Escritas

Lista de Poemas

Geografia de Portugal

Noventa mil quilómetros quadrados
de ousadia e sofrimento:

A oriente, a Espanha,
A norte, a terra galega.
A sul e ocidente, a dor tamanha
Do mar que já não chega,

Mas onde ainda ficaram,
Talhadas em rocha dura,
As ilhas que semearam
as pégadas da aventura.

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Os Meus Heróis

Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha

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Portucale

As montanhas abrem alas. Vai passar
o rio douro da lusa madrugada.
Ansias em socalcos sobre o vale
a saudar
o começo da vida:
Portucale
não é porto de chegada,
é o sal
e a fome aventurosa da partida.

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Os Títulos

Rei de Portugal e dos Algarves
e o resto que o mar te deu.

Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.

Agora tens o que é teu!

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Dia de Portugal

Dia de Portugal. Dia de Camões
e das Comunidade.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.

País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.

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Portugal

Escrevo o teu nome, corpo inteiro
de uma saudade celular.
A imagem que me vem é de um pinheiro
numa fraga batida pelo mar.
Marinheiro
caminheiro
entre pélagos de noite e de luar.

Praia de vento à espera.
Ermas colinas, rugas do teu rosto,
cortadas por um longo veio de mosto
que traz em cada outono a primavera.
Trovador
lavrador
de um chão de saibro e quimera.

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Gloria Efémera

O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.

Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.

Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.

E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.

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O Comicio

Da tribuna envergonhada
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.

O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.

Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.

Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.

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Comentários (1)

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António   Carvalho
António Carvalho
2019-04-30

Agora mesmo percebi o porquê ; destes poemas não estarem minimamente divulgados...não interessa aos políticos