Lista de Poemas
Idílio
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;
Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:
Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces
O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
Solemnia Verba
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...
Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!
Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,
Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.
Maria
Tenho falado damores...
Das saudades e dos sonhos
Com que embalo as minhas dores...
Entre os ventos suspirando
Vagas, tenues harmonias,
Tendes visto como correm
Minhas doidas fantasias.
E eu cuidei que era poesia
Todo esse louco sonhar...
Cuidei saber o que e vida
So porque sei delirar...
So porque a noite, dormindo
Ao seio duma visao,
Encontrava algum alivio,
Meu dorido coracao,
Cuidei ser amor aquilo
E ser aquilo viver...
Oh! que sonhos que se abracam
Quando se quer esquecer !
Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia ja levou...
A luz d?estranha alvorada
Hoje minha alma acordou !
Esquecei aqueles cantos...
So agora sei falar !
Perdoa-me esses delirios...
So agora soube amar !
No Turbilhão
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
arrebatado em vastos turbillhões...
Num espiral, de estranhas contorções,
E donde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...
-Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,
Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...
Noturno
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
A João de Deus
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;
É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.
O que há de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida;
Se procura, só acha... o desatino!
Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degrêdo, o céu destino.
O Convertido
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
Evolução
em tempo, e fui no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onde, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo ...
Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...
Hoje sou homem – e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...
Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente á liberdade.
Nihil
Homem! Mendigo do Infinito!
Abres a boca e estendes os teus braços
A ver se os astros caem dos espaços
A encher o vácuo imenso do finito!
Porque sobes à rocha de granito?
Porque é que dás no ar tantos abraços?
E cuidas amarrar com férreos laços
Um reflexo da sombra de um espírito?
Vê que o céu, por escárnio, a luz nos lança!
Que, à tua voz, a voz da imensidão
Responde com imensa gargalhada!
A ideia fechou a porta à esperança
Quando lhe foi pedir agasalho e pão....
Deixou-a cara a cara com o Nada!! ..
Nox
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...
Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...
Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,
E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
Comentários (0)
NoComments
Arte Espírita - Antero de Quental
AULA 26 | REALISMO: ANTERO DE QUENTAL (Estilo de Época) | PROF. JORGE MIGUEL
Antero de Quental, "Sonetos Completos"
O Essencial Sobre Antero de Quental
Antero de Quental
Noturno | Poema de Antero de Quental com narração de Mundo Dos Poemas
Contemplação | Poema de Antero de Quental com narração de Mundo Dos Poemas
ANTERO DE QUENTAL
antero de quental - poesia portuguesa
ANTERO DE QUENTAL
LUÍS DE FREITAS BRANCO - ANTERO DE QUENTAL l SYMPHONIC POEM l (1908)
Hino À Razão | Poema de Antero de Quental com narração de Mundo Dos Poemas
Nirvana - Antero de Quental
Antero de Quental - "Na Mão de Deus" - por Maria do Céu Guerra
DEUS (Antero de Quental, Chico Xavier, Júlio Corradi e Zé Henrique Martiniano)
Série Poesia Espírita - "Deus" do Espírito Antero de Quental
Nirvana - Antero de Quental
Mia Morgado - Maria (Poema de Antero de Quental)
Poesia para a alma #16 - Deus (Antero de Quental/Chico Xavier)
Frase de Antero de Quental
Antero de Quental - O Palácio da Ventura
Incognoscível- Antero de Quental (Chico Xavier) - Tarcísio Lima - Grupo AME
Logos - Antero de Quental
Soneto de Antero de Quental
Luís de Freitas Branco: Antero de Quental (Symphonic Poem)
Hora da Poesia - Antero de Quental - #planoclaro.com
Palácio da Ventura | Antero de Quental
Antero de Quental - Na mão de Deus
A Luta - Antero de Quental - Caio Ribau
Antero de Quental - time lapse
A um poeta - Antero de Quental
ANTERO DE QUENTAL - NOTURNO
Antero de Quental
Time-Lapse Jardim Antero de Quental
Jardim Antero de Quental Poeta e filósofo português
Cardiólise - Nirvana ( Poema de Antero de Quental)
Oceano Nox - Antero de Quental
Deus - Antero de Quental
REALISMO PORTUGUÊS: Antero de Quental e Cesário Verde
Poesia para a alma #29 - Eterna lei (Antero de Quental/Chico Xavier)
Vox Pop - O que sabes sobre Antero de Quental?
Os 180 anos de Antero de Quental
A um poeta - Antero de Quental
Antero de Quental - A um Poeta
Antero de Quental | Literatura Portuguesa
Psycographed letter - Antero de Quental
Antero de Quental- Português
Antero de Quental - Na Mão de Deus
Antero de Quental - Tormento do Ideal
Antero de Quental - Ignoto Deo
Português
English
Español