as redes quando o cardume da imortalidade as cumular.
Habitai a casa, e a casa se sustentará.
Invocarei um dos séculos ao acaso: eu o adentrarei
e nele construirei minha morada.
Sento-me portanto à mesma mesa
que vossos filhos, mães e esposas.
Uma só mesa para servir bisavô e neto:
o futuro se consuma aqui agora,
e quando eu erguer a minha mão,
os cinco raios de luz convosco ficarão.
Omoplatas minhas como vigas mestras,
sustentaram por minha vontade a revolução dos dias.
Medi o tempo com vara de agrimensor:
eu o venci como se voasse sobre os Urais.
Talhei as idades à minha medida.
Rumamos para o sul, um rastro de poeira pela estepe.
As altas ervas agitavam-se entre vapores
e o grilo dançarino,
ao perceber com suas antenas as ferraduras faiscantes,
profetizou-me, como monge possuído, a aniquilação.
Atei então, rápido, meu destino à sela,
ergui-me sobre os estribos como um menino
e agora cavalgo os tempos vindouros a meu ritmo.
Basta-me minha imortalidade,
o fluir de meu sangue de uma para outra era,
mas em troca de um canto quente e seguro
daria de bom grado minha vida,
conquanto sua agulha voadora
não me arrastasse, feito linha, mundo afora.
(Versão a partir de traduções para o inglês e outras línguas ocidentais: Álvaro Machado).
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Arsenii Aleksandrovich Tarkovsky (em russo: Арсений Александрович Тарковский) foi um proeminente poeta e tradutor russo. Nasceu em Yelysavethrad, Império Russo (atual Kropyvnytskyi, Ucrânia). A sua obra é considerada um pilar da poesia russa do século XX.

Infância e formação

Nascido numa família de origem russa e ucraniana, Arsenii Tarkovskii demonstrou desde cedo um interesse pelas artes e pela literatura. A sua formação foi marcada pelas turbulências históricas da Rússia no início do século XX, incluindo a Revolução Russa.

Percurso literário

Tarkovskii iniciou a sua carreira poética de forma relativamente tardia, mas rapidamente se destacou pela originalidade e profundidade da sua obra. Foi também um notável tradutor de poesia de diversas línguas, o que enriqueceu a sua própria visão literária. Colaborou em diversas publicações e antologias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Tarkovskii é caracterizada por uma profunda reflexão sobre o tempo, a memória, a mortalidade, o amor e a beleza da natureza. A sua linguagem é rica em imagens, com um ritmo musical e um tom frequentemente elegíaco e filosófico. Ele explorou tanto o verso livre quanto formas mais tradicionais, sempre com uma maestria técnica notável. Seus poemas transmitem uma sensação de universalidade, abordando a condição humana com sabedoria e emoção.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Tarkovskii viveu e escreveu num período de intensas transformações na Rússia, incluindo as Guerras Mundiais e o período soviético. Apesar das dificuldades e da censura, ele manteve a sua integridade artística. Pertenceu a uma geração de poetas que, de diversas formas, procuraram expressar a complexidade da vida em tempos difíceis.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Arsenii Tarkovskii foi casado e teve filhos, incluindo o aclamado cineasta Andrei Tarkovsky, com quem manteve uma relação complexa e influente. As suas experiências de vida, incluindo conflitos pessoais e a vivência em tempos turbulentos, moldaram profundamente a sua visão de mundo e a sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha enfrentado algum reconhecimento limitado durante a era soviética, a obra de Arsenii Tarkovskii ganhou maior projeção e apreço, tanto na Rússia quanto internacionalmente, especialmente após a sua morte. A sua poesia é hoje amplamente estudada e admirada pela sua beleza e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Tarkovskii foi influenciado pela tradição poética russa e pela literatura mundial. O seu legado é imenso, tendo impactado profundamente a poesia russa e inspirado não apenas outros poetas, mas também o seu filho, o cineasta Andrei Tarkovsky, cujos filmes frequentemente ecoam temas e atmosferas da poesia paterna. Ele é considerado um dos grandes poetas do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tarkovskii é frequentemente analisada sob a perspetiva da metafísica, da busca por transcendência e da contemplação da existência. A sua poesia oferece múltiplas camadas de significado, convidando o leitor a uma profunda introspeção.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade notável é a sua relação com o cinema, através do seu filho Andrei Tarkovsky, que frequentemente usava a poesia do pai em seus filmes ou se inspirava nela. Arsenii Tarkovskii também era conhecido por ser um leitor voraz e um estudioso de diversas culturas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Arsenii Tarkovskii faleceu em 1989. A sua obra continuou a ser publicada e celebrada, garantindo a sua memória e o seu lugar permanente na história da literatura russa.

Poemas

4

Vida, Vida

Não acredito em pressentimentos, e augúrios
Não me amedrontam. Não fujo da calúnia
Nem do veneno. Não há morte na Terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que
Ter medo da morte aos dezessete
Ou mesmo aos setenta. Realidade e luz
Existem, mas morte e trevas, não.
Estamos agora todos na praia,
E eu sou um dos que içam as redes
Quando um cardume de imortalidade nelas entra.
Vive na casa e a casa continua de pé
Vou aparecer em qualquer século
Entrar e fazer uma casa para mim
É por isso que teus filhos estão ao meu lado
E as tuas esposas, todos sentados em uma mesa,
Uma mesa para o avô e o neto
O futuro é consumado aqui e agora
E se eu erguer levemente minha mão diante de ti,
Ficarás com cinco feixes de luz
Com omoplatas como esteios de madeira
Eu ergui todos os dias que fizeram o passado
Com uma cadeia de agrimensor, eu medi o tempo
E viajei através dele como se viajasse pelos Urais
Escolhi uma era que estivesse à minha altura
Rumamos para o sul, fizemos a poeira rodopiar na estepe
Ervaçais cresciam viçosos; um gafanhoto tocava,
Esfregando as pernas, profetizava
E contou-me, como um monge, que eu pereceria
Peguei meu destino e amarrei-o na minha sela;
E agora que cheguei ao futuro ficarei
Ereto sobre meus estribos como um garoto.
Só preciso da imortalidade
Para que meu sangue continue a fluir de era para era
Eu prontamente trocaria a vida
Por um lugar seguro e quente
Se a agulha veloz da vida
Não me puxasse pelo mundo como uma linha.
(in Tarkóvski, Andrei. Esculpir o tempo, tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1990. - trata-se de um dos poemas recitados por Arseni Tarkóvski no filme O Espelho, de 1975).
:
Outra tradução:
VIVA, VIDA!
Não acredito em premonições, não temo superstições,
veneno e calúnia não vigoram sobre mim.
Não existe morte, senão plenitude no mundo.
Somos todos imortais; tudo é imortal.
Não é preciso temer a morte,
seja aos dezessete ou aos setenta.
Nada há além de presente e de luz;
escuridão e morte não existem neste mundo.
Chegados que somos todos à margem, sou um dos escolhidos
para puxar as redes quando o cardume da imortalidade as cumular.
Habitai a casa, e a casa se sustentará.
Invocarei um dos séculos ao acaso: eu o adentrarei
e nele construirei minha morada.
Sento-me portanto à mesma mesa
que vossos filhos, mães e esposas.
Uma só mesa para servir bisavô e neto:
o futuro se consuma aqui agora,
e quando eu erguer a minha mão,
os cinco raios de luz convosco ficarão.
Omoplatas minhas como vigas mestras,
sustentaram por minha vontade a revolução dos dias.
Medi o tempo com vara de agrimensor:
eu o venci como se voasse sobre os Urais.
Talhei as idades à minha medida.
Rumamos para o sul, um rastro de poeira pela estepe.
As altas ervas agitavam-se entre vapores
e o grilo dançarino,
ao perceber com suas antenas as ferraduras faiscantes,
profetizou-me, como monge possuído, a aniquilação.
Atei então, rápido, meu destino à sela,
ergui-me sobre os estribos como um menino
e agora cavalgo os tempos vindouros a meu ritmo.
Basta-me minha imortalidade,
o fluir de meu sangue de uma para outra era,
mas em troca de um canto quente e seguro
daria de bom grado minha vida,
conquanto sua agulha voadora
não me arrastasse, feito linha, mundo afora.
(Versão a partir de traduções para o inglês e outras línguas ocidentais: Álvaro Machado).
3 819

Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;

Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém... Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.
Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.
Arseni Tarkóvski (1907 - 1989)
1 243

O Verão

partiu
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
Tudo veio
para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
Nenhum mal
se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Agarra-me
a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
Nem uma folha
se consumiu
Nem uma vara quebrada…
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto

1 067

Os Primeiros Encontros

Os Primeiros Encontros

Cada momento passado juntos Era uma celebração, uma Epifania, Nós os dois sozinhos no mundo. Tu, tão audaz, mais leve que uma asa, Descias numa vertigem a escada A dois e dois, arrastando-me Através de húmidos lilases, aos teus domínios Do outro lado, passando o espelho.
Pela noite
concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria “Abençoada sejas!”
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Rios palpitantes
por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto domes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra “tu”
o seu novo sentido: significa “rei”.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.
Íamos,
sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes á procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino
seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.

1 150

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.