Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

1924–1986 · viveu 61 anos PT PT

Alexandre O'Neill foi um poeta português, figura marcante da poesia surrealista em Portugal. Sua obra, muitas vezes irreverente e crítica, transita entre o lirismo e o humor, explorando a linguagem de forma inventiva e surpreendente. É conhecido por sua capacidade de subverter o sentido comum das palavras, criando imagens oníricas e críticas à sociedade. Sua poesia é um convite à desconstrução da realidade aparente, revelando o absurdo e o maravilhosos escondidos no cotidiano. O'Neill é um dos nomes mais originais e influentes da poesia portuguesa do século XX.

n. 1924-12-19, Lisboa · m. 1986-08-21, Lisboa

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Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!
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Poemas

47

O chapéu de Tchekov

tchekov anton rebocava o seu
pulmão pelos ares da crimeia
mais ou menos quando a engomadeira
de cesário passava os seus pulmões
pelo carvão do ferro

gorki vai visitá-lo palmilhá-lo e à cancela
observa-o no umbroso jardim chapéu na mão
aparando no côncavo um cambiante raio
do sol que pela folhagem trémula se infiltra

gorki retém-se vê o tostão de sol
cair no chapéu de anton neto de servos
vê anton virar tac o chapéu e espreitar para dentro
como quem tirado o chapéu nele procurasse
a sua própria cabeça

tchekov brincava com o alheio sol
na pessoal solidão

in:A saca de orelhas(1979)
4 862

VI

A que vens,solidão,com teu relógio
de ponteiros de visgo,de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens,ó camarada solidão?

Companheira,amiga,até amante,
até ausente,ó solidão,te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás,ó solidão!

A que vens,enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?

A que vens ,solidão?Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto,encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum,ó solidão!

in:Poemas com Endereço(1962)
4 774

O enforcado

No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.

4 784

De porta

em porta
-Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

-Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô

-Dinheiro? Isso não!
Já sei,pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho...

-Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

-Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele tem não tem mãe
e não é do Norte...

-Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?

4 779

AutoCrítica

Cesário diz-me muito:gostava de ferramentas,como eu,
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar,originais e exactos,os seus alexandrinos,
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia que
não vinha da beleza,mas da perfeita
adequação.
Não tem halo,tem elo e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.

(Que feliz eu seria,ó prima,se o Cesário
me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre,embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele(ai de mim,coitadinho!)

(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima,um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto,a prima inclusive!)

Muito querido Pessoa,saberias agora
que não basta ser lúcido,merda,que não basta
a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer basta de provincianos!

in:Feira Cabisbaixa(1965)
6 118

Poesia-Cão

Com que então,coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.

Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,

meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.

4 407

Pelo Alto Alentejo-2

Meto butes á inteira planura.
Esboroa-se a terra.Lá pra trás,
sobraram o paleio e a literatura.
Aqui,na aparência,só a paz.

Mas que paz se desdobra a toda a anchura
do horizonte a que o olhar se faz?
Esta página em branco(ou sem leitura)
não terá uma chave por detrás?

Eu sei ler a cidade,mas,aqui,
sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá,como o alibi
da paisagem que a outras me transporta.

Hei-de voltar pra ler e presumir,
quando Alentejo se puser a rir ...

in:Entre a Cortina e a Vidraça(1972)

4 375

Comentários (6)

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Sinceramente este foi um dos poemas mais eloquentes que já li sobre amizades ... é de uma delicadeza surrealista grandiosa.

mgenthbjpafa21

Ok, apagaram hoje vou escrever sobre o grande OºNEILL

Zéca
Zéca

Muito Romântico :--

Pedro
Pedro

Gostei muito, os poemas são bonitos

Ivo
Ivo

Obrigado pela informação!