António Diniz da Cruz e Silva

António Diniz da Cruz e Silva

1731–1799 · viveu 68 anos PT PT

António Diniz da Cruz e Silva foi um vulto literário de relevo, cuja obra se destaca pela versatilidade e pela mestria formal. Poeta, dramaturgo e prosador, explorou com argúcia temas como a sátira social, o amor e a reflexão sobre a condição humana. O seu percurso literário, marcado por uma escrita elegante e uma profunda inteligência, contribuiu significativamente para a literatura portuguesa, deixando um legado que continua a ser estudado e apreciado.

n. 1731-07-04, Lisboa · m. 1799-10-05, Rio de Janeiro

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A francesia

Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de Monsieur os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir, e sobretudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.

- De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, padre jubilado, porventura
O saber o francês, que disso alarde
Fazer quisessem Vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês, para mim, o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.

- Não diga, senhor, tal! Que neste tempo
(Ó tempos, ó costumes! diz o padre)
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar! ver, senhor, como um pascácio,
De francês com dois dedos, se abalança
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar das ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a santa teologia,
Alta ciência, aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Sesto,
Aos Bacónios, aos Lélios, e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós sem limite vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas.
Ah! Se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que com a pena
Ou com a espada e lança, a pátria ornaram,
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam...
Mas eles têm desculpa. A negra fome
Os míseros mortais a mais obriga.
Sem saber o que escrevem, escrevendo
Buscam dela o remédio; e como logram
Os fins de seus intentos, o que escrevem
Seja ou não português, isso que monta?
Quem desculpa não tem, nem a merece,
É quem vedar-lho deve, e não lho veda...
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Biografia

Identificação e contexto básico

António Diniz da Cruz e Silva, nascido em Viseu, Portugal, foi uma figura proeminente na literatura portuguesa, conhecido pela sua obra multifacetada que abrange poesia, teatro e prosa. A sua atividade literária insere-se num período de transição e renovação na cultura portuguesa.

Infância e formação

Detentor de uma sólida formação académica, Diniz da Cruz e Silva dedicou-se aos estudos, o que lhe permitiu desenvolver um pensamento crítico apurado e uma vasta cultura. A sua educação formal e o contacto com os círculos intelectuais da época foram fundamentais para moldar o seu percurso literário.

Percurso literário

O percurso literário de Diniz da Cruz e Silva foi marcado pela produção de obras em diferentes géneros. Iniciou a sua carreira com a publicação de textos que cedo revelaram o seu talento e a sua capacidade de intervenção na vida cultural. Ao longo do tempo, consolidou a sua posição através de uma obra consistente e diversificada, colaborando com diversas publicações e estabelecendo-se como um nome de referência.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de António Diniz da Cruz e Silva é notável pela sua diversidade. Na poesia, explorou o lirismo e a sátira com igual mestria. O seu estilo é caracterizado pela elegância da linguagem, pelo uso de um vocabulário rico e pela sofisticação da construção frásica. Os temas abordados são vastos, incluindo a crítica social, as relações humanas e a reflexão sobre a existência.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Diniz da Cruz e Silva viveu num período em que Portugal atravessava transformações significativas. A sua obra reflete as influências do Iluminismo e das correntes literárias da época, dialogando com os debates culturais e as questões sociais do seu tempo. Manteve contacto com outros intelectuais e escritores, participando ativamente na vida cultural.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de Diniz da Cruz e Silva são menos detalhadas, mas é sabido que a sua dedicação às artes e às letras moldou a sua existência. As suas interações sociais e as suas convicções pessoais terão certamente influenciado a sua produção literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção António Diniz da Cruz e Silva foi amplamente reconhecido em vida pela sua obra. A sua inteligência e a qualidade dos seus escritos valeram-lhe prestígio nos círculos literários e intelectuais, garantindo um lugar de destaque na literatura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por autores clássicos e contemporâneos, Diniz da Cruz e Silva, por sua vez, deixou um legado importante. A sua obra serviu de inspiração para gerações posteriores, consolidando a sua posição no cânone literário e continuando a ser objeto de estudo e admiração.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Diniz da Cruz e Silva oferece múltiplas vias de interpretação, permitindo análises críticas focadas na sua perspicácia social, na sua profundidade lírica e na sua mestria estilística.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Alguns aspetos menos conhecidos da sua personalidade e hábitos de escrita podem ser descobertos através do estudo aprofundado dos seus manuscritos e correspondência, caso estes estejam disponíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Após a sua morte, a memória de António Diniz da Cruz e Silva foi preservada através da reedição das suas obras e do estudo contínuo do seu legado literário, que se mantém vivo na história da literatura portuguesa.

Poemas

3

Soneto

Da bela mãe perdido Amor errava
Pelos campos que corta o Tejo brando,
E a todos quantos via suspirando
Sem descanso por ela procurava.

Os farpões lhe caíam da áurea aljava;
Mas ele de arco e setas não curando,
Mil glórias prometia, soluçando,
A quem à deusa o leve, que buscava.

Quando Jônia que ali seu gado pasce,
Enxugando-lhe as lágrimas que chora,
A Vênus lhe mostrar, leda, se oferece:

Mas Amor dando um vôo à linda face
Beijando-a lhe tornou: "Gentil pastora,
Quem os teus olhos vê, Vênus esquece".

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A francesia

Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de Monsieur os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir, e sobretudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.

- De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, padre jubilado, porventura
O saber o francês, que disso alarde
Fazer quisessem Vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês, para mim, o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.

- Não diga, senhor, tal! Que neste tempo
(Ó tempos, ó costumes! diz o padre)
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar! ver, senhor, como um pascácio,
De francês com dois dedos, se abalança
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar das ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a santa teologia,
Alta ciência, aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Sesto,
Aos Bacónios, aos Lélios, e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós sem limite vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas.
Ah! Se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que com a pena
Ou com a espada e lança, a pátria ornaram,
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam...
Mas eles têm desculpa. A negra fome
Os míseros mortais a mais obriga.
Sem saber o que escrevem, escrevendo
Buscam dela o remédio; e como logram
Os fins de seus intentos, o que escrevem
Seja ou não português, isso que monta?
Quem desculpa não tem, nem a merece,
É quem vedar-lho deve, e não lho veda...
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Ignorância e mau saber

[...]Pois se francês não foi, replica Lara,
Como monsieur lhe chamam?
Cum sorriso
Lhe torna o padre-mestre: Não se admire,
Que isto está sucedendo a cada passo;
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de monsieurs os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e, como é moda,
A quisemos seguir: e sobre tudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.

De tanto peso, pois, lhe volve o Lara,
É, padre jubilado, porventura
O saber francês que disso alarde
Fazer quisessem vossas reverências?
Por acaso sem esse sacramento
Não podiam salvar-se e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês para mim o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.

Não diga, senhor, tal; que, neste tempo,
Ó tempos, ó costumes! Diz o padre,
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar, ver, senhor, como um pascácio
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar nas ciências mais profundas
Sem que lhes escape a santa teologia,
Alta ciência aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Scoto,
Aos Bacónios, aos Lulos e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós, sem limite, vai grassando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa português casta linguagem,
Que em tantas traduções corre envasada
(traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas!
Ah! Se as marmóreas campas levantando
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões que com a pena
Ou com a espada e lança a pátria honraram,
Os vossos ideotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos ridículos autores
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito certamente pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhas modas afrontavam
Segunda vez de pejo morreriam.
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